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O mundo não é plano

Generalizar que os jovens dos países pobres estão em condições de igualdade tecnológica para competir no mundo dos negócios com os jovens formados em Boston, ou na Califórnia é menosprezar a inteligência dos leitores. É pintar com cores fortes um quadro surreal e ameaçador para vender milhões de livros para pessoas amedrontadas e, supostamente ameaçadas, pelo desemprego.

Em 2005, O Mundo É Plano do jornalista Thomas Friedman foi considerado o melhor livro de negócios nos Estados Unidos. Ele tenta explicar como as economias da China e da Índia conseguem crescer aceleradamente. Ele diz que os indivíduos dos países em desenvolvimento passaram a ter acesso aos avanços tecnológicos e informações no exato momento em que elas são disponibilizadas nos países ricos. O livro louva a globalização. Ele tem muitos leitores porque faz um diagnóstico do tamanho da ameaça que China e Índia representam para os empregos e para a qualidade de vida dos norte-americanos. Dizer que o mundo é todo plano, todo igual, em termos de tecnologia é uma falácia. Generalizar que os jovens dos países pobres estão em condições de igualdade tecnológica para competir no mundo dos negócios com os jovens formados em Boston, ou na Califórnia é menosprezar a inteligência dos leitores. É pintar com cores fortes um quadro surreal e ameaçador para vender milhões de livros para pessoas amedrontadas e, supostamente ameaçadas, pelo desemprego.

Esse livro é uma bela peça de marketing em favor da globalização É claro que a globalização permite que muitas empresas de países pobres atuem em escala mundial. A internet e as facilidades da telefonia facilitaram esse acesso. O que se questiona é a forma de atuação e a extrema dependência tecnológica dessas empresas em relação aos detentores do conhecimento já patenteado nos países ricos. A globalização é uma estratégia que só interessa ás grandes potências. Na década de 1960, a produção agrícola também foi globalizada pela famosa revolução verde. Essa revolução acabou favorecendo a um seleto grupo de multinacionais que já dominava o conhecimento sobre máquinas, química do petróleo, fertilizantes e defensivos agrícolas.A globalização sempre foi vendida como a única alternativa: ou se globaliza ou morre isolado. Ela foi muita bem divulgada pela mídia e pela imprensa venal, sempre pronta para colaborar com quem paga bem. A globalização é uma forma moderna e inteligente para dominar o mundo na era do conhecimento. A globalização diz que as fronteiras entre países são fictícias. Ela prega a destruição dos Estados nacionais, das raízes culturais e dos princípios de soberania dos povos. A verdade é que a globalização só agrava as desigualdades tecnológicas e amplia as vantagens competitivas de quem já domina o comércio global via patentes tecnológicas. É uma estratégia feita sob medida para quem pretende dominar as atividades intensivas em conhecimento e ricas em valores agregados que se situam antes e depois da fase de manufatura. É muito mais interessante ficar com a inteligência patenteada e globalizada. O melhor do negócio é embolsar tranqüilamente os valores gerados pela pesquisa, desenvolvimento, design, marketing, distribuição e exploração das marcas


O livro de Friedman celebra a nefasta globalização, mas tem um lado educativo para o Brasil. Ele mostra o que a China e a Índia fizeram e, o que o nosso país não soube fazer. Ele mostra a importância de se ter planos estratégicos de longo prazo. Ele mostra que quanto mais escassos os recursos, mais é preciso planejar. Ele mostra a vitória de quem soube focar na educação e na geração de conhecimentos. No caso da Índia, fica evidente a importância do Estado dando força aos antigos e, criando novos institutos de tecnologia. Merece destaque também o investimento feito pelos governos da China e da Índia na formação de uma enorme massa crítica de cientistas. A diferença é que agora eles estão sendo treinados para serem cientistas empreendedores. Agora eles são preparados para usar a ciência e a tecnologia na geração produtos e serviços úteis e diferenciados. Antigamente eles eram apenas acadêmicos. Eles enchiam as gavetas e bibliotecas da academia com teses sem nenhuma aplicação ou utilidade prática para a sociedade. Eles faziam aquilo que muitos pesquisadores continuam fazendo no Brasil.

No futebol, teoricamente, todos têm as mesmas chances. São onze contra onze jogando sob as mesmas regras, num campo plano, com posições invertidas no segundo tempo. Dizer que o mundo do conhecimento agora é plano e que, finalmente, todos tem as mesmas chances, seria o equivalente a dizer que a Croácia tem as mesmas chances que o Brasil de ganhar a próxima Copa do Mundo. Por aqui, Mr. Friedman, o mundo continua redondo e muito desigual!

Eder Bolson, empresário, autor de Tchau, Patrão! - Editora SENAC www.tchaupatrao.com.br


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