O mundo não é bem o que andam dizendo a você
O mundo não é bem o que andam dizendo a você

O mundo não é bem o que andam dizendo a você

O ecossistema digital está cheio de falsos profetas, charlatões cibernéticos, produtores ininterruptos de vídeos em HD, futurologistas que fariam inveja na Mãe Dinah (RIP)

Sempre digo que o mundo digital é muito fértil. Ele faz aflorar a cada dia novos personagens que se auto intitulam especialistas dessa arena online. E, para isso, vão criando neologismos, termos bonitos, powerpoints que brilham no escuro, palestras com microfoninho à la Madonna afixado na bochecha. Se alguém chegar na sua frente, bater no peito e disser que é um especialista do mundo digital, olhe no fundo do olho dele, dê um passo para trás e desconfie. Para mim, isso ainda não existe. Afinal, estamos todos no mesmo barco em um complexo processo de aprendizagem mútua de como entender as lógicas e engrenagens desses novos espaços comunicacionais online. Nessa arena online que habitamos, devemos dar cada passo de forma minuciosa. Tudo é muito novo, difuso e hesitante.

Analisar esses novos fenômenos do mundo digital, destilarmos nossa opinião e cairmos em argumentos simplistas é uma armadilha fácil. E que vejo muitos “gurus de plantão” caírem. Por isso devemos nos preparar, estudar, pesquisar de verdade, e ter a lupa bem ajustada para tentarmos ter algum tipo de lucidez em interpretar essa nova cena digital. Temos hoje grandes pensadores que entregam a vida no entendimento dos processos e fenômenos da cultura digital, então por que não segurar na mão desses caras e analisar esses novos fenômenos à luz deles? Cito aqui alguns apenas: Erick Felinto, Henry Jenkins, Gisela Castro, Beatriz Polivanov, Nestor Canclini, André Lemos, Beth Saad, Pierre Levy. Tudo gente graúda! E que hoje me ajudam muito. Jogue os nomes deles no Google, YouTube, and have some fun. A dica de ouro é: muito cuidado com o que se lê! Seja muito, mas muito criterioso e não se impressione com mini-CVs gigantescos e cheios de termos bacanas. O mundo digital é um ecossistema cheio de falsos profetas, charlatões cibernéticos, produtores ininterruptos de vídeos em HD, futurologistas que fariam inveja na Mãe Dinah (RIP).

Dentro de toda essa euforia discursiva que o palco do mundo digital nos apresenta, a cada dia novos termos vão sendo criados a bel-prazer no intuito de se criar algum tipo de categorização para esses novos fenômenos. Geração Y, Millenials, Geração X, Z, W, Humanóides etc., etc., são alguns dos termos criados despudoradamente e tenho lido de uns anos pra cá. Outro dia vi um palestrante mostrar uma tabela do Excel com datas, anos e a qual respectiva geração você pertencia. Oi? Não é tão cartesiana assim a parada. Eu não gosto desses termos. Acho que são termos muito marqueteiros e usados de forma irresponsável e indiscriminada. E tem gente que carrega um estandarte com esses edulcorados termos e que fazem vender livros, palestras, ganham views, likes etc.

Os chamados “e-books” sobre esses temas, então, pululam por nossas timelines. Aliás, chamar essas coisas de ebook é rir da nossa cara, né? Outro dia, apareceu um desses em minha timeline, sagazmente amarrado com uma boa estratégia de inbound e captura de emails, e que me dei ao trabalho de baixar um deles. Para minha surpresa, era “vendido” como livro, mas quando baixei se tratava de um PowerPoint safado com cerca de 30 slides, e que me ofereceram como “e-Book”. O que me preocupa e, que me deixa levemente angustiado, é que muitos alunos desavisados e muita gente pelo Brasil afora cai nessa armadilha fácil e toma aquilo como verdade. Afinal, para quem tem sede de conhecimento, qualquer golinho de água serve.

Prega-se que essas novas gerações de jovens são novos seres, que são multi-tarefa, multi-isso, multi-aquilo. Que as crianças hoje em dia fazem mil coisas ao mesmo tempo, que bebezinhos com meses de vida já conseguem desbloquear o iPhone com o dedinho. Mas será que tudo isso são características peculiares dessas novas gerações? Será que é possível termos mudanças geracionais em 20 ou 30 anos apenas? Oras, se dessem um iPad na nossa mão quando éramos criancinhas, será que também não sairíamos dominando o touch-screen de forma íntima? Eu creio que sim. Na nossa época nossos brinquedos eram outros. Eu tenho 37 anos e quando era criança não existia o tal iPad, nem smartphones, nem nenhuma outra engenhoca que se aproxime desses incríveis dispositivos eletrônicos, nem dos vídeo-games que temos hoje. Meus brinquedos eram apenas outros, eram pipas, piões, bolas, jogos de tabuleiro etc. Eletronicamente falando, nem um reles “Pense Bem” eu tive. Mas tive um Atari e um Tele-Jogo. Yes! E ganhei um Colossus do meu pai aos 10 anos de idade. E essa mulekada hoje tem iPad, iPhones, Smart Watches, X-Box, uma miríade de canais de YouTube, aplicativos pedagógicos, Discovery Kids ligados o dia inteiro. Eles são muito mais estimulados do que nós fomos na nossa longínqua infância e, por isso, tendem a adquirir uma capacidade sensório-motora mais polida que a nossa. Simples assim.

O uso do vídeo-game deixa a criança mais inteligente? Metade dos especialistas diz que sim, outra metade diz que não. Ele deixa a criança mais violenta? Metade fala sim, e metade fala não. Games deixam crianças mais ansiosas? Sim! Vídeo-game vicia? Com certeza! Devido a esse tamanho estímulo que essas novas gerações recebem, eles serão mais inteligentes que a gente quando chegarem aos 20 ou 30 anos? A resposta é: talvez sim, talvez não, a resposta é uma folha em branco, não sabemos.

Oras! Mas o filho do meu primo estuda e ao mesmo tempo escuta música com fone de ouvido, e joga Minicraft no iPad, e assiste a um vídeo do canal favorito do YouTube, tudo ao mesmo tempo de forma simultânea. Tsc! Tsc! Não, cara pálida! Ele faz uma coisa de cada vez, ninguém faz mil coisas ao mesmo tempo. Quer dizer, talvez a minha avó Elsa tivesse sido sim multi-tarefa, pois ela criou meu pai e mais 5 irmãos, e cozinhava, lavava, passada, arrumava a casa e produzia cerveja artesanal para vender. Tudo ao mesmo tempo!

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