Pirâmides e marketing multinível

Pirâmides, correntes, MMN... As oportunidades para ganhar dinheiro fácil aparecem em cada esquina. Entenda por que, no fim das contas, a realidade pode não ser tão encantadora quanto parece

A maioria de nós já deve ter recebido um e-mail, mensagem em rede social ou talvez até um convite pessoal para participar de alguma espécie de “empresa”, “grupo de trabalho”, “clube de investimentos” ou algum termo parecido, que se baseasse na adesão e no recrutamento de novos membros. Talvez uma lista com nomes de pessoas e respectivos números de contas bancárias, para que o destinatário fizesse pequenos depósitos (de 1 real, por exemplo) para cada componente da lista, depois inserisse o seu nome e espalhasse a mensagem, restando apenas aguardar um retorno muito maior que seu investimento.

Talvez o convite incluísse a compra de um curso, livro, DVD, aparelho para realizar ligações telefônicas, ou o acesso a um site com dicas incríveis sobre marketing e vendas. Ainda assim, haveria a necessidade de comprar o produto e depois vendê-lo a novos compradores, para obter o retorno de seu investimento.

Caso já tenha tido contato com algo do tipo, você conheceu o famoso esquema de pirâmide. A ideia básica é essa: um fundador inventa um produto ou serviço, ou apenas convence algumas pessoas a investirem algum dinheiro, e então passa a ser tarefa desses novos “investidores” recrutar novos membros para desfrutarem do produto, serviço ou para realizarem também investimentos. Cada um desses novos membros, tal qual os anteriores, deverão encontrar outras pessoas para fazerem o mesmo e o esquema segue assim indefinidamente. Como cada investidor dispende uma quantia inicial e recebe quantia correspondente de vários novos membros, o saldo final é positivo. E mais pessoas são convencidas a entrarem no esquema.

Acontece que a Matemática é insensível às nossas ambições: dentro de poucas “gerações” de investidores, os novos membros simplesmente não terão mais para quem vender seu produto. Digamos, por exemplo, que cada membro deva convencer dez novos membros a participarem do negócio a fim de que obtenha lucro. Isso significa que na décima geração de investidores, contada a partir dos primeiros dez que aderiram, a quantidade de novos membros a serem encontrados para sustentarem o esquema é de 10 elevado à décima potência, ou seja, 10 bilhões de pessoas! Como esse número é maior que a população da Terra, mesmo no cenário otimista em que absolutamente todas as pessoas são convencidas a participar, o esquema virá a ruir em pouco tempo e os últimos investidores não conseguirão reaver seu investimento. Esse é o fim inevitável de qualquer sistema de negócios dessa natureza.

Não à toa, é proibido realizar esse tipo de empreendimento no Brasil (e em praticamente todos os países do mundo). A lei número 1.521, de 26 de dezembro de 1951, que trata dos crimes contra a economia popular, dispõe em seu art. 2º, inciso IX, que constitui crime contra a economia popular, punível com 6 meses a 2 anos de detenção, “obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos (“bola de neve”, “cadeias”, “pichardismo” e quaisquer outros equivalentes)”.

Aí é que entra a questão principal: como esses esquemas são proibidos, e como muitas pessoas sabem que as pirâmides são esquemas insustentáveis, fica difícil convencê-las a participarem. A não ser que o esquema seja tão bem disfarçado que os novos membros não percebam que o negócio é equivalente a um esquema de pirâmide.

Algumas táticas usadas para mascarar esse tipo de esquema são:

  • Associar um produto ao esquema: o associado trabalha teoricamente vendendo um produto para outras pessoas, o que é um negócio legítimo. Por exemplo, ao invés de pagar uma “taxa de adesão” de 10 reais, a pessoa “compra um DVD” no valor de 10 reais e depois deve tentar vender mais DVDs para outras pessoas.
  • Apelar à boa-fé: o vendedor diz que realmente o negócio pode não dar retorno para algumas pessoas, mas isso é porque elas não se comprometem a divulgar ao máximo o esquema e atrair novos membros. Se você se comprometer em fazer a divulgação, não sairá perdendo. Na verdade, o que ocorre é que a cada geração de membros será mais difícil recrutar novos, até o ponto em que se tornará insustentável, independente do esforço de divulgação.
  • Testemunhos: não é raro nesse tipo de propaganda a inserção de testemunhos de pessoas que dizem ganhar muito dinheiro participando do negócio. Há um forte apelo à ambição e à ganância das pessoas. Esses testemunhos, quando não são falsos, são de pessoas que estão no “topo da pirâmide”, ou seja, fazem parte das primeiras gerações de membros, que realmente saem lucrando às custas justamente dos membros mais novos.

De fato, muitos ardis são utilizados para disfarçar esses esquemas, porém existem basicamente duas características inequívocas que podem ser observadas em absolutamente todos os esquemas em forma de pirâmide, por mais que estejam disfarçados:

  • Você deve convencer mais pessoas a fazerem o mesmo que você: seja vender um produto, seja doar uma quantia em dinheiro, seja comprar um par de sapatos. Sempre você deverá convencer ou contar com que novas pessoas repitam a ação que você precisou fazer.
  • Quando o esquema for baseado na venda de um produto, ele terá um preço mais alto do que similares no mercado: o lucro dos idealizadores da pirâmide não vêm da venda dos produtos (senão seriam comerciantes comuns), vêm da adesão de novos usuários, mesmo que ela esteja disfarçada. Essa diferença de preço entre o seu produto e os similares é justamente a fonte de lucro ilegal dos idealizadores.

Quando uma dessas características se verificar, é quase certo que você esteja diante de um esquema fraudulento e ilegal. O conselho é jamais aderir a esse tipo de negócio (mesmo que você dê a sorte de estar perto do topo da pirâmide e com isso conseguir lucros, esse ganho é ilegal e cabível inclusive de prisão) e frear na medida do possível sua disseminação, evitando compartilhar mensagens ou encaminhar e-mails ou cartas com esse tipo de conteúdo.

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