Sair da zona de conforto e ir para onde?

Talvez não esteja na zona de conforto o abismo, mas sim nas escolhas dos caminhos baseados nos próprios valores, na falta de se autoconhecer, de perceber quem realmente é, se tornando opaco, regado pelo próprio ego e aprofundando-se em uma moral social líquida, conectada a hábitos e crenças cegos diante das possibilidades

Segundo a definição proposta por Alasdair White, a zona de conforto é uma série de ações, pensamentos e/ou comportamentos que uma pessoa está acostumada a ter e que não causam nenhum tipo de medo, ansiedade ou risco. Nessa condição, a pessoa realiza um determinado número de comportamentos que lhe dá um desempenho constante, porém limitado, e com uma sensação de segurança.

Zona de conforto tornou-se jargão em quase todos treinamentos para desenvolvimento humano. A frase “Você precisa sair da zona de conforto” parece que serve como resposta a tudo, apresentando-se como a verdade para o caminho em busca da felicidade. Como se todas as respostas estivessem no movimento constante da procura por algo. Insanamente transgredindo a própria natureza humana de se estabelecer dentro do momento oportuno de segurança, de aproveitar e vivenciar o agora, sentir-se conectado com o estado de ser, usufruir daquilo que Aristóteles chamava de "Philia, amor pelo que já tem", ou como Nietzsche que chamava de "amor fati, aceitação integral da vida de como ela é", do que é real.

Talvez não esteja na zona de conforto o abismo, mas sim nas escolhas dos caminhos baseados nos próprios valores, na falta de se autoconhecer, de perceber quem realmente é, se tornando opaco, regado pelo próprio ego e aprofundando-se em uma moral social líquida, conectada a hábitos e crenças cegos diante das possibilidades.

Shirzad Chamine, ex-presidente e CEO do Coaches Training Institute (CTI) diz em seu livro que a maior parte dos seus clientes estão na metade dos 40 anos ou no começo dos 50 anos. Eles mostram sinais de alguma espécie de crise de meia idade. Segundo ele, ironicamente, as crises mais profundas são vivenciadas por aqueles que alcançaram o maior número de objetivos que se propuseram a alcançar, pessoas que efetivamente não ficaram na zona de conforto. Esses objetivos costumam estar relacionados às conquistas financeiras e a atingir o ápice da profissão. Porém, a crise vem finalmente quando conseguem alcançar esses objetivos há tanto tempo buscados e então se dão conta que a felicidade prometida que supostamente os acompanharia neste movimento não está em lugar algum. No núcleo da crise de meia idade está a pergunta: Será que existe ainda algo mais que eu possa fazer para me trazer a paz e a felicidade que busco há todos esses anos?

Você será feliz QUANDO…

Shizard ainda diz que quando você examina essa inverdade de perto, se depara com a grande questão de que você não pode ser simplesmente os bens conquistados, viver na busca constante, já que este pretexto coloca a condição de que a felicidade está interligada às ambições pessoais de quando você conseguir seu primeiro milhão, quando for promovido, quando você conseguir ser presidente da sua próxima empresa, quando criar os filhos e os mandar para a faculdade, quando alcançar a segurança da aposentadoria etc. Sempre havendo a necessidade da busca e de nunca serem suficientes suas conquistas, você esquece de usufruir da benevolência que cada êxito pode proporcionar, do instante único e exclusivo da vida, de viver o agora.

Não viver o agora torna você um alvo em movimento na promessa a ser cumprida, como quando conseguir seu primeiro milhão; você com certeza vai comemorar, talvez por alguns minutos, dias, para depois se convencer de que não pode realmente ser feliz se não tiver a segunda casa do campo, afinal, você é tão inteligente quando os outros, e é justo que também tenha uma, certo? O quanto é renegociado assim que está prestes a ser alcançado. Milhões de pessoas morrem todos os anos ainda esperando alcançar o último quando.

