S.O.S - Assédio moral no Brasil em crise. O trabalhador pede socorro

A crise não traz consigo apenas problemas econômicos, mas problemas morais. Diante disso, algo imoral pode estar acontecendo aqui, o assédio. A vivência no meio organizacional pode se tornar hostil quando se luta por mais resultados, e é nesse momento onde as relações interpessoais podem se alterar e sofrer influências negativas, trazendo para junto do trabalhador transtornos mentais perigosos para sua saúde e qualidade de vida

Não se data o início das relações de trabalho, onde subordinado remete sua atenção às solicitações, cuidados (ou descuidados) e obrigações aos agrados do chefe, patrão, superior, líder, etc (denominação para superiores existem aos montes). Ao longo da história o processo de trabalho passou por diferentes enfoques, desde as relações de escravidão a relações sob o regime de remuneração. O advento da Revolução Industrial introduziu a inquietação quanto a diferentes graus de proteção à saúde e integridade física da força de trabalho. Na primeira metade do século XX, iniciou-se a preocupação com a qualidade de vida no trabalho e, na segunda metade, a partir da década de 60 abordou-se a saúde mental do trabalhador em suas ocupações (BODROFF; MARTINS 2013).

A crise econômica que atualmente figura no Brasil faz encontrar nas organizações um clima de insegurança não só econômica, como também empregatícia. A tal crise financeira tornou o país em um celeiro de trabalhadores ‘loucos’(sic) por medo de perder o espaço, perder os rendimentos, o emprego, seus trabalhos. E esse receio, quando instaurado dentro de uma organização, sobretudo de cima para baixo, na direção dos líderes para seus liderados, quando não bem administrada, faz com que “patologias gerenciais” surjam no contexto da gestão. O superior perde o foco nos resultados, passa a tratar as pessoas como o grande problema dos resultados e consequentemente o problema passará a ser de relacionamento. É nesse contexto de crise onde mais surgem as violências psicológicas na cultura e no ambiente organizacional.

O termo ‘violência psicológica’ refere-se ao uso intencional de poder em qualquer de forma que cause dano emocional e diminuição de autoestima, que prejudique o pleno desenvolvimento ou controle de comportamentos, mediante constrangimento, humilhação, isolamento, vigilância excessiva e constante, ridicularização ou qualquer outro meio que cause prejuízo à saúde psicológica do colaborador. Sendo essa uma violação real da autonomia, dignidade e do direito de autodeterminação dos indivíduos que pode ser tão ou mais danosa que a violência física (TURTE-CAVADINHA et al. 2014).

É possível observar que esse tipo de violência vem crescendo no meio empresarial nos últimos anos, pois no contexto de competitividade atual em que vivemos, as empresas estão lutando por cada centímetro de espaço nas prateleiras, nos stands, shoppings, mercados, mesas de lar e televisão. Desde que apresentem maiores rendimentos e menos custos, na perspectiva organizacional tudo é válido (uma visão propriamente capitalista). Relatos de profissionais com depressão, problemas no trato gastrointestinal, perca de sono, dor de cabeça constante, aumento da queda de cabelo, não é incomum. Esses sintomas estão ligados ao aumento nos níveis de estresse relacionados ao trabalho e a doenças como a síndrome de burnout. Essa síndrome se manifesta pelo esgotamento experimentado por trabalhadores em consequência de vivências negativas no trabalho, um processo em que a percepção do contexto, das condições de trabalho e das relações interpessoais influencia no adoecimento (SILVA et al. 2015).

É necessário que os guardiões dos trabalhadores na forma das pessoas jurídicas de sindicatos, associações, e até mesmo o ministério público do trabalho, façam trabalhos não só de vigilância, mas de orientação e acompanhamento dos casos em que trabalhadores são violados psicologicamente. Caso contrário teremos um aumento significativo no número de absenteísmo por via de profissionais com transtornos mentais e/ou profissionais que sofreram maior número de acidentes de trabalho em função da desatenção ocasionada por pressão, ou pelo assédio moral e seus similares.

Referências

BOBROFF, M. C. C.; MARTINS, J. T. Assédio moral, ética e sofrimento no trabalho. Rev.bioét. nº21, v.2, p.251-258, 2013.

SILVA, R. P.; BARBOSA, S. C.; SILVA, S. S.; PATRÍCIO, D. F.; Burnout e estratégias de enfrentamento em profissionais de enfermagem. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Rio de Janeiro, nº67, v.1, p.130-145, 2015.

TURTE-CAVADINHA, S. L.; TURTE-CAVADINHA E.; LUZ, A. A.; FISCHER, F. M.; A violência psicológica no trabalho discutida a partir de vivências de adolescentes trabalhadores. Ver. Bras. Saúde ocupa. São Paulo, nº39, v.130, p.210-223, 2014.

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