Pós-modernismo no programa Porta dos Fundos

Um exemplo de construção híbrida atual é a Porta dos Fundos, uma produtora que apresenta vídeos de humor próprios na internet. A expressão híbrida se dá pela forma como é produzido, pois é gravado nos moldes de um seriado televisivo, mas sem preocupação com continuação

Introdução

Os elementos culturais da mídia, em constante transformação na sociedade, apresentam grandes mudanças quando observados ao longo dos anos. Com a constante inovação de plataformas, que passam desde os meios de comunicação tradicionais até a internet interativa, as diferentes formas de arte apresentam alterações significativas ao seu tempo. As fronteiras e barreiras do acesso, do tempo e do espaço foram rompidas e diferentes formas de manifestação cultural chegam a cada do expectador á distância de um clique.

A pesquisadora Lucia Santaella (2003, p. 52) é clara ao observar que, com o advento da cultura de massas a partir da dos meios de reprodução técnico-industriais, seguida da onipresença dos meios eletrônicos de rádio e televisão, produziu-se um impacto até hoje atordoante naquela tradicional divisão da cultura em erudita, culta, de um lado, e cultura popular, de outro. Por sua análise, ao absorver e digerir, dentro de si, essas duas formas de cultura, a expressão de massas tende a dissolver a polaridade entre o popular e o erudito, anulando suas fronteiras. É como se a linha tênue entre esses dois modelos fosse cada vez mais diluída na percepção das pessoas, que experimentam modelos distintos, porém abrangentes, de apreciação da arte.

A autora (2003, p. 52) ainda reforça que desta alteração resultam cruzamentos culturais em que o tradicional e o moderno, o artesanal e o industrial mesclam-se em tecidos híbridos e voláteis próprios das culturas urbanas.

Um exemplo de construção híbrida atual é a Porta dos Fundos, uma produtora que apresenta vídeos de humor próprios na internet. A expressão híbrida se dá pela forma como é produzido, pois é gravado nos moldes de um seriado televisivo, mas sem preocupação com continuação. Ser criado exclusivamente para internet faz com que se ganhe mais alcance com o compartilhamento das redes sociais virtuais. Um produto gravado com as ferramentas de um meio, que é a televisão, unificadas com as características de outro meio, a internet.

Em parceria com o site de humor Kibe Loco e a produtora Fondo Filmes, Porta dos Fundos tem como principal meio de difusão o Youtube, plataforma de veiculação de vídeos, independentes ou não, na internet. A produtora começou em março de 2012, com o primeiro programa sendo lançado em agosto. O canal é o brasileiro com mais inscritos no Youtube e 53º no mundo.

Um fato relevante é que Porta dos Fundos ganhou o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Artes) em 2012, na categoria Melhor Programa de Humor. O prêmio é um dos mais tradicionais de São Paulo e homenageia produções nas áreas de artes plásticas, arquitetura, teatro, televisão, música e cinema. Foi a primeira vez que o troféu de humor na TV foi para um programa de internet.

Na ocasião, em matéria publicada no Portal R7, em 11 de dezembro de 2012, o blogueiro, editor de cultura do R7 e crítico da APCA, Miguel Arcanjo Prado, falou que “o prêmio da APCA para um programa veiculado na internet valoriza a chegada deste novo veículo. Isso é um reflexo de que os tempos mudaram e também a forma de ver TV. A internet apresenta um mar de possibilidades aos novos artistas e, aos poucos, ganha também o reconhecimento da crítica especializada” (R7, 2012), enfatizou.

Até o dia 20 de junho de 2013, o canal exclusivo do Porta dos Fundos já contabilizava 330,6 milhões de visualizações, o que demonstra substancial aceitação desse modelo híbrido de produção. Henry Jenkins (2006) destaca que esse poder de massificação dos espectadores para determinado produto não está relacionado exclusivamente com a tecnologia, pois a convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. Ele observa que o fenômeno ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros.