Esse alvo em constante movimento pode se transformar em uma miragem, como uma técnica-chave para garantir sua eterna infelicidade, já que seus critérios de objetivos pessoais deixam de ser vivenciais, sem aproveitar e desfrutar daquilo que já conquistou, resultando em comparações relativas que são completamente arbitrárias: "Se alguém tem mais eu também tenho que ter!". Uma total inversão de valores.

Esta sistemática de valores líquidos é visivelmente observada no cotidiano social atual. Percebe-se que hoje as pessoas pagam para fazer propaganda para as empresas, tornando-se verdadeiros outdoors, uma inversão em que, segundo Zygmunt Bauman adverte, "as pessoas não são mais consumidores que compram, mas, sim, tornaram-se um objeto de consumo". Hoje as lojas se transformam em farmácias, comprar tornou-se uma espécie de calmante para os “ansiosos e depressivos”. A compulsividade atua como um remédio para alimentar o ego humano. As pessoas se submetem a tudo para mostrar o poder consumista e a fama. Bauman em seu livro Uma vida para o consumo, mostra que a sociedade demonstra ser insegura quanto ao consumo. As pessoas transformaram até mesmo as redes sociais numa maneira de transmitir esta ideologia do consumismo, onde a sociedade se tornou confessional de que todos buscam apresentar aquilo que quase sempre não são, relacionados a um vazio dos próprios valores.

Muitos acreditam que sair da zona de conforto vai ao encontro da alegria de viver e que isto está correlacionado ao sucesso, uma vida almejada de objetivos que têm que alcançar – você só é bem sucedido quando alcança as metas – mas quando você não alcança aquilo que você quer, então a vida deixa de ser boa. O professor Leandro Karnal observa que a felicidade moderna está ilusoriamente conectada com a capacidade de consumo de cada um – a inclusão e exclusão social estão associadas hoje ao consumo. É algo tão intenso hoje, que a maioria dos crimes atuais estão interligados ao status de ter. Não se rouba mais pela miséria mas sim pelo status alheio, em uma gana de não aceitar que outros consumam mais que você.

O mercado diz saia da caixinha, saia da sua zona de conforto, tornando-se uma reflexão comum, sobreposta no proposito real, uma exigência que converte no ato de se viver feliz em algo muito mais complexo do que no passado. Luc Ferry aborda em seu livro O que é uma vida bem sucedida? como as sociedades contemporâneas nos incitam a pensar o “êxito” ao modo do devaneio. Sonho de posse. Logo os valores se tornaram subjetivos durante os séculos. Para Ferry é o indivíduo que tem que entender o que é uma vida bem sucedida, ele tem que julgar diante a suas próprios valores e razões que traga a felicidade e a renda necessária para viver. O problema é se libertar do julgamento do mundo, entre as necessidades individuais e aquelas que o mundo quer que você tenha.

Para superar as pressões que o mundo atual impõe é necessário basear-se nos próprios valores e é fato que cada pessoa tem seus valores, que está diretamente interligado as próprias ações de escolha. O problema é que não se pode esperar muito valor daqueles que vivem a síndrome dominante do fazer o possível. Talvez não seja a zona de conforto a dificuldade de não encontrar a alegria na vida, mas sim a falta de capricho ao deixar de fazer o melhor! Fazer o melhor que se pode fazer com as condições que possui para fazê-lo – e não apenas o possível.

Deixar de fazer o possível para sempre fazer o melhor que se pode fazer é questão de escolha, é a certeza que está fazendo aquilo que efetivamente faz bem para si mesmo, transformando cada movimento em alegria. Ter capricho nas ações que faz. Não mediocrizar os instantes da vida com desculpas para não fazer o melhor, reclamar, resmungar, criticar, buscar diminuir as pessoas, sendo pessimistas com tudo e com todos. Sempre justificando as atitudes com ideias céticas pela falta de vontade! Albert Schweitzer dizia que “A tragédia não é como um homem morre, a trágica e aquilo que morre no homem enquanto ele ainda está vivo”, mas o que incide é que nem todos entendem assim, os valores humanos estão equivocados, e ao que parece, cada vez menos as pessoas se preocupam com o próprio legado. O desafio maior é impedir que a vida se torne medíocre, pequena, morna, individual e egoísta já que no mundo contemporâneo além do respeito da própria natureza, talento e aptidão, pressupõe que para encontrar a felicidade também tem que fazer parte a sociabilização, é o convívio harmônico que faz o mundo funcionar melhor. Se desprezar os afetos das pessoas, a alegria estará fadada a ruina.

