O que a China de fato quer com o Brasil?

Governo brasileiro anuncia acordo com China no montante de 53,3 bilhões de dólares. A delegação chinesa chega ao Brasil cheia de dinheiro e com muita vontade de investir em nosso país. Mas, afinal, o que os chineses querem de nós? Aquilo que for bom para eles

O fato

O primeiro ministro chinês Li Keqiang recentemente chegou ao Brasil para celebrar 35 acordos bilionários com o Governo brasileiro. Um deles, e o talvez o de maior relevância é o projeto ferroviário transcontinental que deve atravessar o Brasil de leste a oeste, percorrer toda a cordilheira dos Andes e chegar aos portos peruanos. O projeto, por enquanto, passa por análises de viabilidade por estes três países. No entanto, a estratégia já está bem articulada: criar um desenho que facilite a exportação de matérias primas do Brasil até o Oceano Pacífico e dali, para a China. A rota sairá do Tocantins (Ferrovia Norte Sul), passando pelo estado do Mato Grosso (Lucas do Rio Verde), seguindo até o Acre, até chegar ao Peru, trazendo ganhos aos produtores brasileiros e uma considerável redução de custos com logística para a China!

Mas há mais que isso! São 35 acordos anunciados, alguns, que trarão resultados imediatos, como o fim do embargo à importação da carne brasileira, beneficiando 26 frigoríficos nacionais. JBS batia palmas durante a cerimônia de assinatura dos protocolos. Assim como este, foram firmados acordos de financiamentos com a mineradora Vale, outro de investimento em um pólo siderúrgico no Estado do Maranhão, outro em uma processadora de milho em Maracaju, no Mato Grosso do Sul, e um financiamento de 1,5 bilhões de dólares à Petrobrás até 2016. Além de diversos outros acordos relativos a investimentos em infraestrutura, como rodovias e ferrovias, setor elétrico e telecomunicações. Cabe aqui informar que a China já tem acordos semelhantes com Venezuela e Cuba, todas no sentido de investir em infraestrutura e facilitar sua logística.

A visão comum

Durante a cerimônia de acordos entre China e Brasil, o Governo chinês e o Governo de Dilma Rousseff, ambos fizeram questão de enfatizar que o comércio bilateral só vem a proporcionar o desenvolvimento de duas economias emergentes, ainda mais, considerando um cenário econômico de difícil recuperação mundial. Logo, todos ganham! A China já é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2013, em 2014, foram negociados 79 bilhões de dólares, e ambas as partes esperam chegar rapidamente em 100 bilhões de dólares negociados diante destes novos acordos.

A China

A República Popular da China, conhecida simplesmente como China, é o maior país da Ásia, e o mais populoso do mundo com 1,36 bilhões de habitantes, quase um quinto da população mundial (O Brasil conta hoje com pouco mais de 202 bilhões de brasileiros). É governada pelo Partido Comunista da China, sob um sistema unipartidário. Comunista no nome, a China é cheia de contradições, é hoje o centro do capitalismo mundial. Considerado capitalismo “selvagem”para muitos, a China cresceu 7,4% em 2014, menor índice de crescimento, desde 1990. Sua população ainda é considerada “escravizada” pelos industriais e presos ao sistema de produção, por uma simples justificativa: a subsistência. Apesar da China diminuir seus índices de pobreza anualmente, ainda existe uma grande disparidade ao que é oferecido à sua imensa população.

Em média, o operário chinês trabalha 26 dias por mês e 12 horas por dia. Existe apenas uma única central sindical, controlada pelo governo. As condições de segurança no trabalho ainda são ínfimas, estima-se que 80% das mortes em minas de carvão ocorram na China, com seus trabalhadores.

Nas últimas décadas, a China sofreu uma grave deterioração ambiental. Embora existam legislações como a Lei de Proteção Ambiental de 1979 e estas sejam bastante rigorosas, elas são mal aplicadas, e frequentemente desconsideradas pelas comunidades locais, industriais e governo em prol do desenvolvimento econômico a todo custo. O consumo interno de recursos naturais na China, como minerais, combustíveis fósseis e biomassa, utilizados para a construção são quatro vezes maior que a dos Estados Unidos.

