Quando escrito em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade.

John F. Kennedy

De uns tempos para cá, parece que a palavra que está na moda é crise. Como se não bastasse a conjuntura sociopolítica e econômica do país e do mundo, dissemina-se a ideia de que também as instituições, as relações, os papéis sociais estão em crise. Decorrência disso é a insatisfação geral que se constata tanto na mídia tradicional quanto nas redes sociais. Nas conversas mais corriqueiras e prosaicas, o tom de queixa é uma tendência que parece não irá se esgotar tão cedo. É a corrupção, os impostos, a escassez de dinheiro, de tempo, de paciência, é o excesso de compromissos, de contas, de tarefas.

Sempre que estou em um lugar público, e que a situação permite, procuro escutar o que as pessoas dizem e observar como se comportam: desconhecidos que transitam conversando pelas ruas, pessoas em filas de banco ou em salas de espera, por exemplo. É uma atitude deliberada minha, pois gosto de ouvir e imaginar depois como aquilo que aconteceu se encaixa na vida daquela pessoa. É um dos tantos exercícios solitários que pessoas introspectivas como eu podem fazer.

E ouvindo e observando conversas ultimamente, percebo que, de um modo geral, a crise está sempre fora do alcance do indivíduo, ou seja, as pessoas se queixam de diferentes situações como se não participassem delas de outra forma além de sofrer suas consequências. Parece que, sem perceber e com o pretexto da crise, as pessoas estão adotando um discurso de vitimização generalizado. Em síntese, a conjuntura está tão complicada que se tem a impressão de que não há nada que se possa fazer.

Mas como é possível que toda essa crise (e não estou negando sua existência) esteja no mundo e não esteja nas pessoas? Quando pergunto para alguém, para além da pergunta retórica, sobre como ela está, nunca ouço “estou insatisfeito”, “estou em crise”. É mesmo possível que o mundo ao redor esteja um caos e cada um de nós se sinta bem e feliz consigo mesmo? Parece-me que não! Porém, são poucos os adultos que conseguem admitir uma crise pessoal. Mas por quê?

Lembro que, quando tinha em torno de 10 anos, tudo o que eu queria era crescer de uma vez. Contava então os meses para cada aniversário, que era encarado como mais uma etapa vencida rumo a meu objetivo principal: tornar-me adulta! Pensava que, como de fato ocorre, um adulto é completamente responsável por sua vida, por suas escolhas e, algumas vezes, pela vida de outros. O tempo foi passando, cresci, já vivi boa parte da vida (estou na chamada meia idade) e por isso já posso fazer minhas considerações a respeito do estilo de vida que os adultos em geral levam.

Um aspecto que nossa sociedade preza muito é a escolha da profissão. Desde muito cedo, somos instigados sobre isso. “O que você vai ser quando crescer?” é uma pergunta a que submetemos crianças muito pequenas. Mesmo quando ainda não entendem a pergunta, pais e familiares já arriscam previsões sobre o assunto. Desde os primeiros anos, as crianças são provocadas a se prepararem para esta que é considerada a grande decisão da vida.

Na maior parte dos casos, é durante a adolescência que o indivíduo tem de escolher sua profissão ou é levado por algumas circunstâncias a ter determinado emprego/trabalho. Seria muito natural que uma decisão precoce fosse mal feita, considerando-se principalmente inexperiência típica da idade. Entretanto, curiosamente, a grande maioria das pessoas mantém para o resto da vida a escolha feita na juventude, e passa a moldar toda a sua vida em função dessa escolha. Curiosamente estão todos certos!

Ao longo da vida adulta, estão todos então muito atribulados em realizar tudo que a vida em torno determinada profissão (seja qual for) requer: é preciso trabalhar, estudar, criar os filhos, cuidar da casa, viajar, além de desenvolver outros projetos e gerir a vida. Para manterem a “coerência”, para passarem a impressão de que estão e sempre estiveram certos, muitos se mostram satisfeitos, apesar de viverem sufocados pelo trabalho, total ou parcialmente escravizados. Os custos são altos. Quase ninguém, entretanto, consegue perceber que algo está errado. Quase ninguém consegue identificar que está em crise. Quase ninguém consegue reconhecer que está no lugar errado. Quase ninguém consegue admitir que não sabe qual é o seu lugar, o seu propósito de vida, o seu sonho. Então se abandona a possibilidade de sonhar a vida para manter a realidade de custear a vida, tolerando um dia após o outro.

Quais são as consequências de não se encarar uma crise pessoal? Ah, esse seria assunto para um tratado! Dos problemas físicos aos emocionais, os resultados podem ser devastadores não só para o indivíduo, mas para a família, os amigos e até mesmo colegas de trabalho. Tomado pela inércia, ele permanece nesse cenário de insatisfação por anos e anos ou até mesmo por uma vida inteira, priorizando a segurança de uma vida conhecida e abrindo mão de concretizar uma vida sonhada.

Outras pessoas, porém, não hesitam em reconhecer quando entendem que a vida não está de acordo com suas aspirações e valores. E algumas delas têm a coragem não só de demonstrar essa insatisfação como de agir para mudar tudo o que for preciso, mesmo sendo rotulados como malucos ou inconsequentes.

Para ambos os grupos, vale lembrar que nenhuma crise, seja institucional ou pessoal, é eterna. Momentos críticos requerem atitudes, requerem mudanças, e a primeira e mais importante é a mudança do indivíduo.

Lembro de certa vez, ter conhecido uma moça que experimentava um momento desses. Depois de muitos anos de estudos sustentada por uma família de poucas posses, logo nos primeiros meses de trabalho percebe que escolheu mal sua profissão. O primeiro estágio foi a negação (pensava que estava se adaptando à nova realidade) o segundo estágio foi a depressão (pensava que tinha afinal jogado a oportunidade de sua vida fora, que agora estaria presa pelo resto da vida a algo que detestava). Quando resolveu (com o apoio da família) agir para mudar sua vida, impôs-se antes um ritual: arranjou uma caixa grande da cor cinza e nela foi colocando, ao longo de vários dias, objetos e textos que escreveu e que se relacionavam com tudo o que julgava que estava errado e que deveria ser mudado. Quando achou que já estava tudo lá dentro, levou a caixa para um lugar distante e colocou tudo fora. Retornando a sua casa, providenciou uma outra caixa, agora colorida, para colocar ali referências aos sonhos que tinha, colecionando coisas que a motivariam a prosseguir. Se ela conseguiu o que queria, eu não sei, mas considero a simbologia do movimento mais importante que o resultado.

A palavra chave aqui me parece ser diagnóstico: Sua vida é saudável? Sua vida é como você quer? Seu trabalho lhe satisfaz plenamente? Você é quem você imaginava que seria? Existem grandes obstáculos que se colocam contra seus sonhos? Se as respostas forem negativas, em nome de sua saúde física e emocional, é hora de diagnosticar e agir para empreender a própria vida: tornando aquilo que é sonhado em uma realidade.

Por LILIANE PRESTES RODRIGUES - Diretora do Blog Mulheres Empreendedoras do Sul