Assim como tantas outras coisas na vida, a busca pelo capricho está inteiramente em nossa cabeça, conforme descrito por Carol Dweck, professora e psicóloga na Stanford University, que estuda a motivação e a realização com crianças e adultos jovens há quase 40 anos, reunindo um conjunto solido de pesquisas empíricas rigorosas que transformou em superstar da ciência comportamental contemporânea. Os insights, a marca registrada de cada um, sustenta aquilo que faz da forma àquilo que conquista. A crença que tem em si mesmo e na natureza das capacidades – por ela chamadas de “teoria pessoais” – determinam como cada um interpreta as experiências e estabelecem os limites do que conquistar. Por isto é factível dizer que a alegria e tristeza vão acontecendo conforme os sabores da vida, e é claro que sempre irão existir momentos que entristecem e outros que alegram.

Para Espinoza, filosofo do Século XVII, a perfeição de fazer o melhor nada mais é do que uma espécie de tendência que proporciona a alegria, o ser é movido pela potência de agir, quando se alegra dentro do mesmo corpo, você tenho mais energia de você em você. Quando você se entristece você tem menos de você em você, deixando-o vulnerável, menos resistente contra os desafios do mundo. Alegria é a maior resistência sobre o mundo agressor, a tristeza e a menor resistência contra o mundo agressor. A Tristeza tende sempre a vencer porém o grande segredo é justamente resistir a este mundo. Para Espinoza, Nietsche e Freud “Só se morre de tristeza!”

A filosofia é a grande fonte de conhecimento para encontrar as trilhas de reflexão da busca incessante do ser humano pela a felicidade. Nela é possível encontrar uma base de inspirações que possam ajudar a responder a grande questão que paira sobre todos: O que é essencial para amar a vida e encontrar a felicidade? Gênios como Espinoza que chamava isto de energia vital ou Lucrécio denominava de Clinâmen, Collingwood chamava de conatus, Shopenhauer ema vontade de viver, Nietzsche em vontade de potência, Freud de libido, Bérgson de Elã vital e Clovis de Barros de tesão pela vida.

Aristóteles talvez seja o início para todos os caminhos da possibilidade incessante da busca da alegria de viver. A razão fundamental da vida, seu bem mais supremo, aonde todos os meios devem convergir é aquilo que Aristóteles chamava de Eudaimonia, que tem como principal significado o sentido da própria felicidade. Para que a felicidade? Esta é uma pergunta passível de uma resposta ilógica, pois é a razão da vida de qualquer pessoa. Não existe um fundamento da felicidade, é um estado supremo, que faz da vida a busca diária e anima a própria sobrevivência. Tudo é para a felicidade! Segundo Aristóteles, para alcançar a felicidade muita coisa é preciso, mas o mais importante é entender que você não é o todo, mas é parte de um todo maior que você. Este todo maior é o universo. Então, o que Aristóteles está querendo ensinar é que sua vida só vai ser boa se você for parte adequada do todo, ou melhor, o que o todo espera de você. E que o todo espera de você? A resposta é aquilo o que te faz feliz, pois se o todo exigisse de você aquilo que te faz sofrer a vida seria ruim e você seria incapaz de ser o melhor que pode ser.

