Sem limites

Algumas pessoas se entregam à carreira ou aos negócios de maneira total, sem medir o quanto isso impactará sua vida pessoal e relacionamentos. É necessário estabelecer limites

Um colega compartilhou comigo o que aconteceu em uma entrevista de trabalho. Depois de várias fases concluídas, a vaga dependia de uma conversa com o diretor financeiro, que lhe olhou nos olhos e disse: – Estou procurando alguém que não tenha limites para o trabalho. Você é essa pessoa? Meu colega precisava da vaga. Estava já há alguns meses fora do mercado de trabalho. As condições eram boas. Mas ele respondeu com a verdade que já lhe acompanhava desde o início de seu casamento: – Se a frase “sem limites” significa que terei que colocar a empresa acima da família, da minha saúde e até das minhas convicções espirituais, então minha resposta é negativa. O diretor deu um sorriso e, com um vigoroso aperto de mão, disse: – É de gente assim que estou à procura. Você está contratado!

Aquele diretor, por certo, não faz parte de um grupo de líderes que eu chamo de “sem limites”. Eles estão em todos os ambientes profissionais. Dizem que estão prontos a darem ‘tudo de si’ para a empresa, carreira e vida profissional. E não estão brincando quando dizem isso. Para eles, não há limite de horário, estão alertas 24 horas e dispõem de todo o tempo do mundo quando o assunto é trabalho.

O vínculo mais forte que têm é com a empresa ou carreira, e qualquer outro vínculo – até a família – é colocado em segundo plano. Sempre estão dispostos a realizar alguma coisa, ainda que isso resulte no prejuízo de sua saúde, o que, para eles, também é colocado em segundo plano. Diversão, férias, hobby é para os fracos ou desocupados – dizem vigorosamente esses verdadeiros ‘super-homens (ou mulheres) ’ que, para atender a uma demanda profissional, são capazes de tudo. Isso mesmo, tudo. E aí incluo não apenas a atividade em si, mas o que a ela se relaciona. Se for preciso sacrificar algum valor ético ou moral, eles topam. Se for necessário passar por cima de alguém, estão preparados. Enfim, não há limites para essas pessoas que, em busca de dinheiro, fama, ascensão profissional ou ‘cumprimento do dever’ farão tudo para atingir seu objetivo.

Por que alguém se torna uma pessoa ‘sem limites’? Richard Foster (Sexo, Dinheiro e Poder: Um Chamado à Renovação Ética. Editora Mundo Cristão, 2005) diz que é a ambição. Por vezes, ela vem escondida por trás de uma fachada de compromisso ou até espiritualidade. Muitos chegam a culpar Deus por levarem um estilo de vida altamente destrutivo, mas que, segundo eles, atende a uma vocação espiritual. Até a crise econômica e a manutenção de um emprego podem justificar um estilo de vida em que o trabalho é a única coisa que realmente importa. Mas, à semelhança do diretor da empresa de meu colega, ainda há ambientes nos quais não se espera e nem se aceita pessoas “sem limites”.

Pelo contrário, o que se almeja nesses lugares é que as pessoas estabeleçam limites que as mantenham sãs física, emocional e espiritualmente. Onde tenham tempo para si e para a família. Onde possam nutrir sua fé e manter sua ética e moral intocadas. Se o próprio Cristo é visto nos Evangelhos como alguém que teve tempo para descansar, comer uma refeição com seus amigos discípulos e dar um passeio pelo Mar da Galileia, então, será que para nós, meros mortais, isso é impossível? Cuidado para não descobrir, da pior forma possível, que ou você impõe limites para viver ou limita a vida. Em geral, é no hospital ou no cemitério que essas descobertas são feitas.

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