Office Uprising: os zumbis corporativos
Office Uprising: os zumbis corporativos

Office Uprising: os zumbis corporativos

Office Uprising não é vazio de pertinentes observações sobre o ambiente de trabalho e a vida corporativa, que vai além da óbvia analogia que coloca os zumbis como uma representação da preguiça dentro do ambiente corporativo

Poucos gêneros cinematográficos combinam tanto com o mundo corporativo como a comédia. Seja o humor escrachado ou apenas implícito, as produções cômicas parecem sempre capturar as peculiaridades do ambiente corporativo em sua essência. Aqui mesmo no Portal Administradores eu já discorri sobre algumas comédias que brincam de maneira inspirada com o mundo dos negócios e todos os absurdos que o rodeiam, como a divertida Bloodsucking Bastards; a excepcional Como Enlouquecer seu Chefe (Office Space), e as superproduções O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) e A Grande Aposta (The Big Short), filmes que apesar de sua natureza realista, são em seu âmago comédias de humor inteligente e baseado em fatos reais.

Habitando o estilo de humor dos dois primeiros filmes citados acima, está este Office Uprising (EUA, 2018), que assim como Bloodsucking Bastards, consiste em uma comédia de horror, que troca os vampiros do escritório pelos zumbis corporativos. O filme mantém um saudável equilíbrio entre a comédia e a violência, graças principalmente à trama direta e sólida. Dirigido pelo experiente dublê Lin Oeding, que aqui faz sua estreia como diretor de longas, O filme é repleto de boas gargalhadas e sequências de ação até que bastante inspiradas para um comédia, valorizadas por um elenco jovem e carismático.

Desmond (Brenton Thwaites, o Robin da nova série da DC, Titãs), é um folgadão que trabalha na Ammotech, uma empresa fabricante de armas de fogo. Desmond não é muito chegado em trabalho pesado, e passa os dias enrolando no escritório, até que ele descobre que seus colegas de trabalho se transformaram em raivosos zumbis, após consumir uma bebida energética adulterada. Agora, ele precisa resgatar seu grande amor, Samantha (Jane Levy, de O Homem nas Trevas), antes que seja tarde demais.

Apesar da premissa escrachada, Office Uprising não é vazio de pertinentes observações sobre o ambiente de trabalho e a vida corporativa, que vai além da óbvia analogia que coloca os zumbis como uma representação da preguiça dentro do ambiente corporativo. O protagonista Desmond, por exemplo, não tem consigo a habilidade da auto-observação, o que afeta sua vida profissional e sua própria existência como pessoa. De maneira similar à ótima comédia de horror Zumbilândia (Zombieland, 2009), Office Uprising apresenta um guia animado de "Como Sobreviver a um dia na Ammotech", o qual Desmond eventualmente utiliza para sobreviver aos 92 minutos de filme.

Os colegas de Desmond, interpretados pelos ótimos Karan Soni (da franquia Deadpool) e Kurt Fuller (Tratamento de Choque, Os Caça-Fantasmas), fornecem os elementos cômicos em áreas onde o personagem de Desmond deixa a desejar, e o interesse romântico do protagonista, interpretada pela bela Jane Levy, funciona como seu novo e definitivo objetivo, que desperta em Desmond o que ele tem de melhor. Ela é sua motivação. Levy está ótima aqui, mais uma vez, e sua personagem carrega um perfeito equilíbrio entre charme e loucura, uma vez que as coisas no escritório se transformam em um pandemônio. Mas é o antagonista Adam Nusbaum (Zachary Levi, do vindouro Shazam!), o dono do filme. Sua performance como o enlouquecido gerente psicopata faz com que o público torça para o vilão. Mesmo transformado em um zumbi, ele continua a utilizar um hilariante linguajar corporativo.

A epidemia zumbi fica contida ao edifício onde se localiza a Ammotech, o que faz com que os personagens centrais lutem ao longo do filme para encontrar uma saída do local. Os vários departamentos da empresa servem como diferentes ambientes e desafios para os personagens, e tal formato mantém o filme cativante e nada repetitivo. Pessoalmente, uma das minhas cenas favoritas acontece no departamento de Recursos Humanos (tinha que ser!), onde um grupo de mulheres espancam butalmente um dos funcionários. Após o golpe final, a gerente da seção olha para suas companheiras e anuncia: "Ok, é por isso que nós não enviamos e-mails corporativos com emoticons!"

Acompanhando os brutais eventos que ocorrem dentro da Ammotech, Office Uprising estabelece um terceiro ato bastante satisfatório.

O desenvolvimento dos personagens é forte e bem escrito, e o filme ainda apresenta algumas surpresas em suas sequências finais. O roteiro do estreante Peter Gamble e Ian Shorr (do terror Espinhos, 2008), aborda os estereótipos do ambiente corporativo de maneira semelhante aos pesadões Mayhem (2016) e The Belko Experiment (2017), filmes sobre os quais ainda pretendo escrever aqui para o Portal Administradores. A diferença é que Office Uprising valoriza mais seus elementos cômicos do que os filmes citados, ainda que assim como seus pares, também pegue um tanto pesado na violência.

Office Uprising ainda apresenta um interessante comentário sobre a violência, algo que nós aqui no Brasil conhecemos muito bem, infelizmente. Ainda que o tom seja de paródia, a sequência de abertura, concebida como se fosse um comercial da Ammotech, mostra o presidente da empresa expressando os benefícios do uso de artilharia pesada para o bem da "segurança" do povo americano.

O comercial ilustra o uso de um lança-chamas queimando um soldado inimigo, e ironicamente, a artilharia pesada é a única maneira com que os não-infectados podem se defender da horda de zumbis, mesmo com o presidente apelando para Desmond utilizando-se de um diálogo hilário, permeado por frases como "Esta é uma companhia de fabricação de armas, não há lugar para a violência aqui".
Office Uprising definitivamente garante um lugarzinho na galeria das boas comédias do Business Cinema, com suas tiradas espertas e violência exagerada. Mais importante, Office Uprising é um filme guiado por seus bons personagens e suas motivações, e com certeza fará você pensar duas vezes antes de tomar o seu próximo energético no ambiente de trabalho.

Office Uprising está disponível através de sistemas de streaming e VOD.

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    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic

    Eduardo Kacic é bacharel em administração com mais de 15 anos de experiência no mundo corporativo, até que decidiu se aventurar por sua paixão: O cinema. Hoje ele é roteirista de longa-metragens, crítico de cinema, palestrante e tradutor cinematográfico. É colunista de cinema no portal do jornalista Luiz Andreoli e agora também veste a camisa do Portal Administradores.

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