O ser humano é social não vive no isolamento já que a felicidade faz parte em relacionar o convívio humano. A humanidade do homem é a razão de partilhar momentos na busca da felicidade. Esta convivência deve respeitar as características de cada um. Os gregos acreditavam que cada pessoa tem talentos especiais que são indicativos de como cada um deve viver. Para os gregos, quando uma pessoa pergunta: O que vou fazer da minha vida? A resposta dos gregos é sempre investigar dentro de si mesmo aquilo que você é bom, se você não encontrar esta resposta, provavelmente não está sabendo analisar as qualidades de SER. Se você existe, não é à toa, com certeza é para cumprir um papel. Todos tem sua importância no sistema maior e é aqui que se encontra a chave de como cada pessoa deve viver, pois ao encontrar suas habilidades e sua razão maior de SER, você está muito próximo de encontrar a felicidade.

Se você quer ser feliz, primeiramente procure saber mais sobre você, com isto você estará empenhando com um caminho para a excelência, em uma força poderosa na vida como um todo. As reflexões de Aristóteles, direciona-se quando o indivíduo respeita a própria natureza, talentos a aptidões. A felicidade pressupõe que a somatória do talento de cada um, faz o todo funcionar melhor. O mundo gera a cada instante um movimento exclusivo em você, modificando-o, mas saiba também que suas ações modifica o mundo, tornando exclusivo cada momento da vida.

O professor Clovis Barros em seu livro “A vida que vale a pena ser vivida” cita, entre outros, um grande nome da filosofia que surgi na Grécia por volta de 341 a.c. Epicuro de Samos. O propósito da filosofia para Epicuro era atingir a felicidade. Epicurio, foi o criador do termo hedonismo, uma corrente filosófica que tem como ideia a vida com o prazer. Ele buscou na natureza as balizas para o seu pensamento: o homem, a exemplo dos animais, busca afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Estas referências seriam as melhores maneiras de medir o que é bom ou ruim. Para Epicurio a felicidade está na simplicidade de viver. Viver os prazeres não é exatamente viver o máximo de prazer em um único instante, mas sim de alguma maneira é prologar este prazer para vive-lo durante a vida, sempre, permitir que desfrute da vida como ela é na simplicidade do que você possui. Para ele toda vez que você permite prazer com excesso você proporciona na vida um efeito terrível que é a de correr o risco de não conseguir depois mais prazer com algo mais simples. Tudo que limita o prazer no futuro é condenável, pois para ele, o prazer é sempre parte da simplicidade. Preconiza uma vida de extraordinária simplicidade, pois toda sua sofisticação é atentatória a capacidade de prazer. Ele acreditava que se você passar a ter uma vida regada de luxuria então a simplicidade não trará mais prazer forçando você a ostentar sempre os excessos.

Barros, também descreve em sua obra a importância irrevogável do pensamento Cristão. Vale entender o que filósofos Cristãos queriam dizer sobre o que é preciso para que cada SER possa existir e agir com a própria ação de evolução. Para isto, eles acreditam que Deus se afasta das decisões, propondo ao SER o livre arbítrio, para que cada um possa ser ele mesmo, uma ação protagonizada através de um gesto de humildade aonde ele aceita uma diminuição, compreendendo da necessidade evolutiva individual da sua criação, se deixando crucificar para que cada um possa existir como único. Isto é chamado pelos Cristãos como Ágape. Resta do ser humano buscar imitar a Deus, adaptando o amor de Deus a cada um, por tanto o que se espera de um cristão para que a vida possa ser boa é que ele seja capaz de aceitar o próximo, ao invés de buscar somente os desejos da própria alegria, de perseguir o próprio prazer, libido, para os Cristãos a felicidade é fazer do outro a razão da sua existência. Amar a moda de Deus é não colocar si mesmo em primeiro lugar, mas sim o próximo, desejar a alegria do outro. Ágape esta onipresente em todo lugar através do pensamento cristão, quando se acredita que é dando que se recebe. O amor é a ideia central da vida, sendo uma formula particular de convivência amando uma ao outro, ao ponto de esforçar com o capricho para diminuir os sofrimento das outras pessoas.

