Sala de aula como prêmio

Qualquer organização moderna estará fadada ao fracasso se não descobrir qual é sua atividade fim e se não elege-la como prioridade da gestão. Uma prática comum nas redes públicas de ensino tem sido utilizar a sala de aula e a escola como punição para desafetos políticos ou profissionais discordantes das normas estabelecidas. Assim, o professor que não agrada ao sistema deve ficar assoberbado de aulas, alunos e afazeres em sala de aula, como castigo pela sua postura de contestação ou de rebeldia. O oposto disso, isto é, o profissional dócil, que concorda com a política dominante e que é seguidor dos interesses superiores, é agraciado com a saída das atividades diretas com alunos e se possível da escola, indo trabalhar em alguma repartição pública da estrutura educacional, preenchendo papéis, participando de reuniões inúteis e exercendo rotinas puramente burocráticas, atrás de uma mesa. A este profissional burocrata da educação defensor da política vigente é fornecida uma série de benesses: maior vencimento, agregações de vantagens por ocasião da aposentadoria, gratificações especiais, flexibilidade nos horários, participação em eventos caros, oportunidade para se reciclar, etc.. Um sistema educacional que usa a sua atividade principal como punição e valoriza somente a atividade de apoio, no limite tende à desagregação e a péssima qualidade dos serviços. Um dos principais desafios das redes públicas de educação e das políticas educacionais tem sido estimular e fomentar o trabalho dos educadores junto ao alunado. Aliás, um bom indicador de que a política educacional implementada é séria, comprometida e de excelência é verificar como vem sento tratado o profissional que está em contato direto com os alunos. Se quem está fora das aulas ou da escola tem mais privilégios que aquele que lida diretamente com os estudantes, os papéis e as prioridades estão perigosamente invertidos na política adotados. Também o plano de carreira do magistério e do funcionalismo deve deixar bem claras essas prioridades, estimulando e valorizando quem efetivamente leva o trabalho de educar no dia-a-dia dos educandários. Os números podem indicar bem como vem sendo gerida a rede pública educacional de uma cidade, estado ou país, respondendo-se as seguintes questões: 1) Quantos professores estão nas salas de aula e quantos estão fora? 2) Qual o salário médio dos que estão dando aula e qual a média salarial dos que não estão dando aula? 3) Quais as vantagens e gratificações para quem está com os alunos? Quais as vantagens de carreira para quem não está efetivamente com os estudantes? Romper com essa prática de privilégios sistêmicos a quem não merece é difícil, pela teia de interesses criada ao longo de décadas e também pela cultura arcaica já enraizada nas administrações públicas. Porem, a necessidade de mudanças impõe novas práticas administrativas para um melhor uso dos recursos públicos, e por serviços educacionais mais eficazes em favor do contribuinte. Os novos administradores públicos, particularmente os gestores municipais, têm a oportunidade de mudar essa prática tão perversa à educação pública e aos profissionais comprometidos com um ensino de qualidade. Afinal, quem elege as administrações é a grande massa necessitada e não alguns burocratas compromissados somente com suas vantagens e privilégios retrógrados.

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    Hélio Júnior

    Hélio Júnior

    Doutor em Ensino de Ciências e Matemática
    Mestre em Administração - Gestão Financeira
    Especialista em Administração Pública
    Especialista em Estatística
    Especialista em Modelagem Matemática
    Especialista em Educação
    Professor de Estatística e Métodos Quantitativos em Gestão
    Palestrante sobre Educação Tecnológica, Inclusão e Gestão

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