Os benefícios do ensino de linguagem de programação no currículo regular

Resumo: Mesmo que o estudante não se torne um profissional da área de tecnologia, ele será beneficiado pelo desenvolvimento do raciocínio lógico e das demais habilidades citadas no texto, entre tantas outras. Dessa forma, se tornará um cidadão mais consciente e preparado para os desafios, os problemas e a complexidade do mundo atual

Até a década de 80, os computadores eram máquinas de uso corporativo e por isso, a programação de sistemas e aplicativos voltavam-se mais às necessidades corporativas e profissionais. O computador e os seus aplicativos não estavam presentes no cotidiano das pessoas.

Essa realidade sofreu uma drástica mudança a partir da década de 80, com o surgimento e a popularização dos computadores pessoais (PC). E aprofundou-se ainda mais com os smartphones e demais equipamentos tecnológicos (tablets, notebooks, etc.). Atualmente, vivemos em um mundo onde a tecnologia permeia o nosso cotidiano. Onde praticamente toda pessoa, mesmo com uma renda familiar mínima, possui um smartphone, que no fundo nada mais é do que um computador com capacidade de telefonia. Uma maioria expressiva da população está conectada nessa imensa rede mundial chamada internet, onde armazenamos e publicamos grande parte do que produzimos, observamos, conhecemos, sentimos e pensamos.

Com isso, torna-se cada vez mais necessária a criação de aplicativos que atendam as necessidades e as expectativas dos mais diversos aspectos da nossa vida profissional e, principalmente, pessoal. Além disso, com o aumento da capacidade computacional, tornou-se possível criar aplicativos antes inimagináveis. Hoje, um simples smartphone possui uma capacidade de processamento milhares de vezes maior do que os primeiros computadores da década de 40, como o ENIAC[1], e mesmo os da década de 70, como o computador de navegação da Apollo 11[2], responsável pela façanha de levar o homem à Lua.

Nessa nova realidade, começamos a nos atentar para o elo humano dessa cadeia, que geralmente passava despercebido: os programadores! Sem eles, os smartphones e tablets não têm utilidade. São os programadores que codificam e produzem os sistemas e os aplicativos que utilizamos diariamente e que se tornaram imprescindíveis em nossas vidas.

Com as novas tecnologias, a necessidade de programadores tornou-se maior e a possibilidade de criar novos aplicativos também. Não há como falar em desenvolvimento tecnológico e econômico de uma nação sem abordar a criação de uma força de trabalho dedicada à programação. Mas como suprir essa demanda? É preciso ser gênio para aprender programação de computadores e entrar no maravilhoso mundo da criação de aplicativos, seja como profissional ou simplesmente como um hobby, um passatempo, uma atividade secundária?

Aqui vai uma boa notícia: para aprender programação, seja qual for a linguagem, não é necessário ser um gênio ou ter uma inteligência acima da média. Basta ter vontade de aprender, dedicação, persistência e desenvolver o mínimo de raciocínio lógico, que é a capacidade de pensar de forma estruturada diante de um problema ou situação, reduzindo-o a situações menores que se encadeiam numa sequência lógica e coerente. Aliás, aprender programação estimula o desenvolvimento do raciocínio lógico[3], aprimorando a nossa capacidade de resolver problemas.

Quais são os benefícios do aprendizado de uma linguagem de programação? Além do desenvolvimento do raciocínio lógico, a programação ensina fortes noções de causalidade (causa e efeito), uma vez que toda instrução em um programa se traduz em um resultado imediato e que impacta a sequência das próximas ações e o resultado final, e desenvolve a capacidade de concentração. Programar um aplicativo ou um sistema exige foco, disciplina, capacidade de análise da situação e desenvolvimento de soluções, criatividade e capacidade de antever as consequências lógicas das instruções que estão sendo dadas ao computador. Portanto, mesmo que o estudante não se torne um profissional da área de tecnologia, ele será beneficiado pelo desenvolvimento do raciocínio lógico e das demais habilidades citadas nesse parágrafo, entre tantas outras. Dessa forma, se tornará um cidadão mais consciente e preparado para os desafios, os problemas e a complexidade do mundo atual.

Muitos especialistas, inclusive, equiparam o conhecimento de uma linguagem de programação à habilidade de comunicação em outros idiomas. Quem aprende outro idioma amplia a sua capacidade de comunicação e a sua visão de mundo, pois consegue ter contato com culturas, valores, formas de pensar e cenários diferentes. Da mesma forma, o aprendizado e a utilização de uma linguagem de programação permite-nos entender o funcionamento do computador e das tecnologias em geral, fazendo com que a sua utilização seja natural e que consigamos extrair o máximo do seu potencial e dos seus benefícios. Para muitos educadores, a programação será uma das habilidades mais importantes do futuro, equiparando-se em importância e utilidade ao aprendizado dos idiomas (inglês, espanhol, alemão, italiano, etc.), e um fator de diferenciação profissional e acadêmica.

