Seja comprometido, mesmo que ninguém saiba

O artigo faz a apologia da postura compromissada, seja como empregado ou como empreendedor. E agrega o elemento da discrição a essa postura.

Em 2013, escrevi seis capítulos de sociologia para uma editora de São Paulo. A editora enviou previamente um roteiro com os assuntos que queria. Eu tinha uma margem de liberdade para escrever, mas não podia fugir da abordagem pedida. Receberia 1.200 reais por capítulo.

No capítulo sobre antropologia, havia a indicação para que eu inserisse um trecho do livro O candomblé da Bahia, do antropólogo francês Roger Bastide. Embora minha biblioteca fosse bem abastecida, eu não tinha esse livro. De modo que, nos dias seguintes, fiz um périplo pelas livrarias de São Paulo à procura da obra.

Não demorei a descobrir que O candomblé da Bahia estava esgotado, o que me obrigou a fazer uma romaria pelos sebos do centro velho. Minha busca foi em vão. Bastide andava esquecido pelas editoras brasileiras. Comecei a achar que teria de trocar a citação pela de outro antropólogo. Como última tentativa, consultei os sebos online. Também neles não havia nada de Roger Bastide.

Foi então que um atendente da Livraria da Vila me ligou. Eu havia deixado o meu telefone com ele dias antes. Sim, ele havia encontrado algo do Bastide. Não era O candomblé da Bahia, mas Impressões do Brasil, coletânea de ensaios inéditos do antropólogo que acabara de ser lançada pela Imprensa Oficial do Estado.

– Interessa? – ele perguntou.

– Interessa – respondi, e corri para a livraria.

Depois de agradecer ao atendente, sentei numa das poltronas e passei a folhear o livro. Edição luxuosa, formato grande, papel couchê, fartamente ilustrada. Identifiquei três ou quatro trechos que substituiriam à altura a citação pedida. Senti orgulho por não ter desistido. O capítulo perderia muito sem Bastide.

Quando perguntei o preço, porém, tomei um susto:

– Oitenta reais!

Eu acabava de ser colocado frente a frente com o meu senso profissional. Sabia que a editora não cobriria nem reporia o valor, caso eu comprasse o livro. Para eles, tanto fazia colocar Bastide ou outro antropólogo qualquer. O importante era entregar o capítulo no prazo. Então fiz o que o meu senso mandou: peguei o livro e me dirigi ao caixa.

O capítulo ficou completo. Os professores e os alunos que fossem usar o livro desfrutariam da riqueza do pensamento de Roger Bastide. E Impressões do Brasil passou a figurar na minha biblioteca com um orgulho secreto, como um troféu pela minha postura.

Outro orgulho: a editora nunca ficou sabendo.

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