O papel da tecnologia no abuso contra mulheres

A tecnologia traz muitas facilidades para a nossa vida cotidiana. Seja no meio profissional, pessoal, no lazer ou na educação, acessórios, gadgets, computadores e softwares têm o poder de agilizar e melhorar as nossas atividades, aproximar pessoas e disseminar informação

Apesar de muitas pessoas - principalmente homens - pensarem que essa realidade não existe e que a afirmação de que a Internet é usada como uma maneira de agredir e difamar mulheres é um exagero ou, como dizem na web, apenas “mimimi”, os fatos mostram que essa visão não poderia estar mais equivocada.

A violência virtual é uma realidade

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 95% de todo o comportamento agressivo e difamador na Internet tem como alvo mulheres, sendo isso motivado única e exclusivamente pelo fato de serem mulheres. Especialistas em tecnologia apontam que esse processo é resultado da junção entre o boom da inclusão digital e a propagação e o reforço de ideais machistas e sexistas.

Apenas no último ano, houve casos conhecidos e graves envolvendo personalidades da mídia que sofreram alguma forma de abuso online. Se isso acontece até mesmo com “estrelas”, imagine com as “pessoas comuns”. Para citar alguns exemplos: a atriz Emma Watson sendo ameaçada de morte após discursar na ONU pela igualdade de gênero e a atriz Jennifer Lawrence, que teve fotos íntimas divulgadas na web de forma criminosa.

Os números da ONU mostram o quanto essa é uma triste realidade que precisa ser percebida e, mais importante, combatida. De acordo com a organização, 76% das mulheres entre 14 a 24 anos consideram o abuso digital um problema sério; 56% já sofreram alguma forma de assédio; 26% já foram perseguidas na Internet e 25% já sofreram alguma forma de assédio sexual - tudo isso no mundo online. Além disso, 5% ainda afirmam que uma forma de abuso na web já levou a uma situação na qual correram perigo físico.

O anonimato e a falta de legislação como garantias de impunidade

Dados e mais dados mostram que a violência online contra a mulher não é uma mera impressão ou ainda opinião de algum certo grupo; ela é um fato! Esse tipo de comportamento vem aumentando muito nos últimos anos impulsionado pelo anonimato que a Internet possibilita e pela popularização das redes sociais, onde grupos se encontram (também muitas vezes de forma anônima) para propagar o ódio e o abuso contra a mulher.

Além disso, outro fator que agrava essa situação e colabora para que esse tipo de atitude fique impune é a atual falta de uma legislação mais clara, eficiente e ativa que identifique como crime os comentários machistas, sexistas, misóginos e com teor de ódio que povoam a rede. Um dos reflexos mais negativos dessa falta de mobilização do poder público é a consequentemente desmotivação que mulheres sentem em buscar ajuda, já que a impunidade é muito grande nesses casos.

Infelizmente, ainda são poucos os países que contam com leis duras e que previnem e punem a violência online contra a mulher. De acordo com a Organização das Nações Unidas, 1 em cada 5 mulheres que usam a Internet vivem em países que não adotam punições legislativas para abusos de gênero na web.

Ainda de acordo com o órgão, 74% dos países de todo o planeta não possuem medidas judiciais e policiais para combater esse tipo de abuso e 64% das vítimas de violência online preferem não denunciar o ocorrido por medo de sofrer alguma forma de violência física.

A própria Internet como forma de acabar com a violência

Como parar a violência e o abuso contra a mulher na Internet? Usando a própria rede de forma responsável. Grupos de diálogo e debate, ONGs, ferramentas, sites e aplicativos já existem para proporcionar apoio, conscientização e debate social sobre essa questão.

Hoje existem alguns apps que ajudam mulheres a denunciarem abusos e encontrarem mais informações sobre as formas de violência e como agir nos diversos casos em que elas podem ocorrer. Um exemplo é o Clique 180, desenvolvido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. Nele você tem informações sobre as formas de violência, mapas com a localização das Secretarias da Mulher, a lei Maria da Penha completa, um botão de discagem automática para a Central de Atendimento à Mulher (180), além de outras funções. Ele é disponível gratuitamente para Android e iOS.

Além de ferramentas que possibilitem a denúncia de violência (seja ela online ou não), o combate ao abuso na Internet também depende de espaços nos quais as mulheres possam contar suas histórias, compartilhar experiências e buscar ajuda. Um exemplo é o site MinhaVoz, no qual mulheres podem relatar abusos, receber orientação sobre como proceder e também ler e escrever depoimentos anônimos que ajudam a superar e lidar com esse trauma.

Para combater esse problema social, é essencial que a sociedade como um todo repudie essa forma de violência (e todas as outras).

Nesse ponto, a Internet também pode ser uma excelente ferramenta para que Governo, Mídia e Sociedade se unam no combate ao discurso machista e de ódio que alimenta o abuso online. Somente incentivando os ideais de igualdade e respeito às mulheres e desenvolvendo punições para quem pratica abuso online é que essa situação pode ser revertida.

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