Ovelha não é pra mato

O artigo trata da incompetência das pessoas "irresponsáveis" pelos eventos esportivos que o Brasil terá pela frente.

No Rio Grande do Sul tradicional estado criador de ovelhas, há um ditado que diz "ovelha não é pra mato", que significa dizer que se a ovelha for colocadas no mato e não no campo, com espaço plano para pastar ela não se dará bem e provavelmente morrerá de fome, pois ela não nasceu para ser criada fora desse ambiente, portanto, está completamente fora de seu habitat. Ela não sabe viver no mato e sequer sabe o que está fazendo lá, pois, seu lugar não é.

É exatamente isso que está acontecendo com a "ingestão" da copa do mundo de futebol que se aproxima - na verdade 2014 é amanhã. "Ingestão" para aludir o ilustre ministro Magri, do presidente Fernando Collor quando disse que as coisas que lhe interessavam naquele momento eram "imexíveis". Assim, o que acontece nas coisas da copa nas cidades e estados sede é a "ingestão", "agestão" ou para simplificar, a total falta de gestão profissional e demonstração inequívoca de como as coisas não devem ser conduzidas. Cabe até mesmo perguntar aos responsáveis (melhor dizer irresponsáveis?): vocês sabem o que é gestão, pois "ingestão" já vimos que dominam como poucos. Outra pergunta que colocou a ovelha no mato deveria fazer é: você sabe fazer o que deverá ser feito?

O Projeto COPA 2014 contempla 26 programas do caderno de encargos firmado com a FIFA e que devem ser implantados pela autoridade pública de cada estado-cidade-sede de controle do projeto - controle?

Em geral as cidades sede (em alguns casos com a participação dos respectivos estados) criaram agências ou secretarias especiais para tratar do assunto COPA, identificando oportunidade política e financeira considerando os polpudos recursos envolvidos.

O que acontece é que os (ir)responsáveis por esses órgãos criados são eminentemente políticos sem nenhum conhecimento nem experiência sobre o assunto e não raro, entendimento sequer conhece a envergadura do projeto e de suas necessidades, que aliás são enormes.

Some-se a isso que os servidores dessas estruturas igualmente não conhecem o assunto e não tem sequer entendimento de gerenciamento de projetos, gerenciamento de riscos, cronogramas, integração de projetos, portfólio e sistemas, fruto de suas ações no serviço público que sempre atuou dessa forma.

Além disso, temos a falta de compromisso com resultados versos a presença de interesses pessoais, pois como já disse, o Estado sempre atuou dessa forma. O que não perceberam é que a tradicional inércia do poder público em geral sofre adiamentos, aditamentos e prorrogações de prazos, cronograma e recursos, todavia no caso em questão, prazos são imutáveis, pois a abertura da Copa das Confederações, evento preparatório para a Copa de 2014 que igualmente tem data e hora para começar e encerrar.

Há a necessidade imediata de se profissionalizar o grupo de trabalho que está cuidando do assunto, que esteja focado em resultados, metas e cronograma, seguindo à risca o que está contratado e firmado junto ao comitê organizador da Copa no Brasil. Afinal, não está claro que não há nenhuma possibilidade de isso acontecer com o status de pessoas que está envolvida com o assunto?

Os riscos são enormes e os reflexos políticos maiores ainda. Temos que lembrar que no próximo ano teremos eleições para prefeitos e esse tema será motivo muito explorado por ambas as partes envolvidas, paralisando ainda mais o processo de decisão e o jogo de empurra-empurra como também ataques e defesas que invariavelmente levarão à estagnação de diversas ações.

Nesse quesito corre-se risco ainda maior se os responsáveis forem candidatos a vereadores ou prefeitos, pois como sempre acontece, indicam seus substitutos que nada fazem senão – usando o próprio jargão do futebol - "cumprir tabela", ou seja, a tragédia se aproxima numa velocidade supersônica enquanto que as providências se movem na velocidade de um caramujo aleijado.

Uma gestão profissional, subordinada às agências ou secretarias é uma atitude responsável por parte das autoridades diante da irresponsabilidade com que as coisas estão sendo tratadas. Não se está propondo a extinção desses órgãos públicos criados, mas que façam a parte política do processo e deixem na mão de profissionais o que profissionais fazem e de políticos o que estes sabem fazer.

Enquanto a maioria fala apenas de estádios os outros 25 programas estão sendo deixados de lado e podem gerar muito mais benefícios às cidades sede, como exemplo investimentos em turismo, mas não só no lugar comum que todos comentam como treinamento (que apesar de comentarem nada está em curso de maneira profissional e dificilmente trará resultados), mas em artesanato e desenvolvimento de novas oportunidades e empreendimentos. O fortalecimento desse setor trará frutos pós-copa importantíssimos para os estados, isso sem falar na infraestrutura e transportes é claro – pelo menos esses, como giram com grandes volumes de recursos estão sendo olhados, apesar de igualmente estarem em passo lento.

O pior é que diversas consultorias nacionais e internacionais tem sido contratadas para ajudar, porém nos casos conhecidos os recursos aplicados foram grandes e os resultados gerados por consultores trainee tão sensacionais quanto uma descrição dos itens que contém uma cozinha, depois de seis meses de análise da cozinha.

Ainda assim, o ideal é contratar uma instituição privada que tenha agilidade e velocidades para trabalhar e com profissionais do ramo. Ora, velocidade e agilidade é característica de qualquer órgão público que seja? O problema da falta de profissionalismo é tão grave que os organismos criados nem fiscalizar e cobrar sabem. O que comprova o velho ditado gaúcho: ovelha não é pra mato.

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