O pecado capital do «flatman»

«O Mundo é Plano» de Thomas Friedman foi um êxito de livraria, mas a sua confusão entre informação globalizada e globalização do conhecimento gera perigosas ilusões. Em geopolítica é mesmo uma armadilha

«O Mundo é Plano» de Thomas Friedman foi um êxito de livraria, mas a sua confusão entre informação globalizada e globalização do conhecimento gera perigosas ilusões. Em geopolítica é mesmo uma armadilha

Sítio na web de Laurence Prusak: www.laurenceprusak.com | Blogue de Prusak: www,babsonknowledge.org | Resumo e comentários a The World is Flat: http://en.wikipedia.org/wiki/The_World_is_Flat


O Mundo não é plano nem em termos geoeconómicos nem geopolíticos e o conhecimento não é globalizável por magia da web ou da fusão entre os computadores de bolso e os telemóveis inteligentes. Quem o diz é Laurence Prusak, que lançou, agora, uma pedrada no charco ao criticar as ilusões difundidas pelo best-seller «O Mundo é Plano» (editado em língua portuguesa pela Objetiva, no Brasil, e pela Actual, em Portugal) escrito por Thomas Friedman, o colunista do The New York Times, repetente em Prémios Pulitzer, a quem já alcunharam de «flatman».

O pecado capital desta vaga de flatists cheios de compaixão (compassionate flatist, no original) como a si próprios se auto-designam é «a permanente confusão entre informação e conhecimento», disse-nos Laurence Prusak, um dos especialistas norte-americanos da economia do conhecimento, professor no Babson College, no Massachusetts, e director do Institute for Knowledge Management.


«A informação pode mover-se à volta do Planeta como se este fosse plano, mas quanto ao conhecimento é muito mais difícil movê-lo»

A tentação desses «opinon makers», tecnólogos ou vendedores de novas tecnologias é colocar um sinal de igual entre a expansão e utilização da infra-estrutura em tecnologias de informação e telecomunicações e a globalização do saber. «O acesso à informação que as ferramentas tecnológicas mais recentes permite não equivale à criação de valor. O que se sabe está dependente do contexto, do local onde se está. A informação pode mover-se à volta do Planeta como se este fosse plano, mas quanto ao conhecimento é muito mais difícil movê-lo», explica Larry.

A massificação do uso da Web, e em particular a utilização das novas ferramentas do que hoje se designa por web 2.0 como o Google, a Wikipedia, as mensagens instantâneas através da Internet (vulgo «messenger») ou o telefone e vídeo via protocolo Internet (tecnicamente designado por VOIP) , não é nenhum automatismo que transfere saber e garante criação de valor e novos negócios globais.

Embutido localmente

«O erro clássico dos flatists, diz Prusak, é não entenderem que o conhecimento emerge da assimilação e conexão da informação através da experiência». De um modo menos técnico, diríamos que o conhecimento surge embutido no contexto local, nas organizações concretas, nas práticas sociais. «Não é uma coisa em si. Reside na cabeça do detentor de saber que é um actor social concreto. Pela sua natureza, o saber é local», explica-se o professor americano, que alimenta um blogue polémico em www.babsonknowledge.org.

Daí que quando Friedman acrescente na nova edição de 2006 de «O Mundo é Plano: Uma História Breve do Século XXI» com novos capítulos e retocada em vários parágrafos face a algumas críticas mais contundentes em relação à versão de 2005 um capítulo sobre a globalização do local (capítulo 13) e proteste contra os unflat que não se glocalizam percebe-se a dimensão do drama e da frustração.

A extensão do conceito de mundo plano para a área geopolítica é «uma imperfeição ainda maior», adverte Prusak. O absurdo chega ao ponto de Friedman falar de uma suposta teoria Dell da prevenção dos conflitos. Trata-se de uma readaptação da sua tese quase anedótica, desenvolvida em livro anterior («The Lexus and the Olive Tree»), de que países com a cadeia de «fast food» McDonalds nunca entrarão em guerra «fratricida». A irmandade nos gostos de consumo eliminaria as pulsões profundas dos jogos de poder. Agora, a teoria alvitra que países inseridos nas mesmas redes de subcontratação mundial por exemplo, a cadeia global de fornecimentos para a Dell nunca se deixariam levar pelo «aventureirismo geopolítico» das lutas hegemónicas e das disputas entre potências locais e globais. «Como se a história, alguma vez, se incomodasse com o just-in-time», conclui ironicamente Laurence Prusak.








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    Jorge Rodrigues

    Jorge Rodrigues

    Jorge Nascimento Rodrigues, português, nascido em 1952, editor na área de management, tecnologia, macroeconomia, geopolítica e história económica. Fundador e editor na Web de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv. Bloguer em http://geoscopio.tv. Colaborador do semanário português Expresso desde 1983. Coordenador da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão (Indeg, Lisboa, e Fundação Getúlio Vargas,Rio de Janeiro). Coordenador Executivo da Editora Centro Atlântico. Autor. Pode ser contactado pelos emails: jnr@groupadventus.com e jnr@mail.telepac.pt
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