Percebe-se o conhecimento dos gregos, cristãos, entre tantos outros grandes mestres da filosofia, se somam através das diferenças na história. Saber seu papel perante o universo, servir como um condutor para o bem maior é transcender a própria vida, necessitando que a presença do outro seja sempre amorosa, torna-se uma reflexão de estar muito próximo de encontrar a própria felicidade. Para a vida ser boa é logico que você tem que seguir a natureza e se enquadrar as necessidades contemporâneas para sobreviver. Não se pode dar ao luxo de viver da ilusão de um mundo perfeito, aliais, muito longe disto, mas quando descobre seus princípios, capaz de se superar, levando a alegria para o próximo, torna-se a vida muito mais simples para viver.

Outro grande gênio da história humana foi Jean-Jacques Rousseau, que foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. Considerado um dos principais filósofos do iluminismo do século XVIII tinha uma maneira muito peculiar de explicar a vida. O professor Barros da ênfase em uma passagem da obra de Rousseau em seu discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, aonde Rousseau faz sua comparação entre os homens e os animais, suas escritas apresentam exemplos inequívocos para compreensão, por exemplo: ele diz que um gato nasce gato e que o gato é gato desde de seu nascimento até sua morte, e o que ele faz em toda sua vida é o que todos gatos fazem, sem diferença, como uma espécie de programação que ele denomina como instinto. Seu instinto contém todas as respostas necessárias para viver como um gato, sem inventar, criar, inovar ou empreender, gato é gato 24 horas por dia. Se pegar um gato com fome e colocá-lo do lado de um prato de alpiste ele morre de fome mas não improvisa para tentar sobreviver até outra coisa aparecer. Do mesmo jeito é o pombo, que nasce pombo e morre pombo, fazendo somente aquilo que foi programado a fazer. Pombo não tem ética, não tem ideias, não tem educação, cultura, civilização, ele como o gato não cria ou inventa, e se tiver com fome ele não vai comer o file que o gato come, mas sim ficara na esperara pelo alpiste. Pombo é pombo, gato é gato e assim são os animais. Já o homem é muito diferente disto, criando a própria natureza, tudo originado pelo homem foi para sua sobrevivência e adaptação para conviver com outros da espécie.

O filosofo Clovis de Barros, diz que o ser humano não nasce com todas as respostas, seus instintos são ineficientes. Diante a uma vida complexa, necessariamente o homem tem que ir sempre além, transcender para sobreviver. Ao nascer, se não houver alguém que os alimente e os guie, provavelmente não sobreviverá. O ser humano é tão complexo que aprende a cada segundo da vida, desde do nascimento, transcende sua natureza, vai além dos seus instintos, ou como diz Rousseau, “a vontade do homem fala ainda quando a natureza se cala”. Barros diz que por isto que o homem sempre vai além, surpreende seus próprios instintos, cria, inventa, se adapta a toda e qualquer necessidade para sua sobrevivência. Buscando soluções que não estão prontas ao nascer. Rousseau dizia que o homem vai além da sua natureza mas hoje, em pleno século XXI, é verdade dizer que o homem se supera sempre, até mesmo é capaz interferir na natureza. Basta olhar os milhares de exemplos como projetos genoma, provetas, células tronco, biotecnologia, transgênicos, participando da constituição da própria natureza com novas possibilidades para sua hegemonia criativa, sendo capaz inclusive de interferir na natureza do próprio homem.

O professor Clóvis de Barros diz que diante as infinitas escolhas da vida torna-se cada momento a necessidade de escolher o melhor caminho, uma decisão sempre árdua. O melhor significa o que vale mais, por isto não existe vida humana sem valor e o homem nasce freneticamente na busca de valores, procurando aquilo que vale mais para si, identificando sempre o melhor caminho, atribuindo valor as possibilidades que são pareadas a todos os instantes. Definitivamente sem valor não há existência humana.

