O surgimento do “DNA market”

Os indicadores ainda não estão bem definidos, mas o futuro do mercado aponta para a oferta de produtos e serviços num nível absurdamente pessoal, a partir do DNA do cliente. O primeiro setor que poderá explorar isso de forma estruturada é o da biotecnologia. Mas é preciso conhecer um pouco mais a origem das coisas para entender melhor o que vem pela frente. A revolução industrial, cantada e decantada como o marco das transformações da vida moderna, e que proporcionou o início do processo de mudanças drásticas nos
modus operandi, vivendi e faciendi da humanidade, surgiu de algo esquecido pelos historiadores: a imprensa, que emergiu com a invenção dos tipos pelo alemão Gutenberg, ou melhor, Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg. Era o ano de 1453, ou seja, cerca de 300 anos antes do surgimento dos primeiros sinais da revolução industrial. Antes dele, quem abriu o caminho para a humanidade registrar sua história à mão foi a invenção do livro pelos chineses, em 1.300 a.c.. Foi preciso, primeiro, criar uma base estruturada de conhecimento e difusão da informação, para que a humanidade desse um passo mais forte para desvencilhar-se das trevas medievais, e abrir o caminho para o surgimento do Renascimento. No começo da era industrial, a engenharia humana conseguiu obter, muito rapidamente, resultados de produção reconhecidamente assustadores. Na pré-história da revolução industrial, para se produzir manualmente cerca de meio quilo de fio de algodão, era preciso de 12 a 14 homens-dia. Em 1764, quando foram introduzidas as máquinas de beneficiamento de algodão o primeiro marco da revolução industrial veio do setor têxtil -, o tempo necessário à produção da mesma quantidade de fio de algodão caiu para poucas horas. Mas o dado relevante é este: o preço caiu 70% e a produção aumentou 25 vezes. Isso foi apenas o tímido começo. Hoje, teares automáticos de alta velocidade, gerenciados por softwares multitarefa, produzem toneladas de fios por hora, numa situação totalmente inimaginável a apenas 200 anos. O mercado estruturado como operação capitalista, surgiu da máquina de beneficiamento de algodão movida a vapor, pois a sua imensa produção (para a época), precisava ser vendida, e com preços absurdamente baixos, foi a primeira grande liquidação capitalista da história. Foi este fato o criador do primeiro mercado de massa, da primeira fábrica e do capitalismo e economia modernos. O termo mercado de massa indica claramente o que sucedeu com a economia. A força estava centrada na produção em massa de produtos essencialmente iguais, ainda não padronizados por deficiências de qualidade, mas iguais na sua forma ou característica. Este modelo de acesso ao mercado, inimaginável nos dias atuais, foi intensamente utilizado pelo pai da indústria automobilística, Henry Ford, autor da célebre frase: O cliente pode escolher a cor de carro que quiser, desde que seja preto. Mercado de massa significa oferecer produtos ou serviços iguais, por preços semelhantes, para pessoas diferentes. Somente no pós-guerra, nos anos 1950, começou a surgir, de forma efetiva, o mercado segmentado, fruto da visão e ação de empreendedores, sempre ávidos por oportunidades e inovação. Foi somente no pós-guerra que tomou corpo e forma o que hoje se denomina MPE, ou seja, micro e pequenas empresas. Foram as MPEs que proporcionaram o surgimento do mercado segmentado, pois as grandes empresas tinham muita dificuldade para mudar suas linhas de produção e oferecer produtos diferenciados para grupos de clientes. Muitas MPEs daquela época tornaram-se gigantes e hoje dominam a cena empresarial. A segmentação do mercado proporcionou uma explosão empresarial sem precedentes na história do capitalismo. Durante cerca de 40 anos, a segmentação de produtos e serviços foi a grande alavanca de crescimento do tecido empresarial mundial, gerando incansavelmente empresas e construindo sucessivamente mais segmentação, mais diferenciação e mais competição. Mas a história econômica é um ser biológico pródigo ao parir sucessivos processos de mudanças para sustentar sua existência. A segmentação intensiva fez surgir, por ação meramente hermafrodita dos mercados, a fragmentação, que significa uma partição importante e detalhada da segmentação de mercado. Clientes sempre tiveram necessidades específicas, mas as empresas nem sempre tiveram capacidade para atender tamanha especificidade e diversidade. Para abrir novos mercados e expandir oportunidades, a fragmentação foi o passo estratégico adotado por empresas e empreendedores para dar sustentação a negócios e fazer girar a roda da economia. O moto-propulsor da fragmentação foi proporcionado pela tecnologia em toda a sua amplitude, pelos sistemas informatizados