Para Compreender as Organizações Latino-Americanas

Os programas de pesquisa multiculturais tendem ao provincianismo intelectual quando não questionam o viés cultural de suas próprias categorias analíticas. Ou seja: conceitualmente, de quem é a compreensão do mundo refletida nas comparações entre culturas?

Os programas de pesquisa multiculturais tendem ao provincianismo intelectual quando não questionam o viés cultural de suas próprias categorias analíticas. Ou seja: conceitualmente, de quem é a compreensão do mundo refletida nas comparações entre culturas?

Uma importante questão a ser definida é como entender a diversidade e a multiplicidade do global sem impor sua própria compreensão a priori

. Ou seja, deve-se compreender o mundo do outro em seus próprios termos.

A América Latina é uma área que precisa ser compreendida em sua própria especificidade. É uma área cujas condições exigem narrativas alternativas com diferentes configurações de características, onde é preciso investigar práticas e representações alternativas em situações locais concretas.



Deve-se considerar a articulação conceitual da

hibridização como ponto inicial para a compreensão dinâmica das práticas organizacionais latino-americanas contemporâneas.

As mudanças de época, não necessariamente incontestáveis, deixam claras algumas diferenças entre o mundo (presumido) que as organizações habitaram no passado e o mundo que habitam atualmente.

A tabela a seguir oferece um contraste geral entre o modernismo e o pós-modernismo sob condições de globalização.

Cultura Territorial Moderna
Endógena
Sociedade, Nações
Baseada na Comunidade
Orgânica, Unitária
Autenticidade
Olhar voltado para dentro
Raça
Identidade
Mosaico global

Futura Translocal (Pós) Moderna
Exógena
Diásporas, migração
Redes, Intermediários
Difusa
Translação
Olhar voltado para fora
Mestiçagem
Identificação
Fluxo Corporal no Espaço

Globalização / Transformação
Homogeneização
Ocidentalização
Sincronia Cultural
Humanismo

Globalização / Hibridização
Heterogeneização
Mistura Global
Multiculturalismo
Ciborgues



O conceito de híbrido é desenvolvido como uma estratégia discursiva e metateórica de particular valor para enquadrar a pós-modernidade latino-americana e as formas transacionais contemporâneas dela derivadas.

O discurso da transformaçãopressupõe uma modificação mais ou menos lógica de uma forma já existente. A hibridização, pelo contrário, envolve experiências fragmentárias, mas não totalmente arbitrárias. Essa fragmentação é regulada em parte por sistemas sociais objetivos e em parte por rituais estabelecidos pelos próprios sujeitos.

A transformação pertence ao espaço discursivo do modernismo. O próprio uso do termo tem uma longa genealogia nos estudos organizacionais. Porras e Silver advertem que a transformação organizacional difere do desenvolvimento organizacional, pois promove mudanças paradigmáticas que ajudam a organização a se adaptar melhor ao ambiente atual ou a criar um ambiente futuro mais desejável.

Deve-se considerar que o mundo já não pode mais seguir os pressupostos do modernismos, que não pode manter-se constante e que não existem seres organizacionais onipotentes e oniscientes. O oposto disso pode ser verdadeiro. Na América Latina, o pós-modernismo é um híbrido que aparece em várias manifestações e difere dos conceitos europeus e norte-americanos. Assim, ao invés de transformação, considera-se a hibridização como outro discurso possível para a teorização sobre as organizações latino-americanas.

O caráter heterogêneo das formações sociais e culturais latino-americanas tornou possível a emergência de formas descontínuas, alternativas e híbridas que desafiam a hegemonia do grande épico da modernidade.

Os países latino-americanos são resultado de uma sedimentação, justaposição e cruzamento de tradições indígenas, hispano-coloniais católicas e das ações modernas nas áreas política, educacional e da comunicação. A mestiçagem inter-classes gerou formações híbridas em todos os estratos sociais.

Algumas condições que alimentam o aparecimento desses híbridos:

o crescente papel dos meios de comunicação de massas na determinação do imaginário cultural latino-americano;
a estagnação ou corrupção endêmica dos setores nacionalizados da economia latino-americana;
a conseqüente atração da economia política neoliberal para importantes setores da burguesia e intelectualidade latino-americanas;
as mudanças na própria intelectualidade em suas relações com o estado e os organismos transnacionais.

A partir disso, emergiram outras condições bastante inesperadas. Por exemplo, a presumida relação positiva entre democratização política e modernização econômica nem sempre se materializou, e em vários casos resultou em uma relação inversa.

O conceito de hibridização pode proporcionar um espaço teórico melhor para a representação das mudanças organizacionais na América Latina.

Alguns estudos de profundidade sobre várias inovações organizacionais na América Latina revelaram que as inovações bem-sucedidas consideradas ilustram uma multiplicidade de estruturas organizacionais e estratégias administrativas que são profundamente ligadas à cultura. É evidente que as organizações não estão simplesmente trocando as formas tradicionais pelas modernas, e que existe pouca evidência para apoiar a idéia de que a região é basicamente uma retardatária que cedo ou tarde experimentará os mesmos estados evolutivos do Norte.

Cada empresa latino-americana é uma mistura muito particular de práticas administrativas modernas e tradicionais; de administração profissional e características de empresas familiares; de tecnologia de ponta e relações de clientelismo e de avançadas práticas de gestão de recursos humanos e paternalismo.


Bibliografia:

CALÁS, Marta B. e ARIAS, Maria Eugenia. Compreendendo as organizações latino-americanas: transformação ou hibridização? In: MOTTA, Fernando C. Prestes e CALDAS, Miguel. Cultura organizacional e cultura brasileira. São Paulo: Atlas, 1997.

Porras, J. & Silvers, R. Organizational development and transformation. Annual Review of Psychology, 1991.


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