Cada um de nós constrói a própria mitologia pessoal, a partir de pedaços e fragmentos de informações extraídos do fluxo midiático e transformados em recursos através dos quais compreendemos nossa vida cotidiana. Por haver mais informações sobre determinado assunto do que alguém possa guardar na cabeça, há um incentivo extra para que conversemos entre nós sobre a mídia que consumimos. Essas conversas geram um burburinho cada vez mais valorizado pelo mercado das mídias (JENKIS, 2006, p. 30).

O objetivo deste artigo é avaliar se é possível encontrar elementos pós-modernos no Porta dos Fundos, analisando exemplos de seu conteúdo veiculado.

A controversa definição do pós-modernismo

O conceito de pós-moderno deve ser avaliado com cuidado como premissa em qualquer análise acadêmica. Kellner (1995, p. 67) reforça essa preocupação ao destacar que muitos teóricos do pós-modernismo, ou aqueles que usam o termo de forma sistemática, muitas vezes expõem uma lista de características arbitrárias, muitas vezes questionáveis.

Pelo seu ponto de vista (1995, p. 69), o termo pós-moderno, muitas vezes, serve para “guardar lugar”, como um marcador semiótico para denominar novos fenômenos que existem mapeamento e teorização. Utilizando-o de forma errada, Kellner reforça no mesmo parágrafo que reduz o termo a um mero jargão para identificar ações novas.

Portanto, o discurso sobre o pós-moderno é um contruto cultural e teórico, e não uma coisa e estados de coisas. Ou seja, não há fenômenos intrinsicamente “pós-modernos” que o teórico possa descrever. Os conceitos são gerados como construtos teóricos usados para interpretar uma família de fenômenos, produções ou práticas (KELLNER, 1995, p. 61).

David Harvey, na tentativa de esclarecer um pouco das diferenças entre os dois termos, procurou examinar o esquema entre modernismo e pós-modernismo nos termos de Hassan (HARVEY, 1992, p. 4). Hassan estabelece uma série de oposições estilísticas para capturar as maneiras pelas quais o pós-modernismo poderia ser.

Harvey utiliza esse exemplo, mas ressalva que considera perigoso (como o faz Hassan) descrever relações complexas como polarizações simples. É quase certo que o real estado da sensibilidade, a verdadeira "estrutura do sentimento" dos períodos moderno e pós-moderno, está no modo pelo qual essas posições estilísticas são sintetizadas. Mas ressalta que trata-se de um método que fornece um útil ponto de partida.

Kellner é ainda mais cauteloso e vê fragilidade na forma como se conceitua o termo, pois admite (1995, p. 73) que vivemos em uma era moderna em envelhecimento e uma nova era pós-moderna, que ainda precisa ser adequadamente conceituada, diagramada e mapeada. Para ele, viver na fronteira entre o velho e o novo cria tensão, insegurança e até pânico, produzindo um ambiente cultural e social perturbador e incerto.

Portas dos fundos, pós-moderno?

Antes de avaliar série Porta dos Fundos é importante lembrar que ele possui seus episódios incorporados na internet. Por essa razão, ele permeia um ambiente tecnológico sem fronteiras, de livre acesso, qualquer pessoa pode usufruir sem custo, desfigurando o custo do direto autoral e, até certo ponto, sem censura.

Por utilizar essa plataforma tecnológica, é importante debater os impactos que o uso dessa tecnologia pelo homem, criando um fenômeno denominado como cibercultura. Lemos (2003, p. 1) define o conceito como a cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais, ou seja, já vivemos em um ambiente de cibercultura. Ela não é o futuro, mas o nosso presente (home banking, cartões inteligentes, celulares, palms, pages, voto eletrônico, imposto de renda via rede, entre outros). Trata-se assim de escapar, seja de um determinismo técnico, seja de um determinismo social. A cibercultura representa a cultura contemporânea sendo consequência direta da evolução da cultura técnica moderna.