Existe um abismo em cada um para encontrar seus valores, aquilo que vale mais e faz mais sentido. A dúvida de encontrar este valor paira sobre cada um e só é possível atribuir valor se houver comparação. Não se pode dizer que algo é melhor o pior sem referenciar, não é possível saber o que é melhor ou pior se não existir contraponto. Para o professor Clovis de Barros os valores são intrínsecos a moral, e só é possível encontrar a moral da vida se houver referência que sirva de parâmetro para que se possa identificar a alternativa que vale mais, são os valores que nos dão a referência da vida. Aqui vale a reflexão de que antes de sair da zona de conforto é necessário se conhecer, saber os valores que o conduzem para a vida, quais são as referências que fazem efetivamente sentido, para não se transformar naquilo que não é você.

Clovis de Barros vai além, ele diz que está nos valores as virtudes de cada um, uma qualidade moral particular. É uma disposição estável de praticar o bem; revela mais do que uma simples característica ou uma aptidão para uma determinada ação boa, trata-se de uma verdadeira inclinação. Com os valores estão as virtudes. Segundo Gregório de Nissa, a virtude é "uma disposição habitual e firme para fazer o bem", sendo que o fim de uma vida virtuosa tornar-se semelhante a Deus. São todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente ou quer coletivamente. Segundo Aristóteles, virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem, e se aperfeiçoa com o hábito de cada um. As virtudes torna-se a base dos critérios a adotar na hora da dúvida das escolhas que a vida coloca a cada um.

É fato que escolher o próprio caminho, diante aos próprios valores, geram um sentimento de medo e de angustia, principalmente neste momento da história humana. Angustia que Kierkegaard descreve nas inquietações que o acompanharam e que são expressas em seus textos, sempre relacionadas ao sofrimento. Quando trapeja nas escolhas se depara com os pensamentos desta angustia fundamentalista de ser. Angustia, sentimento exclusivamente humano, daqueles que realmente são livres nas próprias escolhas de seus valores.

No mundo econômico os valores tornam-se mais complexos, muito mais do que um ou outro que ditam regras, existe uma necessidade de entrelaçar as vontades e as escolhas para um bem maior, mas não é isto que acontece. A sociedade é algo abstruso, os valores individuais são muitos e dentro de uma economia viva, volátil, frágil, em plena evolução, torna-se os valores muitas vezes contraditórios, levando a uma busca frenética do melhor individual, gerando conflitos, batalhas, amarguras e derrotas, o que Edgar Morin chama de valores complexos. Parece que nesta turbulência o ser humano esqueceu que seu princípio básico está na coletividade para o bem estar comum e a possibilidade para que todos possam encontrar aquilo que é a busca do indivíduo, a felicidade de viver a vida. A verdade é que, apesar de todo movimento complexo sistêmico social, os valores continuam sendo a chaves para encontrar o melhor caminho.

Barros, em seus sábios pensamentos filosóficos diz que não existe como palmilhar os valores, pois a cada momento, duvidas surgem sobre as escolhas e elas são muitas, a cada ápice cada um passa por esta anuência de existir, o indivíduo galga por uma necessidade existencial do que ser e para quem ser. A escolha de quem é você está intrínseco a própria história e talvez com própria introspecção encontra-se esta resposta mais precisa.

Mais importante que sair da zona de conforto é entender que cada momento é único, e as escolhas de cada um depara com um conceito da necessidade de sentir que seus valores são importantes. O problema é que parece que as pessoas estão perdendo a identidade de ser elas próprias e se permitem a aceitar as regras apresentadas como verdadeiros manuais, distanciando cada um do verdadeiro livre arbítrio de SER.

Hoje tornou-se comum ver as pessoas passarem a viver as regras subjetivas impostas como em livros de autoajuda ou modelos de padrões de comportamentos sociais, coagido com fatos que tornou grande parte da literatura atual rala, focadas em apresentar receitas ditas como verdadeiras, como os manuais para ser feliz, ser líder, ser chefe, ser marido, e por aí segue a normose social, dando créditos apenas para alguns mas que na maioria gera a perda da essência do diferencial único do ser humano, que é a liberdade das escolhas de seus próprios valores. Para Barros não existe guro, nem manual de como ser ou do que é certo ou errado, o que existe sãos as virtudes morais de cada pessoa em entender que cada um faz parte de algo muito maior na vida, e que existe o porquê da sua existência, sem desprezar a própria inteligência.

