O que o Brasil ganha com o acordo Mercosul-União Europeia?

Será que esse acordo trará com o tempo ganhos em aéreas que o Brasil é pouco competitivo? Essa é uma reflexão que cada brasileiro precisa fazer para entender o que mudará nas nossa vidas.

Em um mercado competitivo e cada vez mais globalizado, a necessidade de construir parcerias representa uma questão de sobrevivência para muitas empresas.

O ponto chave é estabelecer ganhos mútuos, percebidos por ambas as partes. Do contrário, a parceria não irá promover o resultado esperado, mesmo quando uma das partes tende a se beneficiar mais que a outra. Como observava Alexandre Dumas, autor do livro Os Três Mosqueteiros, “nos negócios não existem amigos, apenas sócios”.

Ampliando esse conceito para uma visão macroeconômica, percebe-se também que os governos buscam construir parcerias para o estreitamento das relações diplomáticas e comerciais, o que ajuda a fortalecer diversos setores da economia, desde a indústria e o comércio, passando pelo setor de serviços e do agronegócio até abranger a infraestrutura: base para o fortalecimento desses setores.

Recentemente, o Mercosul, bloco econômico do qual o Brasil faz parte, juntamente com a Argentina, Paraguai e Uruguai, deu mais um passo rumo à ampliação de sua participação no mercado mundial ao finalizar as negociações de um acordo comercial com a União Europeia, com seus 28 estados-membros. Vale observar que o acordo precisa ser assinado pelo Conselho Europeu (composto pelos chefes de estado dos países membros da União) e pelos países membros do Mercosul para então entrar em vigor.

A pergunta que se segue é em relação ao que o Brasil ganhará com o acordo Mercosul e União Europeia e, essencialmente, entender os reflexos na economia brasileira e na vida dos brasileiros.

Primeiro deve-se entender o que o Brasil tem a oferecer para a União Europeia. Analisando os principais produtos exportados do Brasil para o bloco europeu entre JAN-FEV desse ano, no montante de US$ 17,46 bilhões de produtos exportados, destacaram: farelo e resíduos da extração de óleo de soja (8,9%), soja (7,9%), celulose (6,9%), minério de ferro e seus concentrados (6,7%), café cru (6,5%), demais produtos manufaturados (3,7%) e tubos flexíveis de ferro ou aço (3%).

Por outro lado, deve-se entender o que a União Europeia tem a oferecer ao Brasil. Analisando o mesmo período, do montante de US$ 15,64 bilhões de produtos importados pelo Brasil do bloco europeu, destacaram: medicamentos para medicina humana e veterinária (11%), demais produtos manufaturados (7,5%), partes e peças para veículos automóveis e tratores (4,5%) e instrumentos e aparelhos de medida de verificação (2,3%).

Essa primeira análise mostra que o Brasil possui uma pauta de exportação mais acentuada em produtos primários, agrícolas e commodities em geral. A cadeia produtiva desses produtos, porém, não sofre transformações tão substanciais – do fornecimento/extração de insumos até o produto final – que conferem a eles um valor agregado alto. Observa-se que o Brasil construiu uma vantagem competitiva alicerçada na ampliação e no desenvolvimento do agronegócio.

Enquanto, do outro lado do atlântico, a União Europeia apresenta produtos manufaturados e de forte densidade tecnológica e de inovação na pauta de exportação. Adicionalmente, em sua cadeia produtiva, percebe-se uma maior e significativa transformação da matéria-prima até o bem final; menos dependente de recursos naturais e mais de recursos humanos para acontecer.

Ainda neste tocante, o Acordo não mudará significativamente a relação comercial já existente em sua essência, ou seja, o Mercosul concentra em sua pauta de exportação produtos de baixo valor agregado, ao passo que a União Europeia mantém sua base em produtos de alto valor agregado. O que muda, em certa medida, é a facilitação e uma menor restrição imposta aos produtos e serviços entre empresas e governos dos dois blocos, o aumento do fluxo comercial e das trocas de informações e de tecnologia mas, sobretudo, permitirá o Brasil ser mais competitivo em determinados segmentos.

