O Melhor de Todos

Antonio era o seu nome. Entrou no primeiro ano da faculdade mal sabendo ler um texto, quanto mais interpretá-lo corretamente como requeria alguns exercícios que eu passava nas aulas. Sua dificuldade denunciava o imenso fosso que separa o ensino público do particular.

Antonio era o seu nome. Entrou no primeiro ano da faculdade mal sabendo ler um texto, quanto mais interpretá-lo corretamente como requeria alguns exercícios que eu passava nas aulas. Sua dificuldade denunciava o imenso fosso que separa o ensino público do particular, pois se refletia também em outras disciplinas básicas do curso de administração que exigiam um mínimo de aproveitamento do ensino médio. Para piorar sua situação, ainda era pai de família e trabalhava dois turnos como carteiro para poder pagar a faculdade. No começo eu pensei: Coitado, não vai durar nem o primeiro ano!.

Para a minha surpresa, ele passou raspando na minha disciplina. Passou no segundo ano também e hoje está no terceiro ano, com iguais condições aos de seus colegas. Soube depois que seus fins de semana eram despendidos com muita leitura e estudo. Aprendeu a fazer perguntas e a não se envergonhar de sua ignorância. Encantava-se com suas descobertas e se jubilava cada vez que compreendia um pensamento mais complexo. Sua luta nos estudos se igualou à sua luta para ser aceito em meio a colegas mais jovens, muitos pertencentes à outra classe social que o marginalizavam e o deixavam à própria sorte com a mesma expectativa que eu tinha. Pois ele hoje é tratado com o respeito que merece, orgulha-se de suas conquistas e quer mais. Antonio sabe que suas limitações passadas dificilmente permitirão que se torne um aluno brilhante ou que possa atingir o topo da carreira de administrador. Ainda assim, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que ele foi um dos melhores alunos que eu já tive.


Cito este exemplo para introduzir o tema: O melhor de todos. O que significa ser o melhor de todos? O senso comum diz que o melhor aluno é o que tira as melhores notas. O melhor empreendedor é o que constrói um negócio altamente lucrativo. O melhor atleta é aquele que sobe no degrau mais alto do pódio. O melhor escritor é o que vende mais livros.

A idéia do sucesso está sempre associada à figura do vencedor, aquele que chegou lá. O sucesso é atribuído àqueles que acumularam mais bens, chegaram em primeiro lugar, obtiveram os melhores resultados. Aliás, vivemos, na nossa sociedade, uma obsessão por resultados. Só os números mostram o valor das pessoas. Empresários de sucesso recebem convites à profusão para declamar suas histórias, escolas vendem a garantia de vagas nas melhores universidades para atrair alunos, atletas só conseguem gordos patrocínios depois de uma grande vitória, funcionários sonham em atingir o cargo mais alto das organizações.

Porém o sucesso, nesta acepção do termo, tem um significado demasiadamente distante para a maioria de nós, mortais. O topo é uma posição muitas vezes ilusória que só faz sentido para poucos iluminados, levando a uma massacrante cultura de que só pode existir um vencedor sendo os demais perdedores. O estigma do perdedor é bastante presente na cultura brasileira. O segundo e o terceiro lugares não são valorizados e seus ocupantes são rapidamente esquecidos pela sociedade. Pois a minha visão é que o sucesso deve ser medido pela jornada e não pela conquista. Deve ser avaliado segundo o quanto a pessoa evoluiu e cresceu e não só pelo que ela obteve no final. Devemos aprender a reconhecer o valor das pessoas pela comparação entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Quem largou na frente e chegou em primeiro não tem os mesmos créditos daquele que largou em último e chegou em terceiro. O sucesso é, para mim, mais do que o destino, é o caminho percorrido.

O empreendedor sabe reconhecer esta diferença e não se importa de começar do zero ou enfrentar mais dificuldades para constituir seu negócio, pois ele é movido a desafios. Quanto mais complicada for sua empreitada, maior será o valor atribuído. O sujeito que vai montar um sofisticado restaurante e já começa contando com tempo disponível, uma boa idéia, recursos financeiros e materiais, boa assessoria e apoio, tem altas chances de construir um negócio de sucesso e ser reconhecido publicamente como um grande empreendedor. Mas para mim, o empreendedor é melhor simbolizado pelo ambulante que começou do nada, com um carrinho de frutas e, às custas de seu próprio esforço e determinação, abriu novas fronteiras, adquiriu conhecimentos e competências e finalmente conseguiu abrir sua pequena sorveteria artesanal.

As dificuldades e fracassos forjam empreendedores. Enquanto a maioria das pessoas vê um fracasso como um fim trágico, o empreendedor vê apenas como mais uma etapa do seu caminho rumo ao sucesso. Os problemas que surgem e as limitações encontradas servem apenas como estímulo para o empreendedor. Um estímulo para incentivá-lo a superar desafios e obter o auto-desenvolvimento necessário para seu crescimento. O melhor de todos é, assim, aquele que vai mais longe, considerando de onde partiu. Você é melhor que os demais se você cresceu mais do que os outros, independentemente de onde qualquer um tenha chegado.


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