Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) versus Greendex

Neste artigo foi realizada uma tentativa de estabelecer uma relação de duas variáveis: desempenho escolar no mundo e o índice de de consumo sustentável. Mas diferente do previsto inicialmente não ficou evidente uma relação clara entre as duas variáveis. Mas um fato interessante foi encontrado para explicar tal falta de relação

O Programme for International Student Assessment (Pisa) ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes em tradução para a lingua Portuguesa, é uma prova aplicada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para medir o nível de habilidades de estudantes de diferentes países ao redor do mundo em três áreas básicas do conhecimento: matemática, leitura e ciência (http://www.oecd.org/pisa). Este exame ocorre a cada três anos para estudantes na faixa etária de 15 anos. Os resultados do exame no ano de 2012 realizado em 56 países, por exemplo, mostram que os melhores resultados foram obtidos por países como China, Singapura, Coréia, Japão, Principado de Liechtenstein, Suiça, Holanda, Estônia, Finlândia, Canadá, Polônia, Bélgica, Alemanhã, Vietnã, Austria, Irlanda, e Eslovénia, nas primeiras 16 posicões, respectivamente.

Já o Greendex é um estudo científico quantitativo do consumo também conhecido por índice de consumo sustentável, que é realizado pela National Geographic/GlobeScan com 18 mil consumidores em 18 países do mundo (http://environment.nationalgeographic.com/environment/greendex/). Este índice avalia tendências no comportamento do consumidor atráves de um questionário avaliando o comportamento do consumidor em questões como: uso de energia, conservação, escolhas do tipo de transporte, escolhas de alimentos, uso de produtos ecologicamente corretos versus produtos convencionais, atitudes com relação ao meio ambiente e a sustentabilidade, conhecimentos sobre questões ambientais; que foram avaliados por um grupo de especialistas internacionais. Os resultados desta avaliação realizada em 2012, por exemplo, mostram que países de economia em desenvolvimento como Índia e China, ocupam as primeiras posições em preocupação com consumo sustentável, seguidos por Coréia do Sul, Brasil, Argentina, México, Hungria, Rússia, África do Sul, Alemanhã, Espanha, Suécia, Austrália, Grã-Bretanhã, França, Japão, Canadá, e Estados Unidos da América.

Agora que já sabemos do que se trata as duas variáveis mostradas acima, a missão é simplesmente estabelecer uma relação entre elas. Porém, o que parecia simples em teoria, passou a ser um grande desafio. Quando elaborei a ideia deste artigo o que me veio a mente a princípio foi uma relação direta no seguinte sentido: quanto maior a escolaridade de um país, maior seria um comportamento do consumidor preocupado com a sustentabilidade, e direcionado para o consumo ecologicamente correto e consciente. No entanto, todas as tentativas de relacionar estas duas variáveis mostraram-se infrutiferas. Analisando os dados podemos observar que não existe nenhuma relação entre as duas variavéis.

Mesmo levando em consideração a limitação de cada um dos estudos, como por exemplo, a analise de apenas 18 países pelo indíce Greendex. A tentativa para estabelecer uma relação me levou a um grande exercício de raciocínio para tentar estabelecer uma relação; fatores como Produto Interno Bruto (PIB), Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), densidade populacional, dimensão total do país, etc. Foram muitas tentativas, como por exemplo, separar os dados em grupos, retirar os países que estavam em uma lista e não na outra, mas por mais tentativas e exercícios realizados, não havia como estabeler um padrão lógico para estas duas variáveis estarem relacionadas.

A princípio a questão da amostragem pequena (18 países) do índice Greendex, me pareceu ser a chave do problema, mas depois de muita reflexão este aspecto foi descartado. Como explicar que países como Índia, China, Brasil, Argentina e Africa do Sul estavam entre os dez primeiros colocados neste ranking? Me ocorreu até mesmo o fato de que o índice Greendex poderia ser um estudo enviesado, ou seja, realizado em favorecimento de um determinado grupo de países, mas novamente esta hipótese foi descartada ao avaliar os critérios utilizados pelo grupo de especialistas internacionais da organização National Geografic/Globescan.

Detectar enviesamentos e interesses de algumas organizações e instituições de pesquisa tem sido um divertido jogo realizado nos últimos anos para mim, principalmente, pelo fato de atuar na área de pesquisa académica por muitos anos e no início achava que a ciência era uma área pura e romântica que procurava entender e explicar o mundo, mas a verdade não é bem esta. Mas minha dúvida ainda persistia: como explicar os resultados apresentados no Greendex? O trabalho de reflexão então continuou, seguidas vezes avaliei os dados, tentei detectar padrões, pontos fora da curva média, etc. Alguma explicação deveria existir para explicar estes dados. E existe sim.

Observando atentamente os dados do indíce Greendex tentei detectar algum padrão comum ou coincidente entre os dados dos países no topo da lista. Dai “voilà” um pequeno “insight” brilhou em minha mente. BRICS Building Better Global Economic ou "Cinco Grandes" (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), juntos formam um grupo político de cooperação estabelecido em 2009, e a partir de então, esta sigla passou a ser amplamente usada como um símbolo da mudança no poder econômico global.

Mas temos que considerar que a Argentina não faz parte do BRICS; mas não posso descartar o fato que os países deste grupo, mais a Argentina, estão no topo da lista do indíce Greendex. Os países -economias em desenvolvimento e apresentando crescimento nas últimas décadas- deste grupo juntos formam um grupo político de cooperação. Mais interessante ainda o fato de que alguns especialistas mencionaram que o México e a Coréia do Sul (também presentes no topo da lista Greendex) seriam os únicos outros países comparáveis ​​aos BRICS, mas suas economias foram inicialmente excluídas por serem consideradas mais desenvolvidas, uma vez que já eram membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Então, fica evidente que o comportamento do consumidor mais preocupado com sustentabilidade e consumo ecologicamente correto emergiu recentemente, justamente em países em desenvolvimento e com economias em crescimento nas últimas décadas (BRICS mais México e Coréia do Sul). Contrariando a visão inicial esperada que os consumidores mais ecologicamente corretos seriam mais evidentes em países com maior sucesso na educação ou países desenvolvidos também chamados de primeiro mundo.

O fato destes países apresentarem economias em crescimento -correspondem a uma população de quase um bilhão e setecentos milhões de habitantes (quase um quarto da população mundial)- evidencia um fator muito importante em relação a questões como a sustentabilidade e consumo de produtos ecologicamente corretos. Pois estes países apresentam economias aquecidas e em desenvolvimento, sendo que, estão contribuindo imensamente e de forma crescente para os problemas de poluição do meio ambiente e o aquecimento global. Por exemplo, a China, Ámerica do Norte, Índia e Rússia aparecem na lista dos países com maiores emissões de CO2, respectivamente (http://www.airportwatch.org.uk/the-problems). Mas estes países tem ainda a oportunidade de implementar uma política de crescimento com base nos princípios da sustentabilidade.

Daí o ditado popular “dois pesos, uma medida”, ou seja, cada caso é um caso (cada variável tem um peso diferente) e não se pode julgar fatos diferentes com a mesma medida.

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