Por que as startups brasileiras precisam se internacionalizar?

Um ponto que sempre me chama atenção é a quase inexistência tanto de startups como de pequenas e médias empresas brasileiras fora do Brasil. Parece que o resto do mundo não existe para a mente de uma grande maioria de empreendedores. Mas por quê?

Em 2011 me mudei para a China onde vivi e trabalhei por dois anos. Lá pude vivenciar uma das experiências mais marcantes da minha vida. Frequentei assiduamente o 798 Disctrict, um projeto de economia criativa que converge arte e empreendedorismo no país além de participar de inúmeros eventos na região de Zhongguancun, que é conhecido como o Vale do Silício chinês.

Tanto na China como em diversos outros países, empreendedores de diferentes culturas e pontos de vista focam em lançar seus produtos online para o mundo e não para um mercado específico.

Um ponto que sempre me chama atenção é a quase inexistência tanto de startups como de pequenas e médias empresas brasileiras fora do Brasil. Parece que o resto do mundo não existe para a mente de uma grande maioria de empreendedores. Mas por quê?

Também me admira perceber a visão de mundo que os empreendedores brasileiros tem, focados quase que integralmente no mercado interno, e como isso está afetando o desenvolvimento da inovação em nosso país.

Por que temos um mindset empreendedor tão fechado pro mercado externo? Por que tantos copycats no Brasil? Por que é tão difícil convencer o empreendedor a internacionalizar, mesmo com o dólar supervalorizado?

Depois de uma rápida temporada em Lisboa, comecei a me dedicar a estudar mais a fundo essas questões e encontrei na história, tanto de Portugal como de nosso país, algumas dicas que ajudam a entender a nossa mentalidade empreendedora e mostram os desafios que precisamos enfrentar.

Nessa pesquisa, algumas datas me chamaram atenção, como 1808, 1940, 1991 porque nestes anos, fatos emblemáticos ocorreram no Brasil e serviram para moldar o que somos hoje.

1808 e o cenário das startups no Brasil

Na madrugada de 29 de novembro de 1807, a família real portuguesa deixa o porto de Lisboa rumo ao Brasil. O ainda príncipe regente D. João VI, sob a proteção da marinha real inglesa, abandona seu país às pressas, permitindo assim que as tropas francesas invadissem Portugal, sem encontrar nenhuma resistência.

A viagem até a costa brasileira levou quase três meses e em 22 de janeiro de 1808, a corte portuguesa finalmente aportava na Baía de Todos os Santos. Nesse momento, acontece um dos mais importantes fatos históricos e que mudam completamente a história comercial do nosso país, D. João VI assina o Decreto de abertura dos portos às nações amigas, no qual autoriza o comércio do Brasil com as nações consideradas amigas de Portugal diretamente.

Para entender a dimensão histórica desse fato, é preciso compreender que desde a chegada dos portugueses em nosso solo, em 1500, diversos tipos de negócios eram proibidos para os brasileiros e todas as nossas exportações tinham que obrigatoriamente ser realizadas com a aduana de Portugal, ou seja, o Brasil estava fechado para o cenário internacional.

Se analisarmos o desenvolvimento do país, desde a chegada oficial dos portugueses até 1808, vamos facilmente perceber os resultados desastrosos dessa política, que minou a livre iniciativa e o desenvolvimento do empreendedorismo de base em nosso país, sem contar os problemas gerados pela falta de intercâmbio cultural com outros povos.

Com a abertura dos portos, iniciou-se uma nova fase no Brasil, criou-se leis de incentivo ao comércio e surgiram diferentes ramos de atividades antes proibidos. Após um ano de abertura do portos, instalaram-se mais de cem empresas inglesas ligadas ao comércio exterior, gerando troca de informações e acelerando o processo de desenvolvimento e inovação.

É claro que a formação do povo brasileiro é extremamente complexa, mas a ideia é mostrar para quem está empreendendo em inovação no Brasil um pouco da nossa origem, da nossa história, com dois os objetivos principais:

Mostrar aos desavisados que estão estudando livros como o Startup Enxuta do Eric Ries e outros que a realidade americana e de vários países liberais é muito diferente da nossa que sempre teve uma inclinação mais patriarcal.

Deixar claro a importância do intercâmbio internacional, tanto para inovação como para o desenvolvimento pessoal e empresarial.

Não quero dizer com isso que se deva abolir essas novas metodologias de lançamento de startups, mas que se possa tomar consciência dos obstáculos naturais a serem vencidos, que se compreenda a origem tanto do mindset do empreendedor brasileiro como do ambiente de (barreiras a) inovação que temos hoje.

Sem dúvida, o principal desafio para o empreendedor brasileiro nos próximos anos é o da globalização. Para isso, faz-se necessário tirar o foco do próprio umbigo, parar de reclamar da nossa política, do dólar, da crise, da economia e partir para alçar voos em novas regiões, conhecer países que ofereçam mais vantagens, perder o medo do desconhecido e, finalmente, desbravar novas possibilidades em qualquer lugar do mundo.

1940, portos fechados e a institucionalização do copycat


Os portos brasileiros foram abertos pela primeira vez em 1808 com o decreto de abertura às nações amigas, assinado por D. João VI, antes de desembarcar em Salvador, que autorizou o comércio do Brasil diretamente com as nações como Inglaterra, Holanda entre outras.

Essa situação durou até 1940, ou seja, apenas 132 anos. A partir daí tivemos de novo os portos fechados, só que a desculpa agora foi a proteção à industria nacional. O país entrou numa era de total escuridão no processo de globalização e até hoje sentimos os efeitos dessa medida tomada por Getúlio Vargas e seguida pelos governos militares.

