O Primeiro Milhão: o alto preço da ambição
O Primeiro Milhão: o alto preço da ambição

O Primeiro Milhão: o alto preço da ambição

O filme conta a história do jovem Seth, que, aos 19 anos de idade, ganha uma boa grana bancando um cassino ilegal no seu apartamento

A ambição sempre andou de mãos dadas com o mundo dos negócios, e seu papel sempre foi um tanto ambíguo. Ambição de menos, e o profissional é taxado como acomodado, alguém cujas pretensões profissionais serão limitadas justamente por sua falta de ambição. Ambição demais, e o sujeito logo é visto como "aquele cara que vai passar por cima de tudo e de todos para conseguir o que quer". Seja como for, esta ambiguidade que envolve o termo ganha cores muito interessantes com este O Primeiro Milhão (Boiler Room, EUA, 2000), filme que foi muito comparado com o clássico do Business Cinema, Wall Street: Poder e Cobiça, filme sobre o qual eu mesmo publiquei um artigo aqui no Portal Administradores. Mesmo tendo alguns aspectos realmente semelhantes ao filme de Oliver Stone, O Primeiro Milhão trilha seu próprio caminho de maneira relevante e energética.

O filme conta a história do jovem Seth (o expressivo Giovanni Ribisi, de O Resgate do Soldado Ryan), que aos 19 anos de idade, ganha uma boa grana bancando um cassino ilegal no seu apartamento. Seu pai, um rigoroso e respeitado juiz, descobre a empreitada e detona o filho, que para limpar a barra com o velho, arruma um emprego legalizado como corretor de ações em uma pequena e ascendente empresa do ramo. O problema é que a tal corretora vende ações de origem dúbia ou mesmo sem valor de mercado, através de táticas telefônicas nada sutis. Em determinado momento, Seth constata que enquanto comandava seu cassino clandestino, ele ao menos fornecia um produto que seus clientes queriam.

O Primeiro Milhão marcou a estreia do diretor e roteirista Ben Younger (do excelente Sangue Pela Glória, 2016), e que na época tinha apenas 29 anos de idade. Younger declarou ter entrevistado vários corretores enquanto escrevia o roteiro, e eu realmente acredito nele. O filme transborda autenticidade, e mostra conhecer muito sobre a cultura da ambição desmedida que permeia cada centímetro do escritório da empresa onde Seth começa a trabalhar e se destacar. Empresa que promete transformar seus trainees em milionários, e que na pior das hipóteses, os transforma em excelentes vendedores por telefone.

Nenhuma experiência é necessária para se trabalhar na J.T. Marlin: "Nós não contratamos corretores aqui, nós os formamos", rosna Jim (Ben Affleck, recém saído do sucesso de Gênio Indomável, que o lançou ao estrelato). Jim já é um milionário, que dá aos novos recrutas uma nervosa palestra de apresentação repleta de obscenidades e desafios à sua masculinidade (alguém aí falou O Lobo de Wall Street??). Jim é o tipo de cara que não vê a mensagem, apenas o estilo e resultado. Já Seth (também narrador do filme), nada tem de impressionante em si além de sua inteligência e jeito com os números, mas ele aprende em pouquíssimo tempo a separar os otários de seu dinheiro, através de fantasias telefônicas sobre ações quentíssimas no mercado de Wall Street. Todos querem ser milionários, ele observa. Ironicamente, o sonho de riqueza que ele vende com suas ligações é o mesmo que a J.T. Marlin está vendendo a ele.

Na verdadeira "sala de guerra telefônica" da J.T. Marlin estão outros vários corretores, incluindo os bem-sucedidos Chris (Vin Diesel, às vésperas do lançamento do mega-hit Velozes e Furiosos), e Greg (Nicky Katt, do thriller À Sangue Frio, 2000), que trocam insultos anti-judeus e anti-italianos praticamente todos os dias. À noite, o pessoal vai à forra, enchendo a cara e entrando em confusões com corretores de outras firmas concorrentes. Os frequentadores do cassino ilegal de Seth se comportavam melhor.

E aqui, vale uma reflexão: é interessante observar que tanto os apostadores como os corretores de ações apostam seu dinheiro em uma renda futura, mas como um apostador, você paga o montante, enquanto que como um corretor, você o coleta. Jogadores profissionais alegam que eles não dependem da sorte, mas sim em compreender as probabilidades e gerenciar de maneira prudente seu dinheiro. E curiosamente, os investidores pensam de maneira bastante parecida.

O filme carrega a energia vibrante da vida real, observada bem de perto. Este aspecto se torna ainda mais interessante pelo fato de que Seth não é um tubarão de terno e gravata como Michael Douglas ou Charlie Sheen em Wall Street (filme que estes caras sabem de cor), mas sim um jovem inseguro que vive sob a pesada sombra do pai juiz (Ron Rifkin, do recente Nasce uma Estrela), que por sua vez vive julgando o filho. A tensão entre Seth e o pai é uma das maiores qualidades da produção, especialmente nas cenas em que Rifkin age não como o pai, mas sim como o juiz nas interações com seu filho, onde fica evidente o peso sobre os ombros que Seth carrega devido à maneira com que seu pai o trata. Quando em dado momento Seth se refere à relação entre eles, seu pai replica: "Que relação? Eu não sou sua namorada. Relacionamento é departamento da sua mãe, não meu. Eu sou seu pai."

Contudo, um relacionamento de fato floresce no filme, entre Seth e Abby (a bela Nia Long, de Boyz n' the Hood: Os Donos da Rua), a recepcionista da J.T. Marlin. E apesar desta relação eventualmente vir a se tornar importante para o filme, confesso que o que mais admirei nela foi o modo com que Younger escreveu suas cenas, de maneira que Seth e Abby verdadeiramente compartilhem suas esperanças, sonhos, trajetórias e inseguranças ao invés de apenas cair na paixão automática tão comum nos filmes de hoje. Devido à rotina racista na firma, Seth observa que não deve ser fácil para uma mulher negra trabalhar no local. Abby aponta que ela ganha $80,000 por ano e ajuda a mãe doente. Caso encerrado, sem dramaturgia exagerada sobre namoro interracial, etc. Eles gostam um do outro e evoluíram para além das barreiras raciais. Um tapa na cara da geração mimimi.

Falando um pouco sobre o elenco, todos estão ótimos. Diversos futuros astros de Hollywood (Affleck, Diesel) demonstram seu carisma, e Ribisi, em alta na época, demonstrou ser um dos melhores atores de sua geração. A cena em que Seth desabafa para seu pai sobre a difícil relação entre os dois é de partir o coração, e o veterano Ron Rifkin também garante peso e prestígio à produção.

É claro que O Primeiro Milhão não é perfeito. Sua conclusão é um tanto atabalhoada com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, mas trata-se de um filme que mesmo com pretensões tímidas, consegue ser original e energético, além de servir como um perfeito exemplo do preço alto a se pagar pela ambição exagerada. Durante o filme, me peguei absorto pelo nível de envolvimento e tensão da produção, especialmente por todos os personagens serem tratados como humanos reais, que convivem com os complexos e culpas, que se comportam bem e muitas vezes, se comportam mal, de forma que fica perfeitamente possível compreender porque todos no filme fazem o que fazem no final das contas. Se eu faria o mesmo? Depende...

O Primeiro Milhão está disponível no mercado de Home-Video.

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