Pipas Reais e Virtuais

Lembro-me de quando tinha 10 anos, em Vitória do Espírito Santo, e costumava fazer pipas para soltar na beirada da praia de Camburí. As pipas ganhavam o céu e chamavam a atenção de quem passava. Um dia, um menino se interessou por uma delas e foi então que aprendi a vender. Dia após dia, saía da escola e corria para vendê-las por 2 ou 3 cruzeiros. E vento no litoral é o que não falta. Passados alguns meses, descobri que a uns 2 Km do ponto onde eu ficava havia um adulto que, com muita habilidade, vendia pipas de todas as formas e cores, por apenas 1 cruzeiro a mais que as minhas. As pessoas logo descobririam meu concorrente. Assim, mudei meu modo de atuar e meu irmão passou a ajudar na confecção, em troca de ser meu sócio e obter metade dos lucros. A qualidade melhorou e meu produto era 1 cruzeiro mais barato. Mesmo assim, eu estava perdendo a briga. Voltei para casa chorando e disse a meu pai que iria desistir, pois não poderia concorrer com um adulto. Sentindo pena de mim, meu pai "paitrocinou-me" e ainda me apresentou um amigo que gostava de fazer desenhos do Pernalonga e da Turma da Mônica. A gente levava os papéis, ele desenhava e melhorava o formato das pipas. A aerodinâmica ficava perfeita e as rabiolas eram multicoloridas. Meus olhos de guri ficavam brilhando de emoção ao ver tantas pipas. No fim de semana, vinham os amigos para vendê-las. O lucro do negócio parecia um pontinho perdido no meio do céu azulado. Então passei a vender na minha igreja e na escola para compensar. Qual a criança que não gostaria de ter uma pipa com a cara do Mickey Mouse? A clientela deu uma empinada e o meu produto já era 1 cruzeiro mais caro. Vendíamos acessórios como carreteis de Linha Dez e cerol. Veio até sorveteiro lucrar com a meninada! Passados 16 anos, estou agora fazendo pipas de gente grande, pipas virtuais, que vendo por alguns mil reais. Elas não são vistas no céu azul, mas no ciber-espaço, encantando os atônitos espectadores, figurando como estrelas de uma constelação chamada World Wide Web. A minha missão é levar negócios tradicionais a estrelarem no mundo ponto com. Só seguir o instinto de pipeiro não foi o suficiente. Para vendê-las, tive que formar-me como profissional, especializar-me e tenho que estar informado constantemente, através de lista de discussões, congressos, uma montanha de livros, revistas especializadas etc e etc. Tenho um equipe de vários profissionais. Cobro e sou cobrado, senão volto a vender pipas em Camburí! Quem paga, espera que as pipas voem cada vez mais alto e o investidor que financia não é nem um pouco paternalista. As receitas são controladas, vigiadas, centavo por centavo, nada pode sair do controle. Se conseguirem cortar sua linha com cerol, não haverá contemplações. Você tem que saber, antes do pipeiro do lado, quando os ventos mudam de direção. E os concorrentes? Vamos falar um pouco deles. Será que devemos temer suas enoooorrrrmes pipas capitalizadas e invencíveis? Estamos falando da nova economia! Há os que se dizem especialistas em Internet, mas como ser especialista de algo que está apenas começando? O especialista em Internet está mais para oráculo do que para consultor sabe-tudo. Todos estão aprendendo a fazer a Internet e nem mesmo os "gigantes virtuais" entendem o alcance Web nas vidas dos humanos. A Web costumava nivelar a todos através de uma simples apresentação em um Web site. Os "ratos que rugem" fizeram muito barulho até em Wall Street e a NASDAQ passou a ser a bola da vez. A criança Internet cresceu e agora não troca mais suas barras de ouro por doces. O venture capital é uma promessa apenas para aqueles que apresentam planos de negócios com os pés bem alicerçados. Pipa desnivelada não empina! Fazer um business plan miraculoso, alucinado, é como colocar chumbinhos na rabiola. E quem ganha com a concorrência neste mercado acirrado? Primeiro, o internauta que acaba ganhando mais qualidade na Web; segundo, a própria Web que mudará cada vez mais para um universo quântico, virando de vez lugar comum no cotidiano da humanidade; e terceiro, quem não tem medo de ver o cometa Internet passar, mas está sentado em sua calda e se aventura a cada dia. Há quem diga que não há lugar para tanta pipa. Há quem diga que pipeiro deveria fazer aviõezinhos de isopor e inovar para viver. Há quem diga que 95% dos negócios virtuais são pipas rasgadas e, a maioria, acha que está entre os 5%. Eu digo que é preciso coragem pra enfrentar um céu que muda a cada manhã. Não dá para esperar que bons ventos nos levem: é preciso soprar e ter fôlego. A Rede é um universo novo a se explorar e sempre haverá na humanidade os desbravadores. Os europeus, desbravaram as américas. Os norte-americanos, desbravaram o oeste e os bandeirantes os sertões, em busca do Eldorado. Poucos ficaram ricos e a maioria morreu na miséria. O fruto do pioneirismo destes homens são os países que temos no novo continente. Mas e o meu primeiro negócio? Misteriosamente, meu concorrente resolveu mudar seu ponto. Talvez tenha visto que não se tratava apenas de um moleque, mas de um grupo organizado. Nunca mais o vi! Senti o gosto da vitória, mas surpreendi a todos quando passei o negócio para o filho do desenhista. "Ah, pai, cansei desse negócio de pipa", foi a desculpa que dei a meu pai. A partir daí, passei o restante das tardes a lutar contra monstros virtuais no meu Atari, comprado com o dinheiro das pipas.
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