Embora a China já tenha investido muito em tecnologias de energias renováveis, de acordo com o Ministério chinês de Recursos Hídricos, cerca de 300 milhões de chineses ainda não tem acesso à água potável e 40% dos rios do país já estão poluídos por resíduos industriais e agrícolas. 400 das 600 cidades chinesas já apresentam poucos recursos de água potável.

A China já se tornou líder do fluxo de comércio no mundo, e especialistas afirmam que a China se tornará a maior economia do planeta até 2050.

A sensibilidade brasileira

O Governo brasileiro, por sua vez, impôs a necessidade de um ajuste fiscal e anunciou recentemente um corte bilionário no orçamento, o que impedirá o Brasil a dar consideráveis passos econômicos num futuro próximo, e portanto está de olho nos negócios com a China. Com um crescimento econômico negativo no primeiro trimestre de 2015 (0,2%) o Governo brasileiro precisa urgentemente tomar medidas, nem que paliativas, para a retomada do crescimento do país. O dinheiro da China vem como parte da solução imediata do problema.

O que a China tanto quer?

Nossos recursos naturais e tudo o que a nossa terra dá!

A China possui hoje um grande desafio, que é depender menos de investimento e fazer uma transição para uma economia de consumo sem desacelerar seu crescimento, para tanto, é preciso buscar estabilidade no fornecimento de itens que o Brasil sempre negociou muito bem com os chineses: soja, minério de ferro, açúcar, petróleo e derivados de milho. Produtos estes, que o Brasil sempre foi forte exportador, e que hoje são os itens mais demandados pelos chineses. E toda essa política de disposição em investimentos em nosso país passam pela estratégia de barateamento do frete e redução do tempo de escoamento de grãos, carne, minérios e outros produtos para a Ásia, leia-se: a China. E de leva: continuar descarregando aqui milhares de toneladas de quinquilharias industrializadas descartáveis que adoramos consumir.

A crítica

De fato, a China está de olho no Brasil, e nós, não podemos desviar os olhos deles. Mas, por outro lado, o Brasil vende prioritariamente matéria-prima para eles e compra produtos industrializados dos chineses, alguns com alto valor agregado. O que a longo prazo pode provocar uma dependência menos sadia entre as partes. Hoje, mais de 50% das exportações brasileiras correspondem a matérias-primas.

Há tempos o Brasil já não é respeitado como exportador de produtos com algum valor agregado, não se destaca por sua inovação, conhecimento, ou industrialização. Sabemos também que este é um caminho que é necessário percorrer para desenvolver uma economia sólida, e que sofremos nos setores industriais pela baixa competitividade. Também não temos grandes projetos de longo prazo para fortalecer a produção de bens industrializados.

Para alguns críticos, a China, apenas vem neste momento comprar o Brasil mais barato, e que as condições deste acordo deveriam ser pensadas pelo Governo brasileiro no médio prazo. Pensar em uma parceria que traga para o Brasil chances de produzir mais e melhores produtos, com mais valor tecnológico, pois afinal, esse é o diferencial nas nações que prosperam, com maiores chances de gerar bons empregos e melhor renda.

Por sua vez, o Brasil, tem como principal fonte de riqueza nossos commodities, que embora essenciais, sempre serão a base para toda industrialização, inclusive a do Brasil, e é isso que os chineses vem buscar aqui.

Muito sabiamente, o economista e cientista social Marcos Troyjo descreveu seu receio: Os chineses estão operando em uma lógica de 15 e 20 anos, e nós no ciclo eleitoral de 4. Há uma convergência da nossa necessidade de investimento de curto prazo com o objetivo deles de fornecimento a longo prazo.” Mas isso não quer dizer que a parceria seja um bom negócio!

Fica a dúvida se o Governo brasileiro irá capitalizar esta oportunidade melhorando não apenas o comércio com a China, e se de fato, promoverá um ambiente de negócios não menos ousado também com outros países, promovendo assim o Brasil para o mundo.

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