sofisticados e pela engenhosidade humana para criar e transformar. Surgida no final dos anos 80 e início dos 90, a fragmentação de mercados veio atender ao que se denominou personalização, a molecularização da matéria-prima do mercado, representada pela massa de clientes. Este é o momento atual da estrutura do mercado consumidor. Don Peppers, o guru do marketing, estabeleceu as principais estratégias (ainda no início dos anos 90), do que ele denominou de marketing one to one. Mas a molécula não é a menor parte da matéria. Da mesma forma que desenhou e formatou a segmentação do mercado, a tecnologia prepara o próximo salto: a atomização do mercado. O átomo é a menor parte da matéria, e minha visão é a de que esta etapa de evolução do mercado prepara uma revolução sem precedentes. Antes de falar dessa revolução, quero debruçar-me sobre a atomização do mercado, que representa o surgimento do produto único para o cliente único, do serviço altamente personalizado para o cliente-indivíduo. O mercado atomizado exige mudanças estruturais e operacionais importantes nas empresas que pretendem sobreviver ao que vem por aí. Satisfazer necessidades específicas, individuais, não é para qualquer negócio e qualquer empresa, apesar de ser uma prioridade estratégica para a conquista de novos mercados. Cada vez mais clientes querem a calça única sem cópia, o prato único de sabor único, o celular pessoal com design, cor, sons, acessórios e serviços exclusivos. Do vestuário à alimentação, passando por produtos de tecnologia e até relacionamentos, as pessoas buscam a individuação como manifestação da sua singularidade e necessidade de atenção específica. O mercado atomizado é uma espécie de warm up na corrida evolucionista do mercado. Não é um fim em si, é o fim e o recomeço, como acontece com um ser biológico. É a fronteira divisória do próximo grande salto mercadológico da humanidade. A sua empresa está preparada para isso? Então veja. Da mesma forma que o invento de Gutenberg prenunciou a revolução industrial, os sinais que surgem hoje anunciam a revolução do que eu denomino de DNA market, ou seja, o mercado do indivíduo aonde empresas terão que fornecer produtos ou serviços absolutamente únicos, feitos especificamente para uma determinada pessoa. A expressão do DNA market está sendo desenhada pela biotecnologia (sem o ranço do biologismo), exatamente porque sistemas biológicos manifestam em sua essência o gene, a origem, o fator determinante. De olho nesse mercado absolutamente imensurável, a indústria farmacêutica projeta o futuro hoje, para garantir sua própria sobrevivência: até 2040, estima-se, a medicina deixará de ser curativa para ser preventiva, o que vai exigir componentes biológicos inteligentes para atuar diretamente e antecipadamente na prevenção de doenças, a partir do código genético (DNA) específico de um cliente-paciente, identificado pelo biomédico do futuro. Esse profissional certamente utilizará uma tecnologia que não demandará mais que fração de segundo para fazer a leitura, diferentemente dos dias ou semanas que demanda hoje um exame de DNA. Lembram-se dos 12 a 14 homens-dia para produzir menos de meio quilo de fio de algodão? Pois é, assim se desenham as mudanças, a partir de referências sem conexão com a realidade. Futurologistas já alertam para a próxima era depois desta: em 2050 estaremos entrando na era dos biomateriais. Meu entendimento é que isso representa a era da bioeletrônica, da bioengenharia, da bioindústria, da bioloja, do bioatendimento. Isso significa uma transformação radical no modo como os negócios funcionam. Para os mais imediatistas, 2050 é impensável, inatingível, fora de cogitação, mas 2050 não representa nada na cortina do tempo, pois vivemos imersos num mar de mudanças exponenciais, tão intensas e permanentes que por vezes não nos damos conta. Já imaginou uma novela com os personagens interpretados pelos atores ou atrizes preferidos, numa trama conduzida pelo próprio telespectador? Imaginou como tudo isso será programado num computador que vai gerar em tempo real o resultado, formatado num capítulo projetado em sistema holográfico tão sofisticado, que você poderá estar na sala em que ocorre a cena? O DNA market vai considerar, essencialmente, o gosto, a visão pessoal, o prazer e satisfação, a necessidade, a vontade, o desejo e o poder de decisão do cliente-indivíduo. A sua empresa está sendo preparada para isso? Você tem buscado preparar-se para tal cenário de competição? A chave para posicionar-se no DNA market está no próprio DNA como elemento fundamental de todos os seres vivos: decifrar seu código. Isso significa compreender a essência do ser humano. Mãos à obra, ou melhor, cérebro à obra!
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