O medo real e o medo aparente

Uma analogia entre vento e medo. Da confirmação de que ambos, quando batem forte, assustam de verdade. Da constatação de que precisamos ter coragem para admitir que a realidade e o medo andam, naturalmente, juntos

Há uns dias atrás eu aprendi em um curso o significado de vento real e vento aparente. Ainda há uns dias atrás aconteceram os atentados simultâneos em Paris. Este último acontecimento proporcionou aos habitantes do velho continente europeu a horrível experiência de sentir uma tensão ‘nível 4’ – aquela de conviver com um ‘perigo iminente’. De repente se aproximou da gente (que cá vivemos) a temidíssima hipótese da morte por motivos trágicos e brutais.

Isso me convidou a fazer uma analogia entre essas duas coisas que aprendi recentemente. Ou seja, uma analogia entre: vento e medo. Constatando também que ambos, quando batem forte, assustam de verdade.

Aprendi que vento real “é aquele que sentimos quando estamos parados, é o deslocamento de massas de ar, derivado dos efeitos das diferenças de pressão atmosférica”. Quando se veleja ele não importa tanto, como o ‘medo real’ que na prática não interfere em nossa rotina. O ‘medo real’ seria aquele em que sabemos que viver a vida é arriscado, perigoso. Que “para morrer basta estar vivo”. E que nunca saberemos quando e como aquela fatídica hora chegará, nem saberemos com quais loucos iremos nos encontrar durante as nossas idas e vindas diárias. Contudo, mesmo que este medo exista, nós nos esforçamos constantemente no sentido de reprimi-lo. Mais do que guardar e esquecer o que e onde guardamos, nós nos esforçamos para manter a tampa fechada e, no intimo, nunca relaxar nossa vigilância.

“Ao mesmo tempo que o temor da morte está sempre presente no funcionamento psicológico normal do nosso instinto de autopreservação, também é total o nosso esquecimento desse temor em nossa vida consciente.”

Enquanto isso, o vento aparente é o vento que sentimos quando colocamos o nosso rosto para fora da janela do carro. É este vento que interessa aos velejadores, pois é ele que move ou paralisa o barco. Tão importante é quanto o ‘medo aparente’. O ‘medo aparente’ seria aquele medo que sentimos diretamente dentro do peito. É o medo que nos angustia de verdade. Por conseguinte, o ‘medo aparente’ é aquele com o qual temos que lutar contra, é o qual temos que domar conscientemente para não pirar e não paralisar.

E eu te digo que enfrentar o medo provocado pela ameaça de terrorismo é difícil pra caramba. Se você não se autocontrolar o pânico se instaura dentro de você. Qualquer mochila passa a ser um objeto suspeito. Multidões e lugares com grande movimento de pessoas praticamente saem da sua rota, por mais rotineira que ela possa ser. Isso e tantas outras coisas mudam nessa mesma toada negativa.

Por trás dessa sensação de insegurança diante do perigo eminente reaparece de forma ‘aparente’ o ‘medo real’ – o medo da morte. E segundo especialistas este medo “sofre elaborações muitíssimos complexas e se manifesta de muitas maneiras”. Em muitas vezes, isso é algo tão forte que se você não se cuida, você realmente pira e entra em paranoia.

Tanto que as autoridades italianas não cansam de falar nos meios de comunicação que o terrorismo não pode nos vencer pelo medo. Que temos que enfrentá-lo com a coragem de continuar vivendo as nossas vidas normalmente, como sempre fizemos.

"Só existe coragem quando há desafio. Ou seja: ser corajoso é escolher o certo quanto este é difícil. (...) Coragem também não é o contrário de medo (...) O temor é, na verdade, um ponto de partida para uma alma verdadeiramente corajosa."

Nós cidadão comuns – você e eu - acabamos por ter que guerrear com o nosso extinto de alta preservação, que funciona como um constante impulso de manter a vida e dominar os perigos que a ameaçam.

Nunca, na história dos meus trinta e poucos anos, eu achei que viveria em um continente em guerra. Guerra para mim era coisa do passado, apesar de sempre temer as ameaças de uma possível 3º Guerra Mundial. É ainda mais difícil encarar que - nos dias de hoje - estamos vivendo uma guerra ideológica, este é, pra mim, o verdadeiro terror dessa guerra. Eu sempre acreditei na humanidade, sempre acreditei em "liberté, egalité, fraternité" e na ideia de que havíamos aprendido algo importante nas lições de história. Mas não, não aprendemos lição alguma e ainda não evoluímos como seres – humanos…

“Alô, alô, Marciano

Aqui quem fala é da Terra

Pra variar, estamos em guerra

Você não imagina a loucura”

Contudo, eu estou compreendendo que os nossos temores são formados com bases nas maneiras pelas quais percebemos o mundo perigoso em que vivemos. As nossas forças são limitadas diante desses perigos. Não temos controle verdadeiro algum, mas eles – aqueles outros malucos, também não o tem. Não temos domínio sobre qualquer coisa, exceto sobre as nossas atitudes. Estou aprendendo que eu e você, “nós”, precisamos nos apropriar daquilo que “o psicanalista Leon J. Saul chamou com propriedade de ‘Sustentação Interna’ - o sentimento de confiança corporal em face da experiência que faz com que a pessoa atravesse mais facilmente sérias crises da vida”. Pois, só venceremos essa guerra contra o terror com a coragem. Coragem de ir e de vir, como sempre. Coragem de admitir que a realidade e o medo andam, naturalmente, juntos. Com a coragem de viver lá fora: no mundo!

"Porque a coragem é sempre um salto de fé: a aposta, talvez um tanto alucinada, de que as coisas no fim possam dar certo. E, se elas derem errado, a aposta de que haverá sempre um consolo ao corajoso: o de, ao menos, ter lutado o bom combate."

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Citações, fontes e fontes de inspiração: BECKER, Ernest. A negação da morte. Uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. 6º edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2013. | LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio – Ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri, SP: Manole, 2005. | Matéria: “Coragem”, de José Francisco Botelho, publicada na Revista Vida Simples, de Fevereiro, 2014. Edição 141. | Vento aparente, publicado em Wikipédia, a enciclopédia livre. | Música: Alô, Alô Marciano, de Rita Lee e Roberto de Carvalho.

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