Relatórios anuais e de sustentabilidade: facilitando a captação de recursos para organizações do terceiro setor

Entenda porque os Relatórios GRI podem ajudar sua empresa a se tornar sustentável e o quanto sua prática facilita a captação de recursos para ações do terceiro setor

A cada ano que passa, a competição por investimentos financeiros, tanto para organizações do terceiro setor como para a iniciativa privada fica mais acirrada, e dessa forma, a demonstração de resultados quantitativos e de processos efetivos precisa ser mais transparente e confiável.

Com isso, diversas práticas de definição de objetivos a longo prazo, monitoramento de indicadores de resultados e controle das entregas são adotadas por diferentes segmentos do mercado: sejam pequenas empresas, grandes multinacionais, companhias públicas, organizações sem fins lucrativos e até mesmo prefeituras de algumas cidades. Todos buscam maneiras de demonstrar suas políticas, ações e resultados para seus públicos de relacionamento.

Os Relatórios de Sustentabilidade sob as diretrizes da GRI

Os Relatórios Anuais ou de Sustentabilidade são exemplos destas ferramentas de gestão e, no Brasil, totalmente recomendados para as empresas de capital aberto do Novo Mercado da BM&FBovespa.

Sobre o GRI:A sigla GRI significa “Global Reporting Initiative” tem um peso forte sobre ela, já que globalmente os Relatórios de Sustentabilidade estão bastante disseminados e os que seguem essas diretrizes da organização holandesa sem fins lucrativos são reconhecidos no mundo todo. Foram publicados mais de 5 mil relatórios seguindo os parâmetros da GRI em 2013! Os relatórios desenvolvidos sob os parâmetros dessa ONG observam aspectos sociais, econômicos e ambientais trazendo a óptica da sustentabilidade para a estratégia da Organização relatora.

A busca por negócios sustentáveis, tão abordada no século XXI, prioriza os resultados a longo prazo sem destruir o presente, pensando em justiça social, eficiência nos processos e cuidado com o meio ambiente. Neste contexto, muito mais do que apenas reportar o passado, as diretrizes da GRI apoiam as organizações na definição de metas, no acompanhamento da performance e na gestão das mudanças necessárias para serem cada vez mais sustentáveis.

Um relatório de sustentabilidade promove a divulgação dos impactos – positivos e negativos – da companhia no meio ambiente, na sociedade e na economia. Torna tangíveis e concretos assuntos abstratos, apoiando a companhia no entendimento dos seus impactos sob todos esses aspectos, gerindo os efeitos em suas operações.

Administrar uma organização exige planejamento de curto e longo prazo com diversos objetivos, entre os quais, se destacam mitigar riscos, aproveitar oportunidades e garantir resultados positivos. No entanto, aos olhos da GRI, não basta que as companhias apresentem planos recheados de previsões otimistas aos seus públicos de relacionamento. Hoje, é vital que as organizações sejam transparentes e divulguem informações estratégicas de maneira integrada, para que seus planos sejam avaliados sob bases reais, e seus resultados sustentáveis sejam de fato exequíveis.

Quando tive a oportunidade de participar de uma Conferência Global da GRI em Amsterdã, no mês de maio de 2013, Mervyn King (Chairman do Conselho Internacional de Reporte Integrado - IIRC), afirmou que nós estamos caminhando para a última oportunidade de mudarmos nosso caminho predatório e temos pressa por razões óbvias: são 7 bilhões de pessoas no mundo todo que consomem recursos naturais, se relacionam e precisam de alimentos. Desta forma, iniciaram os quatro dias do evento, apresentando as diretrizes como cruciais para avaliarmos de uma maneira mais qualitativa as práticas e o desempenho das organizações.

Na ocasião, os palestrantes apontaram que a decisão de relatar envolve mudanças profundas, como a implantação de sistemas de coleta de dados, monitoramento das políticas e adoção de uma estratégia integrada, focando sempre nos temas relevantes (levando em conta o envolvimento dos mais altos níveis de hierarquia para a decisão de tais temas) e nos públicos de relacionamento.

Com isso, as diretrizes trazem consigo um foco na divulgação de informações materiais para a organização, levantadas com base no que os públicos de relacionamento consideram relevante. Por isso, os representantes da GRI enfatizaram durante toda a Conferência que a construção dos relatos deve ser um processo colaborativo, como um trabalho integrado entre os diferentes públicos que fazem diferença para a organização, demonstrando sua estratégia integrada, focada na sustentabilidade.

E concordo com o que disse Ernst Ligteringen, CEO da GRI, quando afirma que sustentabilidade é estratégica e Relatórios de Sustentabilidade devem ser um exercício de definição de propósito, de princípios e ações, e não apenas um exercício de assinalar respostas de um questionário.

Organizações sem fins lucrativos e publicações de resultados

As organizações sem fins lucrativos buscam recursos dos demais setores da economia a fim de suprir as necessidades das comunidades. No caminho desta busca, é totalmente importante que tenham uma gestão planejada e integrada, com uma estratégia que busque resultados sustentáveis.

