Profissionais de marketing X marqueteiros: arte de persuadir contra truques para ludibriar

A arte de fazer marketing deve utilizar-se de bom-senso, integridade, honestidade e transparência. Para os bons profissionais, esses fatores integram uma cartilha de ética e boa conduta a ser seguida religiosamente. Para os marqueteiros, tais atributos são, aparentemente, dispensáveis, infelizmente

Existe uma velha máxima no mundo dos negócios que afirma que nenhuma estratégia de marketing mostra-se capaz de gerar resultados expressivos e duradouros sem contar com o lastro de um produto com atributos suficientemente atrativos aos implacáveis olhos do mercado. Naturalmente, entre esses atributos, tanto físicos quanto abstratos, são inquestionavelmente importantes os elevados padrões de qualidade, fortes apelos funcionais e marcas com grande prestígio no mercado. Na prática, esta velha máxima, infelizmente, aparenta ser ainda mais ultrapassada quando é levado em conta o contínuo e crescente fluxo de produtos nada superiores sendo posicionados em segmentos premium sem cacife algum para tal status de consumo. Os responsáveis por tais proezas – para usar um termo politicamente correto – são os incansáveis e inescrupulosos marqueteiros.


Profissionais de marketing que genuinamente merecem tal denominação geralmente apresentam como uma de suas inúmeras competências a intrigante capacidade de persuadir os consumidores em relação à aquisição de bens que lhes são ofertados como soluções repletas de valores tangíveis e intangíveis. Isso sim é o marketing na sua essência, uma admirável mistura entre razão e apelo emocional capaz de gerar fabulosos resultados comerciais e financeiros para companhias que se mostrem corretas e transparentes nas relações que estabelecem junto aos seus públicos consumidores. Essa postura correta e transparente é conflitante com o cada vez mais corriqueiro fornecimento de produtos que são artificialmente posicionados como portadores de qualificações superiores, quando na realidade seus verdadeiros atributos os encaixam simplesmente como "comuns" ou "de massa".

O recente fenômeno da "premiunização", que vem assolando o mercado de consumo brasileiro em seu atual momento de exuberância, contribui imensamente com a proliferação de marqueteiros pouquíssimo (ou nada) interessados na coesão entre o que se promove e o que efetivamente é entregue aos consumidores brasileiros. Produtos que vão desde bebidas até automóveis, passando também por itens de "luxo" e outros sonhos de consumo que vêm se transformando em realidade para pessoas e famílias que ascenderam na pirâmide sócio-econômica do Brasil emergente. O grande passo de superação das demandas reprimidas e a evidenciação de progresso através de novos hábitos e patamares de consumo ficam arranhados diante da falta de ética, honestidade e transparência de "profissionais" que usam o "marketing" para gerar demanda em torno de produtos incompatíveis com as suas fajutas descrições, sempre tendo em vista vendas com margens de lucro mais altas e a disseminação de uma falsa aura de superioridade e sofisticação.

Obviamente, nem todas as companhias e suas respectivas marcas conseguem entregar produtos superiores aos seus consumidores, e não há absolutamente nada de condenável nisso. Cada empresa deve estar adequada à sua musculatura financeira, capacidade tecnológica e poderio inovador, entre outros aspectos que normalmente caracterizam cada estágio do ciclo de vida de um negócio. No entanto, a incapacidade de entregar produtos de excelência ao mercado não deve ser ignorada mediante iniciativas de marketing irresponsáveis e nada factíveis. Nesse sentido, os profissionais de marketing devem focar a melhoria concreta de seus produtos e sua devida adequação a patamares superiores de qualidade e excelência, de modo a não correrem o risco de anunciarem mentiras e entregarem ilusões aos consumidores.

Dessa forma, a proliferação dos marqueteiros poderia ser brecada e os consumidores não mais seriam ludibriados por aqueles que colocam as metas de vendas e faturamento acima de todo e qualquer princípio moral, mesmo que a reputação e a imagem de toda uma companhia sejam perigosamente colocadas a sua própria sorte. Historicamente, os consumidores (pelo menos os contemporâneos) não costumam perdoar aqueles que subestimam a sua inteligência e os seus níveis de exigência. Portanto, abram bem os olhos, marqueteiros de plantão. Mais cedo ou mais tarde, o mercado, definitivamente, pune.

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