A vida é repleta de desafios que somente com o reconhecimento dos próprios valores, da própria capacidade individual em se identificar do porquê existe, do porquê está neste momento aqui perante ao todo, é que possibilita cada um de encontrar o caminho para as próprias escolhas. Se você for incapaz de se doar, amar, querer o bem alheio, não vai adiantar as regras impostas com auto ajuda, pois está correndo da própria angustia, própria pobreza de espirito. Não adiante procurar a perfeição nos modelos fúteis aos olhos dos outros sem que esteja muito claro da sua existência aqui. A fragilidade das regras na verdade são artificio que só servem para pegar desesperados vazios e apequenados e dar uma sobrevida na ilusão até que apareça próximo guro, com remédios para tirar a dor do momento.

Como já descrito, no lugar dos anseios desta busca frenética de se movimentar e que se deve sempre sair da zona de conforto é preciso primeiro refletir sobre quem você é quais são seus critérios de escolha. Os gregos estavam certo neste quesito, cada ser humano faz parte de algo maior, o sentido da vida não está em seu isolamento mas sim na participação de cada um no todo, todo maior que todos. E a vida é ter a consciência de como participar neste todo. O todo só funciona com a sincronia de cada um sabendo participar dentro do melhor que cada um pode ser e é fazendo o melhor que se pode fazer que define a qualidade da própria vida e se encontra a felicidade.

A felicidade se materializa no instante que se vale pena viver, a única razão de cada ser, já que ela é o início e também a razão de estar aqui. É a resposta única do porque cada um de nós existe. Por isto é fundamental entender que ao se movimentar para sair da zona de conforto e se deparar de perguntas, como por exemplo: do porque trabalha, do porque se esforça tanto para viver e a resposta for para ganhar dinheiro, para algo material, para fazer o outro melhor, porque está esperando o ano que vem chegar ou algo que seja diferente da resposta deSer Feliz, pode ter certeza que você tem uma Vida Triste, porque você ainda não encontrou suas próprias respostas a seus valores.

Mario Quintana certa vez, disse “Um dia pronto, me acabo, seja o que tem que ser, morrer o que me importa, o diabo é deixar de viver!” Existe muitos que vive esperando o dia terminar, o final de semana chegar ou das férias e se esquecem que são mortais, não há a eternidade para que se possa ter tempo suficiente para adiar a obra que honre a vida para que ela não se apequene. Benjamin Disraeli, que foi escritor e político britânico no século XIX diz que “a vida é muito curta para ser pequena” e ele tem razão. A vida é a capacidade de partilhar as virtudes morais através do conhecimento, amor, carinho, enfim o bem maior de se doar. Mas a falta de dar valor à vida fazem muitos a ter uma ética destrutiva, egoísta, malévola, predatória, fomentando aqueles que acham que na vida é cada um por si e Deus por todos.

A história humana mostra que talvez uma das coisas mais difíceis do ser humano é refletir sobre si mesmo, conhecer-se, saber quem realmente é e não o que os outros querem que você seja. Quando se conhece a si mesmo você descobre que os momentos felizes não são abonados de dinheiro, ou rodeados de inúmeras pessoas mas sim são momentos simples e particular. O que você realmente deseja e não o que os outros desejaram para você. Talvez conhecer a si mesmo conhecera os próprios valores, aquilo que realmente faz sentido para você!

O mundo movimenta você mas saiba que, você também movimenta o mundo. Então, atente-se em sair deste processo social de mentir para si mesmo na perspectiva de achar que será mais admirado ou aceito socialmente sabendo que a decisão da própria felicidade é única e exclusiva. Leandro Karnal diz que “A vida que você leva é escrita por você. Tudo que acontece foi a partir do próprio roteiro das escolhas feitas a cada momento!”