Pode-se elencar alguns fatores que demonstram a importância de uma entidade sem fins lucrativos desenvolver relatórios de sustentabilidade. Internamente destacam-se os seguintes pontos:

  • A publicação de um relatório pode apoiá-la na definição de estratégias a longo prazo e controle das atividades no curto prazo.
  • O processo de relato apresenta pontos fortes e pontos que precisam ser trabalhados: ele facilita na definição de metas, processos, políticas, programas e sua eficácia.
  • O relatório é um apoio no reconhecimento dos impactos positivos e negativos de suas atividades, sempre buscando compreender se atingem os objetivos e refletem a missão da organização.
  • Os relatórios refletem a diversidade das comunidades onde estão presentes, demonstrando o impacto social de suas ações.
  • Trabalhar a transparência nas informações como foco, levando em conta cenários globais de corrupção é imprescindível para a continuidade de suas atividades.
  • Além de cumprimento de legislação, se entende necessário que uma ONG tenha sua gestão bem equilibrada e organizada.

E junto as suas redes de desenvolvimento, na relação com parceiros ou demais públicos de relacionamento, a relevância da publicação de relatórios de sustentabilidades podemos levantar mais alguns argumentos:

  • Material reconhecido pela iniciativa privada, ou seja, importante para a busca de novos recursos, visto que demonstra confiabilidade e presta contas de suas atividades.
  • Sua natureza carrega responsabilidade de transparência maior, pois deve prestar contas não só para os seus investidores e envolvidos no dia-a-dia, mas, para uma comunidade que acredita em seus valores.
  • Analisar de maneira transparente aspectos positivos e negativos de sua performance pode trazer parceiros que a apoiem.
  • A transparência com a gestão financeira da organização é importante principalmente para aquelas que dependem de doadores e apoio público.

Cenário dos relatórios de sustentabilidade para entidades sem fins lucrativos no Brasil

Segundo a GRI, há poucas organizações sem fins lucrativos que publicam relatórios de sustentabilidade no mundo todo. Na Europa a prática já é mais comum, mas no Brasil não chega a “dez” o número de organizações que a GRI tem conhecimento das publicações que seguem suas diretrizes. Os motivos mais comuns são acharem que somente grandes empresas são capazes de relatar por ter um custo alto ou a metodologia ser complexa demais. Representantes da GRI no Brasil vêm tentando fazer esforços para apoiar organizações interessadas em relatar e tornar públicas suas experiências.

A organização social “Liga Solidária”, que desenvolve programas socioeducativos e de cidadania que beneficiam mais de 10.000 pessoas, traz em seu DNA a prática de relatório. Desde sua fundação, na década de 1920, suas fundadoras desenvolviam relatórios de atividades, a fim de prestar contas do que realizavam junto à comunidade.

Desde 2012, a Liga Solidária publica seu Relatório de Atividades seguindo as diretrizes da GRI. Vanessa Oliveira, coordenadora de Comunicação da Organização afirma que a importância de publicar um relatório é “demonstrar aos nossos stakeholders que somos uma organização preocupada com a transparência na hora de expor os impactos das nossas ações e os resultados financeiros.”. Ela completa que uma ONG que publica um relatório que segue as diretrizes GRI é diferenciada pois está conectada com o que há de mais atual em práticas de gestão e publicação de relatórios anuais. Segundo Vanessa, “Os relatórios aumentam as nossas chances de reconhecimento e até de captação de recursos financeiros internacionais.” . Para conhecer o Relatório de Atividades da Liga Solidária, acesse: http://www.ligasolidaria.org.br/wp-content/uploads/2015/04/RA_20153.pdf

Kelly Lopes, gestora do Instituto da Oportunidade Social comemora o desenvolvimento do primeiro relatório da organização seguindo as diretrizes da GRI. “Estamos muito felizes com o resultado, pois, acreditamos na relevância das informações levantadas e o quanto são importantes para nossos públicos de relacionamento. O processo de construção do material foi intenso, envolvendo diversos públicos de interesse do IOS, o que amplia nossa visão de como melhorar cada vez mais o impacto social do Instituto, bem como nosso processos internos e objetivos de longo prazo.” Kelly ainda complementa que o material será um grande aliado na busca de novos investidores e parceiros institucionais.O relatório do IOS pode ser acessado no link http://www.ios.org.br/blog/relatorio_gri_ios.pdf

Inspiração para começar (ou re-começar)!

Como motivadora desta prática de gestão, finalizo artigo com algumas palavras da diretora da Northern Trust, Connie Lindsey, que deu um show à parte no último dia da Conferência Global da GRI. Em primeiro lugar, a esperança e a vontade de mudar o mundo precisam estar na nossa essência diária, sempre com um sorriso no rosto.

Connie coloca que é importante todos os dias pensar no que queremos que o mundo seja diferente, pois é nele que onde vivemos; e pensar também no que queremos ser diferentes para o mundo. A partir das respostas encontradas é que devemos focar nossas atitudes e valores, não nos problemas percebidos, mas sim no que podemos colaborar para alcançar as soluções. “Deseje sempre a paz, mas não tenha medo dos conflitos. Afinal, como diz um provérbio africano, se você pensa que é muito pequeno para fazer a diferença, tente dormir em um quarto fechado com um mosquito”, afirmou a palestrante.

Bibliografia:

  • Handbook for Stakeholder Engagement Standards vol. 1 http://www.accountability.org/images/content/2/0/207.pdf
  • The Stakeholder Engagement Manual vol. 2

http://www.accountability.org/images/content/2/0/208.pdf

  • Consultation with Civil Society: A Sourcebook

http://siteresources.worldbank.org/CSO/Resources/ConsultationsSourcebook_Feb2007.pdf

  • www.Riccari.com.br /blog – maio de 2013
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