Artistas utilizam efetivamente as novas tecnologias, como os computadores e as redes de telecomunicação (TV e satélites), criando uma arte aberta, rizomática e interativa. Aqui, ampliando as vanguardas do século passado, autor e público se misturam. A ênfase da arte eletrônica incide, agora, na circulação de informações e na comunicação (LEMOS, 2003, p. 6).

Ao entender o processo do cotidiano e da realidade da cibercultura, analisar se a série Porta dos Fundos possui conceitos pós-modernos passa pela observação de sua fórmula de sucesso: vídeos curtos, sem continuação determinada, com conteúdo irônico em muitas vezes “politicamente incorreto”, como diria o jargão popular. Durante seu período de existência, de agosto de 2012 até 21 de junho de 2013, foram 101 vídeos veiculados.

Um exemplo é como a desterritorialização de narrativas é observada em abundância, elemento genuinamente pós-moderno. Apesar da nacionalidade brasileira, o programa elaborou vídeos ironizando o cinema americano, como Super Amigos e Batman, a arte europeia em Michelangelo, os conflitos medievais da idade média como em Batalha, a música pop americana como Village People e a cultura mexicana no vídeo Tequila. Outro assunto tratado com muita ironia pelos programas é a religião, seja de qualquer segmento. Alguns exemplos são Médico Vidente, Cancelamento, Setor de RH Jesus, Brainstorm, Ciclo da Vida, Trago a Pessoa, Exorcismo, Portegeist, 10 mandamentos, Deus, Arca de Noé, Demônio e Ministério.

As críticas sociais que movem boa parte do interesse da juventude não são observadas de forma abundante nos demais vídeos. A análise remete que a narração do cotidiano, sem em cunho ideológico aparente, é a predominância entre os vídeos produzidos.

Analisando como exemplo o vídeo 10 mandamentos os elementos pós-modernos tornam-se ainda mais evidentes. Na narrativa, Moisés afirma que teve um encontro com Deus que o orientou na descrição dos mandamentos ao povo hebreu. O curioso é que o roteiro reduz o “acontecimento religioso” à praticamente uma reunião de condomínio. Os hebreus questionam com uma linguagem popular - com clara intensão de descaracterizar conceitos históricos e geográficos - se as propostas não têm cunho pessoal de Moisés, se o representante não estava mentindo – abordagens carregadas de ironia – além de reivindicar mudanças nos mandamentos impostos, sugerindo elementos fora do contexto, como colocar asterisco na opção não matarás (indicando se vale para animais) e considerar injusto serem punidos por crimes do passado, uma vez que não haviam sido comunicados das “novas regras”. Por fim, Moisés é ridicularizado pelo povo hebreu, comparando-o com Noé, que para eles era um lunático que queria parecer Amyr Klink[1]. Ou seja, totalmente fora do contexto de tempo e espaço.

Por mais que nos episódios acontecem em certo tempo e espaço pré-definido, de forma progressiva, que aparentemente se assemelham a características do modernismo, o fato não ocorrer continuidade entre os episódios e, aparentemente, não buscar compromisso com alguma temática política, social ou histórica, deixa a impressão de uma quebra de amarras com o modelo tradicional, produzindo um conteúdo de boa aceitação feito exclusivamente para a internet.

Acabando com o conceito moderno de autoria para o pós-moderno de livre acesso ao conteúdo.

Referências
HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia. Bauru: Editora EDUSC, 1995.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
LEMOS, A.; CUNHA, P. (org.) Olhares sobre a cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.
PORTA dos Fundos faz história e ganha tradicional prêmio de melhores de 2012. Site R7. Disponível em: <http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/porta-dos-fundos-faz-historia-e-ganha-tradicional-premio-de-melhores-de-2012-20121211.html>
SANTAELLA, Lucia. Culturas e Artes do Pós-Humano. Cidade: Paulus, 2003.
[1] Amyr Klink (1955) é um empreendedor de expedições marítimas e escritor brasileiro
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