Karnal cita em sua palestra uma passagem muito reflexiva de Amadeus Mozart. Que na beira da morte recebe a carta de um jovem fã de 15 anos da região de Praga que sonhava em compor. Nela o jovem perguntava a Mozart - O que é preciso para que eu possa compor uma opera. Mozart responde ao menino –Não é o momento. Você é muito novo para pensar em compor uma opera. Entretanto o menino indignado responde ao Mozart - Porque diz isto, já que você escreveu sua primeira obra aos 9 anos. E Mozart responde: É verdade, mas eu não perguntei a ninguém como eu deveria fazer!

Espero que entenda que o que foi escrito aqui não é justificar a zona de conforto, mas muito pelo contrário. Tudo muda em nossa volta, nada se repete, cada instante é único e exclusivo e se não acompanhar as mudanças a mudança poderá passar sobre você. Muitas vezes ser atropelado pelas mudanças podem gerar um impacto fulminante podendo acabar com sonhos e desejos. Mudar é difícil mas não mudar é fatal! Por isto é obvio que é necessário sair da inercia, enxergar que existem outras possibilidades, deixar o conforto e gerar movimento, isto é uma afirmação inegável, mas que esteja consciente daquilo que já conquistou. Saboreie os instantes da vida, com a certeza de se movimentar a partir dos próprios valores. Mais importante que ficar nos anseios de sair da zona de conforto estão as escolhas dos caminhos, ser original nas escolhas exige muito de cada um, mas a recompensa é a proximidade de ser feliz.

Achem felicidade na repetição, em ser comum, no obvio, ou naquilo que faça sentido exclusivamente para você, mas faça desta felicidade a felicidade também das outras pessoas! Seja na repetição ou inovação, nos desafios e conquistas, mas procure ela dentro de si.

Viva a própria vida ouvindo a própria voz. A felicidade não está no que os outros querem quem você seja a partir dos próprios interesses mas sim SER você no melhor que pode SER. Jamais no que esperar, pois o QUANDO não existe. A felicidade, o reino, a vida que vale por ser vivida é aqui e não no passado alucinado por nossa mente, nem em projeções futuras que só existe na angustia. Aqui e agora, conhecendo a si mesmo entendendo melhor do porque você existe. Amar a si mesmo são suas características únicas do que faz você ser o que é.

“A recompensa sobre as próprias escolhas é a de ser feliz!”

REFERÊNCIAS E INSPIRAÇÕES

BAUMAN, Z. Vida para Consumo - A Transformação das Pessoas em Mercadoria. São Paulo: Zahar, 2008.

BAUMAN, Z. 44 Cartas ao Mundo Líquido Moderno. São Paulo: Zahar, 2011.

CORTELLA, M.S. Qual é a tua obra. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

CORTELLA, M.S. Se você não existisse, que falta faria? YOUTUBE, São Paulo: 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3rzvOqrtWIc>. Acesso em: 14 De janeiro, 2016.

FERRY, L. O que É uma Vida Bem - Sucedida? Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

FERRY, L. Aprender A Viver. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

FILHO, C. B. Ética Na Comunicação. São Paulo: Vozes, 2003.

FILHO, C. B. Vida que Vale a Pena Ser Vivida. São Paulo: Vozes, 2010.

FILHO, C. B. Vida que Vale a Pena Ser Vivida. Espaço Ética, São Paulo: 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XSBKd-SLH3s >. Acesso em: 05 janeiro.2016.

FILHO, C. B. Negar a fórmula e viver a vida. Espaço Ética, São Paulo: 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uy7iw-BoCNE>. Acesso em: 07 janeiro.2016.

KARNAL. L. Minha Felicidade depende de mim. São Paulo: 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=STLKQPcZ40s>. Acesso em: 11 janeiro.2016.

ROUSSEAU, J-J. Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade Entre os homens. São Paulo: L&PM, 2008.

SHIRZAD, C. Inteligência Positiva. São Paulo: Fontanar, 2013.

WHITE, A. From Comfort Zone to Performance Management. Disponível em: http://www.byggai.se/mats/att/Comfort-to-Performance.pdf>. Acessado em: 18 de fevereiro, 2016.

ExibirMinimizar
aci baixe o app