Segundo deve-se entender quais fatores podem ter contribuído para a conclusão das negociações e como esses mesmos fatores podem ainda influenciar a economia dos países consignatários após assinatura do acordo. Analisando a conjuntura mundial, entre diversos fatores, podem-se listar (1) a guerra comercial entre as duas grandes potências econômicas Estados Unidos e China que, conjuntamente, são os maiores parceiros comerciais dos dois blocos; (2) o processo de saída (ou Brexit) do Reino Unido da União Europeia; e (3) a relação paradoxal entre as rigorosas imposições feitas aos países que mais causam danos ao meio ambiente e o crescente aumento do fluxo comercial com esses mesmos países.

Essa segunda análise mostra que China e Estados Unidos irão procurar outros países para escoar seus produtos, impulsionando, no primeiro momento, o aumento do fluxo comercial. Em um segundo momento, não obstante, impactará a indústria local que poderá perder força frente aos produtos importados.

Na mesma medida, a saída do Reino Unido da União Europeia – até então não concretizada – permitirá que outros parceiros comerciais sejam beneficiados e que acordos com outros blocos (como o do Mercosul, por exemplo) até então em discussão sejam finalizados dado à busca do Reino Unido ou dos demais países do bloco em criar alternativas para escoar seus produtos para outras economias, paralelamente, às constantes preocupações do reflexo da guerra comercial entre China e USA para a economia mundial.

Enquanto se percebe um movimento dos países em criar normas ambientais mais rigorosas e com maiores imposições aos países que descumprem acordos para o tema, como o Acordo de Paris, a Conferência Eco-92 (discutida posteriormente na Rio + 20). Na contramão dessas ações, percebe-se um aumento da demanda por produtos cujo cultivo ou extração afetam diretamente o meio ambiente, como a soja, criação de gados, recursos mineiras, etc. De fato, uma pressão enorme em se desenvolver de forma sustentável, sem afetar o meio ambiente de determinadas nações em detrimento do “crescimento sustentável” de outras.

Em outras palavras, é como se a União Europeia “vendesse” ao mundo a ideia da qual eles estão se desenvolvendo preservando o meio ambiente – o que de fato vem acontecendo –, mas por trás dos holofotes importam cada vez mais matérias-primas e insumos de países que desmatam e causam danos à natureza. Tudo isso para atender uma demanda crescente dos próprios países europeus.

O terceiro ponto traz à luz a ideia inicial do artigo ao observar que uma parceria, seja ela qual for, precisa ser viável para ambos os lados. Mesmo considerando uma relação ganha-ganha, o resultado esperado e alcançado é percebido de forma diferente pelas partes.

No caso da União Europeia e do próprio Mercosul, cada país-membro sofrerá mudanças em seus respectivos mercados e nas trocas comerciais que, essencialmente, poderão beneficiar, com suas devidas proporções, ambos os lados. O Mercosul com mais acesso à tecnologia e aos produtos industrializados e a União Europeia com mais acesso às matérias primas e recursos naturais.

Diante os fatos analisados é possível identificar ganhos não só comerciais ao Brasil, mas também de competitividade para muitos produtos brasileiros. Esses ganhos, como vendo sendo desenhados, parecem estar mais restritos ou direcionados para alguns segmentos que os governos parecem enxergar de forma mais estratégica, como o agronegócio. E, numa menor proporção, o Brasil estender esses ganhos competitivos para outras aéreas da economia, como a indústria de transformação, tecnologia e pesquisa, serviços em geral, bancária e de licitação.

O crescimento, portanto, da economia deve ocorrer de forma integrada, envolvendo, principalmente, segmentos que absorvam grande parte da mão-de-obra brasileira e que ajudam a movimentar a economia, atraindo não só investidores, mas tornando os produtos tecnologicamente mais competitivos. Se esse acordo com o tempo trouxer ganhos em aéreas que o Brasil é pouco competitivo, o reflexo na vida dos brasileiros será visto não só no campo, mas também de norte a sul do país.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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