Por trás do espelho
Por trás do espelho

Por trás do espelho

"Máscaras já eram usadas antes dessa explosão de sub-celebridades digitais; Era comum conhecer pessoalmente alguém da web e pensar 'mas ele/ela é muito diferente pessoalmente'"

Há muito tempo um sábio oriental me disse "antes reclamávamos da invasão de privacidade, hoje, nas redes sociais, fazemos da evasão de privacidadeum hábito a ser cultivado". Quando Alexandre Inagaki, um dos grandes nomes da comunicação digital no país, manifestou sua iluminação soltando essa frase em uma mesa de bar eu concordei na hora, afinal já era consumido por um sentimento de exagero que só foi alimentado com selfies pós-sexo, declarações idiotas sobre a própria saúde mental — afinal tem gente que acha cool se declarar bipolar, excesso de exposição do próprio corpo, de valores (alguns distorcidos) e até mesmo de opiniões (aparentemente tem gente que ainda não entendeu que você não é obrigado a tornar pública sua opinião sobre toda polêmica que aparece).

Máscaras já eram usadas antes dessa explosão de sub-celebridades digitais. Era comum conhecer pessoalmente alguém da web e pensar "mas ele/ela é muito diferente pessoalmente". Era comum ver nascerem personagens no momento que um perfil era criado no Orkut, Twitter ou afins. As pessoas cultivavam e exploravam extremos de sua personalidade, ou detalhes criados apenas para esse fim, para ganhar audiência, relevância, para aparecer. Uma forma de alimentar a carência, trabalhar a insegurança ou simplesmente ganhar relevância sobre um tema do qual gostava. Então, sob o suposto anonimato da web, homens viravam mulheres, covardes tornavam-se corajosos e tímidos surgiam como conquistadores. Ouso afirmar que toda persona digital tem algo de disruptor em relação ao perfil real, inclusive o seu, que me lê — é fácil encontrar texto que abordam a vida de fantasia que as pessoas vivem nas redes sociais.

Confesso que naquele tempo isso me incomodava muito pouco, na verdade eu acompanhava com curiosidade o que considerava um ajuste cultural proporcionado pelo crescimento da inclusão digital e do surgimento de novos hábitos. Acho que eu subestimei os riscos dessa tendência. Essa semana uma sub-celebridade do Instagram surtou (cliquem e leiam).

Essena O’Neill tem apenas 19 anos e tinha quase 700 mil seguidores no Instagram. “As mídias sociais, especialmente da forma como eu uso, não são reais. Suas imagens artificiais e seus clipes editados disputam um ranking. É um sistema baseado na aprovação social, curtidas, visualizações, sucesso com seguidores”, escreveu, logo após apagar centenas de posts e editar a legenda de tantos outros. Essena revelou o que para algumas pessoas ainda possa parecer "segredo" — mas que é conhecido no mercado publicitário desde 2009, que recebia para fazer as postagens, fingindo gostar de marcas que não gostava, usando roupas que não eram dela ou mesmo apresentando hábitos que não eram seus. Ganhava mais de U$ 400,00 por post, o que é uma grana considerável para uma pessoa comum, de apenas 19 anos, que descobriu como ganhar relevância e audiência fingindo ser quem não era. Ah, Eden, quantos de nós ganham a vida fingindo gostar daquilo que fazemos quando não vemos a hora de chegar em casa? Verdade, muitos, mas são poucos os que fazem isso enquanto influenciam outras pessoas. E aí é, em minha opinião, onde mora o perigo.

Essena vivia sob forte pressão das chamadas "imposições do padrão de beleza" e, enquanto sofria pra se adequar, como hoje confessa, pregava a mesma imposição para suas seguidoras. Pregava a submissão aos padrões de beleza, ao consumismo e a todo universo fútil que orbita ao redor dessa combinação. Ela vendia aquilo que se diz obrigada a comprar.

Há algum tempo Bela Gil postou que não usa pasta de dente, tendo substituído a mesma por cúrcuma (!!!!). Segundo as respostas que recebeu de diversas entidades ligadas à odontologia é um absurdo sem tamanho. Bela reagiu dizendo que não indicou pra ninguém, que não é responsável pelo que as pessoas fazem, que apenas falou de um hábito seu. Sou forçado a discordar. Celebridades ou sub-celebridades, digitais ou não, influenciam milhões de pessoas. Seus hábitos, costumes e declarações tem grande relevância junto aos seus fãs e não dá pra ignorar esse fato tentando fugir de tal responsabilidade.

Quando uma Gabriela Pugliesi, que não tem nenhuma formação em nutrição, dá dicas sobre alimentação ela está influenciando pessoas a acompanhar tais dicas e, eventualmente, se colocar em algum tipo de risco. Quando Kefera surge em fotos para adolescentes dando uma bela dedada, numa postura "sou rebelde porque o mundo me fez assim", estimula seus fãs a assumirem a mesma postura, eventualmente se colocando em alguma situação delicada. Veja bem, não estou discutindo culpa, estou discutindo influência. São coisas distintas em minha opinião.

Ah, Eden, mas isso é uma realidade no mundo POP, um Justin Bieber mesmo só dá maus exemplos. Sim, eu sei, mas é diferente. Criar um Justin é bem difícil, já criar uma celebridade digital nem tanto. Com um bom planejamento estratégico e tático e algum dinheiro eu diria que é até relativamente fácil, afinal há um mercado ávido por essas figuras que os lidere — leiam Tribes, de Seth Godim. Listar conteúdo na maior parte dessas celebridades é bem difícil, ao menos pra mim. Em vários deles eu não consigo encontrar um ponto onde, por exemplo, eu diria "meu filho, se espelhe em fulano".

Mas termino me perguntando: se meus heróis morreram de overdose quem sou eu pra fazer esse tipo de julgamento? É, afinal sou tão careta e quadrado quanto uma pessoa pode ser. Talvez eu esteja apenas supervalorizando essa capacidade de se criar ícones de forma tão rápida, elevando pessoas que fingem ignorar a máxima de que "com grandes poderes vem grandes responsabilidades" ao Olimpo digital, onde podem falar com milhões de crianças e adolescentes — e adultos que agem como adolescentes — que ainda não tem capacidade de se blindar do mar de bobagem que é exposto para elas. Ou talvez eu apenas tema pelo futuro.

Texto publicado originalmente em seu Medium e cedido gentilmente pelo autor.

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