Responsabilidade e Auto-responsabilidade

Esse artigo descreve os conceitos de responsabilidade e auto-responsabilidade.

O conceito de responsabilidade tem diversas vertentes nos campos espiritual, legal, psicológico e social. Em qualquer dicionário da língua portuguesa este conceito está associado ao ato de ser responsável, a obrigação de arcar e responder pelas ações cometidas ou, em outras palavras, responder pelos atos que comete, e ter condições de julgamento (discernimento) para entender a relação entre causa e consequência. Nesse sentido a autorresponsabilidade é a compreensão da responsabilidade que lhe é devida, decorrente de uma ação, omissão ou opinião exteriorizada.


Em seu artigo “Um breve estudo sobre o conceito de responsabilidade”, Normando (2012, p.251) corrobora com essa afirmação ao dizer que o indivíduo "Ser responsável", deve ter a consciência sobre os atos que pratica voluntariamente e ter ciência das consequências da sua vontade. Nesse sentido é importante notar que o ato praticado, racional, emocional ou instintivo, gera uma sequência de eventos como consequência, e por esse motivo, de responsabilidade do autor do ato. É importante ressaltar para a compreensão da linha de raciocínio, que a omissão é a ação consciente de não realizar uma ação, o que causa por si só uma sequência de eventos desencadeadas pela não-interferência.


É importante entender que existe uma diferença clara entre ter responsabilidade e ser responsável. Ser responsável significa ter um comportamento adequado aos olhos da sociedade, estar de acordo com as regras de convívio e ter a aprovação externa. Já o conceito de ter responsabilidade significa agir de maneira que a sua vida seja em consequência das suas ações. Avery (2016, p.4) acrescenta que ser responsável é um comprometimento com ser bom e fazer o certo, enquanto ter responsabilidade é um comprometimento com sua vida, sua liderança, crescimento e liberdade.


O domínio dessa noção de responsabilidade está diretamente ligado ao controle do conceito de causa e efeito. Quando um indivíduo tem o domínio e a consciência das causas de um determinado evento, tem a opção de escolher as respostas que considera mais corretas para interagir nesse evento. Com isso pode tomar o controle da sua própria vida, escolhendo o melhor caminho que vai percorrer. O psicólogo Albert Bandura (apud AVERY, 2016, p.31), reflete sobre o assunto dizendo que a auto eficiência é maior se você acredita na sua habilidade de responder a eventos que afetam sua vida. Um indivíduo que aplica a autorresponsabilidade tem mais chances de ter uma auto eficiência grande, o que reflete na performance do indivíduo em atingir metas, concluir tarefas e resolver problemas.


Esse controle contínuo permite que o indivíduo não seja surpreendido com eventos que lhe são importantes, sem a sua participação. Além disso, o indivíduo enriquece sua "caixa de ferramentas cognitivas” (grupo de conhecimentos adquiridos) e diminui os efeitos do estresse e da ansiedade ao tomar o controle da situação. É claro que a grande maioria das pessoas não gosta de ambientes conflitantes, mas saber administrar um ambiente assim é de suma importância para o sucesso profissional.


De um modo mais amplo muitas vezes o autor da ação não tem conhecimento da totalidade de situações reflexas de sua ação (ou omissão), seja por existirem variáveis não conhecidas ou por se tratar de uma "reação em cadeia”, porém mesmo sem o seu imediato conhecimento, a responsabilidade do resultado da ação praticada pode ser atribuída ao autor. Sendo assim cabe ao autor da ação, como "Ser responsável”, avaliar se existem variáveis não conhecidas que podem gerar resultados inesperados, e assumir que esses resultados são frutos da sua ação, direta ou indiretamente.


Seguindo a idéia do "Ser responsável", Normando (2012, p.251) descreve que o indivíduo deve agir de maneira razoável e prudente, além de moralmente aceitável; e que a ação seja consciente e por meio de própria vontade. Nesse sentido cabe a discussão sobre o grau de consciência de uma ação.


Em seu livro “O poder da autorresponsabilidade”, Vieira (2017, n.p.), divide a consciência em três tipos: a consciência plena, onde o indivíduo percebe o mundo e a si mesmo de forma clara e precisa; a consciência relativa, onde o indivíduo muda a sua compreensão do mundo, conforme os estímulos que recebe; e a consciência disfuncional, onde o indivíduo tem uma visão deturpada sobre quem ele é, e o mundo que o cerca. Vamos explorar a idéia de autorresponsabilidade usando a divisão dos níveis de consciência sugeridas pelo autor.


O indivíduo com a consciência plena tem uma visão clara do mundo e de seu papel nele. Consegue perceber o que acontece a sua volta e reagir conforme seus valores e conceitos. Sabe qual a carga de responsabilidade que lhe remete com suas opiniões, ações ou omissões. Isso o torna mais previsível, já que suas decisões são baseadas em suas crenças e regidas por um código ético e moral constante. É importante ressaltar que o indivíduo consciente não tem, necessariamente, um código moral e ético compatível com a sociedade em que está inserido. Mesmo um indivíduo distópico em relação a conduta moral de sua comunidade (ou da sociedade, de modo geral), pode ter a consciência plena, se tiver a clara noção de suas ações e da consequência delas. Nesse sentido a consciência plena está diretamente relacionado com a coerência das atitudes de um indivíduo em relação à suas crenças, e não ao julgamento delas.