Esse fechamento dos portos, juntamente com o “milagre econômico” defendido pela ditadura, criaram um ufanismo exagerado em nosso país, com consequências profundas, sentidas até hoje na maneira como nós empreendedores pensamos. Os militares brasileiros, apoiados pelos americanos, castraram o pensamento inovador da época de tal maneira que passamos a copiar todas as tecnologias lançadas no exterior, acreditando que estávamos inovando, ou seja, o “copycat” foi institucionalizado e muita gente nem lembra mais.

Nosso mercado somente foi aberto outra vez em 1990, no “Plano Color I”, como maneira de incentivar a competitividade externa, em que a ideia era qualificar a mão de obra, aumentar a produtividade e trazer novas tecnologias para nossa indústria.

Foram cinquenta anos de atrasos e mercado fechados, sem contar todos os problemas trazidos pela ditadura civil-militar. Em termos de globalização, seguimos engatinhando, perdidos, ainda buscando nossa vocação, apesar de sermos a sétima economia mundial.

O empreendedor que está lançando sua startup hoje muito provavelmente não vai se lembrar de como ficamos atrasados em relação aos equipamentos de informática e eletrônicos em geral. Também não vai levar em consideração que o sistema que controla a exportação e importação do Brasil, o sicomex, tem pouco mais de 20 anos, ou seja, ainda é muito recente quando comparado a outros países.

O objetivo desse artigo não é entrar na polêmica sobre copycats mas sim chamar a atenção para os efeitos gerados dessa política protecionista no país, das quais destaco:

- Foco exagerado no mercado nacional;
- Sucateamento da indústria nacional;
- Poucos cases de sucesso internacional;
- Distanciamento do mercado mundial;
- Cultura fechada;
- Dificuldade com línguas estrangeiras;
- Baixíssimo índice de inovação;

Seguramente muitos outros efeitos são sentidos e sofremos essas consequências sem perceber. Não quero incentivar a ideia que aqui não tem jeito e que devemos desistir do Brasil. Somos ainda um país jovem, talvez tenhamos ficado de fora do mercado internacional tempo demais, mas outros países também ficaram, como a China e hoje são super potencias.

Nesse cenário de crise que estamos vivenciando se faz necessária uma mudança urgente na maneira de pensar dos novos empreendedores, principalmente daqueles que estão inovando através das startups. O objetivo não deve ser local, lançando empresas apenas para o Brasil, mas mudar o foco para o mundo, dado que a única barreira que existe na grande maioria dos projetos é a do mindset do próprio empreendedor.

P.s.: Se você ainda não sabe o que é copycat e sua polêmica sugiro esse artigo que explica bem sobre o tema.

1991 em diante – o desafio de ser global

Os portos brasileiros foram reabertos para o mundo apenas em 1991 com o Plano Color I depois de cerca de 50 anos fechados sob a desculpa de proteger a industria nacional.

Agora em 2015, depois de 25 anos dessa reabertura como estamos no cenário internacional?

Numa pesquisa publicada em janeiro de 2015 pelo Fórum Econômico Mundial o Brasil amarga um último lugar no quesito que mede o percentual de empresários que oferecem produtos ou serviços inovadores num ranking inédito que envolve 44 países. Ficamos atrás de Trinidad e Tobago, Uganda e Jamaica.

Em um outro relatório, o The Global Innovation Index, que analisa os índices de inovação em mais de 140 países aparecemos na 70 posição, onde Suíça, Inglaterra e Suécia apresentam os melhores resultados.

Na minha perspectiva, inovamos pouco porque estamos fechados em nós mesmos, na nossa rotina, e esquecemos do mundo lá fora. Temos grande potencial, somos criativos, mas estamos contentes com pouco.

Anos de protecionismo nos deixou assim, apáticos ao cenário internacional, sempre esperando a ajuda do governo, seja com leis anti-dumping para os produtos altamente competitivos produzidos por outros países, seja através de benefícios fiscais dos mais variados para produtos (teoricamente) fabricados no Brasil.

Basta uma viagem rápida para países fronteiriços para se notar a total escassez de produtos e serviços brasileiros no mercado. Para piorar, a grande maioria dos empreendedores que saem do país para participar de feiras e eventos vão com o pensamento voltado para a importação e não para a internacionalização.

No discurso do empreendedor, a culpa é sempre do governo. Mas a verdade é que existe uma simbiose entre Estado e empresa que boicota o interesse do empreendedor em se arriscar no exterior. Tal qual o pai que com a desculpa de proteger o filho não deixa que este erre e ao errar aprenda.

Mas, incentivos, linhas de créditos, leis anti-dumping sempre acabam e a qualquer momento aparece uma crise a nos chamar de volta à realidade. Quando isso acontece, percebemos como estamos distantes da qualidade produtiva de outros países, como nossos produtos são pouco competitivos e o quão difícil é concorrer no mercado globalizado.

É curioso perceber que uma grande parte dos empresários brasileiros, em geral, têm uma visão errada de si mesmos, acham que não têm condições de desenvolver um projeto internacional, que são pequenos demais, enfim, que não merecem. Mais interessante ainda é escutar gente de diversos países interessados em conhecer novos produtos e serviços brasileiros, mas não encontram.

Temos que mudar essa realidade se realmente desejamos sobreviver às próximas crises. Não é necessário muito, um passo de cada vez, comece participando de eventos em países próximos, faça obstinadamente um curso de língua estrangeira e, o mais importante, comece a se reconhecer como um empreendedor global, aceite o fato de que você merece e que não existe limites para a expansão dos seus negócios, a não ser os limites que você mesmo se impõe.

Espero com esse breve trabalho despertar o seu interesse para a questão da internacionalização e já me coloco à disposição para dúvidas e comentários.

Publicado originalmente em Cultivatech.

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