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O talentoso Ripley

Títulos pomposos, currículos maquiados, diplomas comprados: o comportamento de alguns executivos lembra o famoso impostor criado por Patricia Highsmith

Títulos pomposos, currículos maquiados, diplomas comprados: o comportamento de alguns executivos lembra o famoso impostor criado por Patricia Highsmith


Thomas Phelps Ripley esteve várias vezes nas telas, interpretado por Matt Demon, Alain Delon e Denis Hopper. Mas Mr. Ripley é originalmente uma criação literária da texana Patricia Highsmith. Isento de culpa e livre de considerações morais, sua principal competência é a rapidez para sair de situações complicadas. Mr. Ripley é um impostor: troca de identidade como quem muda de roupa. Sua crônica falta de personalidade e consistência é compensada por um agudo senso de cena e um talento nato para a falsificação.

Mas nem todos têm o talento de Mr. Ripley. James R. Baughman, por exemplo, foi contratado pela Lucent para ocupar uma diretoria. O nome era verdadeiro, mas em seu currículo havia um Ph.D falso. O impostor acabou descoberto e o estranho caso de reinvenção pessoal terminou em demissão. Evento isolado? Certamente não. Como se verá nos parágrafos seguintes, o mundo corporativo parece estar institucionalizando práticas heterodoxas, como aquelas adotadas por Mr. Ripley. Iniciaremos pelo comércio de teses e diplomas; depois falaremos da maquiagem de currículos e do fenômeno dos títulos inflados de cargos.

Supermercado das teses acadêmicas, estampava a manchete do Jornal do Brasil enviado pelo amigo Julio. Em reportagem de página inteira, Luciana Cabral desvenda uma estranha forma de comércio. Fato novo? De forma alguma. Há décadas, estudantes universitários engordam seu orçamento produzindo pesquisas para colegiais com pouco talento e algum dinheiro. A novidade é a Internet, que dinamizou a atividade. O que antes era tratado com discrição, hoje é prática aberta. Crime de falsidade ideológica? Certo. Mas quem se importa com coisa tão pequena? Em tempos de culto ao mercado, a oferta e a demanda se encontram. Para os empresários do ramo é um negócio como outro qualquer; para seus consumidores, é uma saída para se livrar de trabalhos incômodos. Serei cliente de carteirinha!, dispara Flavia, estudante de direito.

Mas, e quem não quiser nem mesmo fazer um curso normal, destes que envolvem aulas, estudos exames? Também neste caso parece não haver nada a temer, que o sábio mercado se encarregou de achar uma solução. Aqui também não há novidade. Nos anos setenta, o destino de quem queria um diploma fácil de advocacia era o Sul de Minas. Nos anos setenta, quem não conseguia coisa melhor, sempre podia fazer um curso de engenharia em Mogi das Cruzes. Hoje, o passaporte falso para o futuro são os cursos de administração. Sintoma e causa, as faculdades e os MBAs se multiplicam com taxas invejáveis.

Porém, se a ambição for maior, também é possível conseguir um Ph.D. de uma universidade estrangeira. Desta vez a notícia é do New York Times: na Irlanda, o University Degree Program garante um diploma sem textos, aulas, livros ou exames! Educação paranormal? Telepatia? Nada disso. Basta ao candidato pagar uma taxa, especificar o diploma desejado e confirmar, em entrevista telefônica, que tem uma experiência de vida compatível com o título. Uma menção summa cum laude pode ser adicionada sem acréscimo no preço. Segundo seus diretores, o programa começou há quase vinte anos e nunca houve um cliente insatisfeito!

Mas para os candidatos a executivo Ripley, a saga não para na formação universitária. O caso do Diretor da Lucent pode ser extremo, mas a maquiagem de currículo é prática corrente entre executivos. Basta seguir as dicas dos cadernos de emprego de domingo ou dos especialistas em outplacement: entre suas realizações, coloque sem pudor tudo que você fez, pensou em fazer ou algum colega fez; multiplique todos os valores por 10 e converta em dólares; transforme visitas a empresas no exterior em projetos de transferência de tecnologia. Então leia novamente seu currículo? Reconheceu-se? Não? Perfeito!

Chegamos aqui a última parada do executivo Ripley: o importantíssimo título do cargo. Nos anos 80, os executivos mais ambiciosos queriam ser gerentes antes de completar 30 anos. Hoje, trainees ainda em fase de aleitamento já querem gerenciar equipes. A experiência é rarefeita, mas a ambição não tem limites. E a pressão atinge todos os degraus hierárquicos. Para algumas empresas a saída é dar promoções nominais e, de preferência, usando títulos pomposos como Chief Knowledge Officer ou Chief Operations Officer.

Um empreendedor recentemente declarou a este colunista ter economizado 30% da folha de pagamento inflando os títulos dos contratados. Sagaz, percebeu que os candidatos valorizavam mais o título que o salário. No mercado de trocas simbólicas, o título no cartão de visitas parece ter mais valor que a conta bancária.

Eu tiro as histórias dos jornais e as pessoas se escandalizam com minha ficção. A humanidade é absurda, declarou certa vez Patricia Highsmith. A escritora nunca se debruçou sobre o mundinho corporativo. Porém, como já foi dito, qualquer semelhança pode ser mais que mera coincidência.





* Este artigo foi originalmente publicado na Revista CartaCapital e faz parte do livro Abaixo o Pop-Management.
** A publicação foi autorizada pela Editora Campus-Elsevier.
twood@fgvsp.br



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