Há um intenso debate nos meios educacionais dos Estados Unidos se o ensino da programação deve ser considerado uma nova alfabetização para as crianças[4]. O governo americano, de forma oficial[5], está estimulando fortemente o ensino de tecnologia para os estudantes. O objetivo não é apenas permitir que os estudantes desenvolvam as habilidades descritas nesse artigo, mas também suprir a demanda de programadores no mercado de trabalho americano. Os americanos, melhores do que ninguém, compreenderam a importância da tecnologia para o crescimento econômico, cultural, social e intelectual do país. No mundo todo[6] faltam profissionais de tecnologia. E o Brasil não é uma exceção[7]. Pena que ainda estamos tão atrasados nessa discussão, pois o governo brasileiro, em todas as suas esferas (municipal, estadual e federal), não consegue fazer nem o básico em matéria de educação. Temos uma das piores posições no Pisa[8] (Programme for International Student Assessment – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), uma iniciativa da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de avaliação comparada do conhecimento de jovens do ensino médio, na faixa de 15 anos, em leitura, matemática e ciências.

Ora, com a falta de profissionais de tecnologia e a programação sendo uma disciplina tão facilmente ensinável, por que não incluí-la no currículo regular do ensino médio ou mesmo no fundamental? Esta questão e as suas reflexões parecem escapar aos educadores e formuladores de políticas educacionais do Brasil. Não há nenhuma atitude concreta nessa direção, nem mesmo um projeto piloto para testar e mensurar os resultados na prática, salvo pequenas iniciativas no ensino particular, que mesmo assim muitas vezes tratam o ensino de programação e tecnologia em geral mais como um diferencial mercadológico do que propriamente uma disciplina fundamental para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e das habilidades das crianças e adolescentes. Não estamos falando de ensinar apenas a informática básica, que querendo ou não, todos acabarão usando, mas de produzir conteúdo tecnológico e conhecimento para uso em todas as áreas da vida.

Ensinar programação nas fases iniciais de formação ajudará o desenvolvimento das crianças e adolescentes, aumentará a empregabilidade delas, ou seja, dará mais condições para que elas se insiram no mercado de trabalho, e estimulará o preenchimento das vagas no setor de tecnologia, criando uma força profissional altamente qualificada que permitirá o desenvolvimento tecnológico, econômico e social do Brasil.

Enquanto o poder público dorme em sua letargia e inércia, as organizações do terceiro setor podem ter um papel importante no preenchimento dessa falha no currículo do ensino público e no aumento da empregabilidade dos jovens[9]/[10]. Existem organizações que ensinam tecnologia aos seus beneficiados, tornando-os mais aptos para ingressar no mercado de trabalho, não somente na área de tecnologia, mas em outros empregos e áreas, onde com certeza precisarão usar os computadores e a internet. Além disso, disseminando os conhecimentos de tecnologia, ajudam a diminuir a distância de conhecimento e oportunidades existente entre os jovens das diversas faixas de renda familiar, permitindo a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada por meio da educação, e não apenas por meio de iniciativas de transferência direta de renda. Esta, para o país e os seus habitantes, é uma solução paliativa, enquanto a educação é a solução definitiva e permanente!

Se você, caro leitor, tem influência ou voz em instituições de ensino públicas ou particular, seja como administrador, funcionário ou cliente, pense bastante a respeito desse assunto. Além de exigir qualidade no ensino regular, considere a possibilidade de exigir o ensino de programação como parte do currículo básico regular. Se não tem, além de continuar exigindo qualidade no ensino regular das escolas públicas e privadas, considere ajudar uma organização do terceiro setor que ensine programação aos seus beneficiados. As crianças e o país agradecem!

[1] https://en.wikipedia.org/wiki/ENIAC

[2] http://www.thedailycrate.com/2014/02/01/geek-tech-apollo-guidance-computer-vs-iphone-5s/

[3] http://blog.teamtreehouse.com/can-computer-programming-boost-brain-power

[4] http://edutopia.org/literacy-computer-programming

[5] http://www.engadget.com/2015/03/09/obama-techhire

[6] http://www.usnews.com/opinion/articles/2014/09/15/the-stem-worker-shortage-is-real

[7] http://sindpd.org.br/sindpd/noticia.jsp?Falta-de-profissionais-ameaca-projetos-em-TI&id=1397740311396

[8] http://portal.inep.gov.br/pisa-programa-internacional-de-avaliacao-de-alunos

[9] http://mmterceirosetor.com.br/as-organizacoes-do-terceiro-setor-para-que-servem-o-que-fazem/

[10] http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/154/artigo234713-1.asp

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