Já o indivíduo com a consciência relativa pode apresentar respostas diferentes para as mesmas situações, dependendo do seu estado emocional, da sua leitura do evento ou das pessoas envolvidas. Sua conduta não é completamente previsível, já que tem um componente emocional influente em sua percepção sobre o mundo e seu papel nele. Diferente do individuo plenamente consciente, o relativista não mede em sua totalidade as consequências de suas ações, portanto pode não perceber sua responsabilidade, ou deliberadamente negá-las.


Por fim, o indivíduo com a consciência disfuncional, tem uma visão deturpada e inconstante de si mesmo, e de seu papel no mundo. Suas ações não são centradas na compreensão do processo de causa e consequência, mas sim na sua vontade imediata em realizá-las. Diferente do indivíduo com a consciência relativa, o disfuncional ignora o mundo e tem uma visão limitada do resultado de suas ações.


Outro ponto importante a ser abordado é a situação em que o processo de responsabilidade está inserido. O ser humano está mais propenso a aceitar sua responsabilidade quando obtém sucesso que em uma situação em que fracassa, isto é, quando as pessoas em seu entorno veem suas ações como ações positivas, o indivíduo está mais propenso a assumir a responsabilidade que quando as ações prejudicam algo ou alguém.


Myers destaca esse ponto de uma maneira muito detalhada:


"Em experimentos realizados as pessoas rapidamente aceitam o sucesso de uma situação, atribuindo a conquista à sua habilidade ou esforço. Mas atribuem suas falhas a fatores externos, falta de sorte ou uma impossibilidade do problema. Quando ganhamos jogando “Scrabble” (nome americano do jogo de palavras cruzadas), é por causa do nosso conhecimento do vocabulário, quando perdemos é porque “Ficamos com a letra Q, sem a letra U.” Isso foi observado com atletas (após uma competição), estudantes (após exames), motoristas (após acidentes) e gestores (após o resultado do período). Perguntamos “O que eu fiz para merecer isso?” quando somos prejudicados, mas não quando obtemos sucesso." (Myers apud BROCKMAN, 2012, p.37)


Isso pode ser diretamente ligado ao senso de autorresponsabilidade de cada indivíduo. Os indivíduos com a consciência plena, tem essa avaliação mais equilibrada; já os indivíduos relativos ou dissonantes atribuem mais constantemente seus fracassos a fatores externos.


Porém novas relações interpessoais estão surgindo com o progresso exponencial da tecnologia, principalmente a expansão da Internet e por consequência a globalização, criando diferentes formas de relacionamento entre os indivíduos.


Exemplo disso são as redes sociais (Facebook, LinkedIn), aplicativos de mensagens instantâneas (WhatsApp, iMessage) e aplicativos de perspectivas pessoais (Instagram, Twitter). Com isso, estão surgindo obrigações e deveres inéditos aos indivíduos, alterando o conteúdo e a forma de avaliar a responsabilidade (NORMANDO, 2012, p.252).


As redes sociais por exemplo, tem um alcance imediato e muito maior que uma conversa há 20 anos atrás ou um e-mail há 10 anos atrás; com as mensagens instantâneas a necessidade de ser muito mais claro aumenta, já que o contexto e a linguagem corporal desaparecem da equação; e os aplicativos como o Twitter podem distorcer completamente uma opinião dada, primeiro pelo seu limite de caracteres no texto (280 caracteres), segundo pela possibilidade de uma interpretação errada feita em um comentário, desencadear uma avalanche de críticas baseadas mais no comentário de um seguidor do que na postagem.


Atrelado a essa condição está a necessidade de utilizar um senso crítico mais refinado, para avaliar se as informações encontradas no ambiente virtual são verdadeiras ou não. Ao analisar um cenário onde algumas informações vêm de um ambiente virtual, é necessário se avaliar com precisão se a informação é relevante e se poder ser utilizada como referência para racionalizar qual a consequência de uma ação praticada. Da mesma maneira, uma informação disponibilizada em ambiente online pode causar consequências imprevisíveis. Essa avaliação pode alterar significativamente a percepção da autorresponsabilidade no reflexo das informações providas ou recebidas.

AVERY, Christopher. The responsibility process: unlocking your natural ability to live and lead with power. 1º Edition. Pflugerville, TX: Partnerwerks, Digital version, 2016.

BROCKMAN, John. This will make you smarter: 150 new scientific concepts to improve your thinking. Original Edition. New York, NY: Harper Perennial, Digital version, 2012.

NORMANDO, Priscila C. Um breve estudo sobre o conceito de responsabilidade. Intuitio. PUCRS. V.5, N.2, p. 249-265. RS, 2012. Disponível em <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/intuitio/article/view/11495/8483>.

VIEIRA, Paulo; O poder da autorresponsabilidade: A ferramenta comprovada que gera alta performance e resultados em pouco tempo. São Paulo, SP: Ed. Gente. Versão digital, 2017.

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    Alexandre Bittar

    Alexandre Bittar

    Formado pela FGV em Administração, com 2 MBA's pela mesma Instituição, especialização em Negociação e Mestre em Administração de Empresas pela FCU - Florida Christian University (USA). Professor e Consultor nas áreas de Liderança, Gestão de Conflitos, Negociação, Planejamento Estratégico e Recuperação de Empresas.
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