Planejamento? Não. Planejamento estratégico? É pouco. O planejamento agora é estratégico situacional

O artigo descreve a importância de uma mais atualizada metodologia de planejamento, que abarque as constantes oscilações e variantes no contexto das corporações, sejam instituições públicas ou organizações privadas

Muito já foi estudado, nas cadeiras de qualquer curso de Administração, sobre a importância do planejamento. Aspirantes a administradores já exercitaram inúmeras vezes a execução de um bom planejamento, vendo e revendo conceitos, estudando casos, definindo metas, analisando cenários, propondo ações. A aplicação destes conceitos é o mínimo que se espera na vida prática das empresas e instituições das mais diversas. Não cabe aqui discutir o quão lamentável seria o descaso pelo tema. É inadmissível que, nos dias de hoje, em vista do arsenal e meios de informações disponíveis, ainda possam existir corporações que prefiram navegar à deriva.

Hoje, saber aonde se quer chegar, verificar ameaças, oportunidades, forças e fraquezas, traçar rotas e detalhá-las em diversos níveis de ações, é o básico do básico para qualquer grupo com interesse comum, que queira sobreviver em sua área de atuação, seja lá o tamanho deste grupo. Se para tudo que se quer alcançar, mesmo como indivíduos que somos, requer-se planejamento, o que dizer de um grupo empresarial ou de uma instituição da personalidade jurídica e porte quaisquer que sejam?

Atualmente a situação se agrava, pois já não basta mais o tradicional e estanque planejamento estratégico. Encher a boca para falar em estratégia, pura e simplesmente, já não traz mais louvor a alguém. Em vista do dinamismo com que a sociedade se transforma, em vista do quão variáveis são as variáveis do contexto que vivemos, sejam elas econômicas, sociais, culturais e políticas, o tradicional planejamento tornou-se obsoleto. Considerar a existência de variáveis, como fatos pontuais, que influenciam alterações de contexto tornou-se pouco. Ter um ponto fixo a perseguir no horizonte tornou-se mais que pouco, tornou-se imprudente. Hoje, faz-se necessário considerar que aquele ponto fixo que definimos com um tanto de romantismo, quando começamos a esboçar nosso planejamento, deve ser mutável, voluntariamente ou não, a nosso gosto ou não. Ser estrategista hoje requer muito mais do que se requeria há alguns anos atrás ou do que se aprendeu nas cadeiras da universidade. Não basta mais “observar as ondas do mercado”, ou da sociedade. O estrategista de hoje deve conhecer a tábua das marés, as fases da lua, e tudo na natureza, mais longínqua, que puder reverberar mais próximo e alterar o ritmo plano e circular das variantes. E estar pronto para mudar o seu ponto no horizonte, e não mais apenas mudar as maneiras de se alcançá-lo – como já era necessário antes.

É disso que trata o Planejamento Estratégico Situacional: posicionar-se nas diferentes situações possíveis que venham a se apresentar. Preparar-se para as hoje corriqueiras oscilações de terreno e para as necessidades - ou obrigações - de se alterar o ponto de chegada. Alterar rotas com vistas a um ponto fixo já é ultrapassado; altera-se também o ponto visado. Outro dos cernes do Planejamento Estratégico Situacional deve ser também a consciência de todos os fatores envolvidos, atores, agrupamentos e a complexa e mutável rede de influências que são exercidas, causas, efeitos, relações, trocas. E, por enfocar as constantes alterações no ambiente e em todos os fatores citados, o Planejamento Estratégico Situacional – PES – requer uma constante, sistêmica e profunda análise, durante todo o seu ciclo de existência. Estrategistas de hoje não guardam seus planos na gaveta após descritos detalhadamente, mas debruçam-se sobre eles o tempo todo, investigando pontos críticos que surgem e propondo adaptações.

O conceito de Planejamento Estratégico Situacional foi inicialmente desenvolvido com aplicação no setor governamental, onde imperam as redes de articulações acima comentadas, e onde estas representam as influências mais aparentes e impactantes. Foi desenhado pelo economista chileno Carlos Matus, ministro do governo de Salvador Allende, com base em sua vivência como consultor do Instituto Latino Americano de Planejamento Econômico e Social, da CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. No entanto, em vista de suas características fundamentais, o PES urge de aplicação também na iniciativa privada. É sabido o quanto os fatores de impacto sociais e políticos – aqueles que muito interferem no âmbito governamental – influenciam também no âmbito das organizações privadas.

Curioso é notar que, normalmente os conceitos da iniciativa privada tentam migrar, mesmo que a duras penas e a passos lentos, para a administração pública. Neste caso bastante peculiar, temos um conceito originário e pensado para o âmbito governamental migrando para a iniciativa privada. Isso se explica pelo quanto as corporações privadas estão suscetíveis de influências dos mais diversos meios, o quanto fatores políticos e macroeconômicos estão oscilantes e causadores de impactos no terreno a ser percorrido, o quanto os conceitos anteriormente inerentes ao âmbito público entremearam-se e ganharam importância no cotidiano das empresas privadas (políticas, redes de articulações e alianças) e o quão vulneráveis as corporações se encontram a estes fatores.

Felizmente, as metodologias evoluem e as informações estão acessíveis nos mais diversos meios. Cabe às corporações, às instituições públicas ou, mais ainda, às organizações privadas - e portanto mais flexíveis, manterem ou desenvolverem o dinamismo o mais condizente possível com o ambiente em que se inserem, aplicando ferramentas atualizadas de gestão situacional.

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