Quando menos pode ser mais

Na sociedade consumista e capitalista em que vivemos, com tanto a disposição, não dá para viver melhor querendo um pouco menos?

Aqueles que estão na faixa dos quarenta anos e que conheceram a informática pessoal na década de 80 lembram como eram os equipamentos que nos maravilhavam com suas caixas enormes, pesadas e monitores monocromáticos, geralmente com gráficos na cor verde ou cinza, eram praticamente artigos de luxo porque custavam caro e para rodar programas precisavam de disquetes do tamanho de meia folha de papel A4 com capacidade de memória de 180kb, depois vieram os de 360kb e os de 1.2mb, um HD de 5MB de capacidade custava incríveis 1.000 dólares! Ter um PC completo em casa não saía por menos de 2.500 dólares e estou falando dos anos 80.

Porém o tempo passou rapidamente e as inovações também vieram na mesma velocidade, o que fazemos hoje com 360kb? Esse é um termo que nem se usa mais atualmente, quando falamos em capacidade de armazenamento não ficamos mais abaixo de 500 gigabytes e já contamos com terabytes de espaço, porém em espaços físicos cada vez menores, os pendrives, quando você imaginou em 1990 que teria em suas mãos um pequeno dispositivo móvel que poderia armazenar até 32gb, que poderia gravar filmes e mais filmes nele para ver na TV, abandonando de vez aquelas incômodas fitas VHS e enterrando aquele videocassete de luxo 4 cabeças caro à beça? Levanta a mão quem nunca se esqueceu, quando estava a caminho da locadora para devolver as fitas, que não tinha rebobinado aquele treco e que ia pagar multa por isso, pelo menos as pessoas da minha geração lembram isso, os adolescentes de hoje só sabem como era engraçado vendo os vídeos no youtube ou em postagens saudosistas no facebook.

Qual o ensinamento que podemos tirar de todo esse avanço tecnológico e aplicar nas nossas vidas? Que podemos ter muito mais tendo um pouco menos em mãos, passamos as nossas vidas lutando para ter de tudo: casa, carro, móveis, imóveis e até mais de uma companheira por vez. Esse excesso de desejo pode levar a uma complicação, a dificuldade de lidar bem com tanta coisa e acabar por perder tudo, já diz o famoso provérbio ‘Quem tudo quer, tudo perde’, isso se refere a essa ambição em ter mais do que o necessário simplesmente pelo objetivo de ter e que pode acabar levando a infelicidade.

Seguindo essa linha de raciocínio, soube de executivos que, esgotados da louca e estressante vida corporativa, tomaram a decisão de viver em esferas menores, porém com um ganho pessoal mais elevado como o francês Axel de Torsiac que deixou a gerência do canal HBO pela decoração, abrindo seu negócio próprio e de Augusto Pinto, ex-presidente da SAP no Brasil, ex-vice-presidente da Siebel na América Latina e que hoje tem um negócio de consultoria, muito menor do que os gigantescos cargos que ocupou, mas que lhe rendeu mais tempo com a família e os filhos. Optaram por um estilo minimalista de vida, quando você decide se livrar dos excessos e passa a buscar a felicidade e a realização pessoal deixando para trás o que não é necessário e que estava se tornando fonte de medos, angústia, estresse e preocupações.

Quantos empresários têm carros, barcos, casas, vários imóveis e muitos bens materiais? Vários, fica até difícil fazer uma lista, mas quantos deles têm tudo isso e não tem preocupações? Talvez dê para contar nos dedos das mãos ou de uma mão só, na verdade nem em um dedo porque todos tem que se preocupar o tempo todo se os carros estão com seguro pago, se os barcos estão com a manutenção em dia e se os caseiros não estão roubando as suas casas nesse instante e vale a pena viver assim, com um AVC esperando bater nas suas portas e acabar com tudo isso em um instante? E o saldo disso é sempre negativo, tanto para ele como para a sua família. Felizmente, como os exemplos acima, alguns despertaram dessa ilusão e buscaram a felicidade. Acredito que para vivermos melhor é hora de avaliarmos o quanto podemos ser felizes administrando o pouco que temos nas mãos, mas com a maior de todas as aliadas: a liberdade.

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento