O líder deve ser amado ou temido? Uma lição de liderança segundo Maquiavel

O artigo foi elaborado com base no estudo minucioso da obra "O Príncipe" de Maquiavel, destacando trechos que ajudam a compreender o papel dos líderes e quais as posturas que o mesmo deverá manter mediante sua equipe. Além da aplicabilidade a liderança, o artigo acadêmico terá por objetivo a junção da disciplina de filosofia com a disciplina de Gestão de Pessoas, e através desta acrescentar o pensamento dos filósofos e atualizá-lo no contexto das organizações atuais

A reflexão deste artigo permeará duas esferas que num primeiro momento possam apresentar um caráter divergente, porém ao serem aplicadas e conceituadas no lógica Maquiaveliana possuem uma conexão fundamental.

A primeira esfera é o fato de o líder ser temido. Façamos uma equiparação entre ser temido com a autoridade de um líder mediante sua atuação no gerenciamento de gente, mas primeiramente vamos brevemente compreender o que é autoridade. Max Weber (famoso sociólogo do período moderno) define três tipos de autoridade: a burocrática, a tradicional e a carismática, porém para a continuação deste tópico será destacado somente a carismática. Pois para Weber a autoridade carismática baseia-se nas qualidades do indivíduo, na veneração do caráter exemplar de uma pessoa. Sendo, uma autoridade nascida de uma qualidade gera no liderado um sentimento de temor (temor no sentido mais amplo, ou seja, um respeito pela importância dado a determinada pessoa). Temer ao líder é respeitá-lo enquanto pessoa que influencia sua equipe, tal respeito acrescenta ao líder uma barreira que o protege de eventuais conspirações, pois uma postura de liderança pautada no exemplo e no respeito o manterá com uma equipe unida e leal.

Há certas situações que exigem do líder uma atitude que possa apresentar uma imagem de cruel para seus liderados, neste sentido Maquiavel ensina que o mesmo não deve se preocupar com essa imagem se sua intenção for reta ao manter sua equipe unida.

“O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu propósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que outros que, por muita piedade, permitirem os distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo. Tais ocorrências, de modo geral, prejudicam toda a comunidade, enquanto as execuções ordenadas pelo príncipe só afetam uns poucos indivíduos isolados”. (MAQUIAVEL, 2006, 100).

Nota-se que a afirmação de Maquiavel apresenta uma questão muito relevante e atual, um líder empresarial num primeiro momento expõe a seus liderados o código de ética da empresa, este por muitas vezes pode ser visto como rigoroso ou cruel em determinadas situações, mas uma organização necessita de parâmetros que norteie as ações dos colaboradores, caso contrário uma ação sem fiscalização leva ao assassínio, como afirma o filósofo, traduzindo para o ambiente organizacional, a perda de controle da equipe. O líder para manter essa primeira esfera na análise de resultados precisa ter uma postura de seriedade e comprometimento visando a organização dos projetos de sua empresa.

Agora como um líder faz para ser amado? Os primeiros parágrafos deste tópico trataram de conceituar o temor como um respeito a uma autoridade, portanto o líder deve ser temido em sua função, porém deve também ser amado. E para a que haja este sentimento, Maquiavel ensina que para o líder desempenhar um papel justo com seus liderados deverá fornecer oportunidades para que os mesmos possam desempenhar suas potencialidades mediante a organização.

“Os príncipes devem demonstrar também apreço pelas virtudes, dar oportunidades aos mais capazes e honrar os excelentes em cada arte. Devem, além disso, incentivar os cidadãos a praticar pacificamente sua atividade – no comércio, na agricultura ou em qualquer outro ramo profissional. Assim, que uns não deixem de aumentar seu patrimônio pelo temor de que lhes seja retirado o que possuem, e outros não deixem de iniciar um comércio, com medo de tributos, devem os príncipes, ao contrário, instituir prêmios para quem é ativo e procurar de um modo ou de outro melhorar sua cidade ou Estado. Além disso, precisam manter o povo entretido com festas e espetáculos, nas épocas convenientes; e como toda cidade se dividem em corporações ou em classes, devem dar atenção a todos esses grupos, reunir-se com seus membros, de tempos em tempos, dando-lhes um exemplo de solidariedade e munificência – guardando sempre, contudo, sua dignidade majestosa, que não deve faltar em nenhum momento”. (MAQUIAVEL, 2006, 135).

A citação de Maquiavel aponta a segunda esfera da análise de resultados, pois um líder para ser amado e estimado pelos seus liderados age com discernimento e oferece aos mesmos possibilidades de apresentarem seus conhecimentos nos diversos departamentos da empresa, incentivando as pessoas a mostrarem suas capacidades, concedendo-lhes prêmios para atitudes que geram aprendizado para a instituição e contribuição para inovações. Deve o líder promover encontros que visam entreter e interagir sua equipe, possibilitando um maior conhecimento das individualidades quando manifestadas em grupo. E como último conselho, Maquiavel orienta o príncipe a reunir-se com toda a cidade em todas as suas dimensões, dando a todos a devida atenção, ou seja, o líder deve atentar-se a reunir com todos os grupos de sua empresa, respeitando as diferenças peculiares de cada e valorizando as variedades de culturas existentes entre os mesmos.

Entretanto evitar ser odiado não é tudo. O Príncipe também deve fazer de tudo que puder para ser estimado. Algumas das melhores maneiras de se conseguir isso são: realizar grandes empreendimentos e exibir grandes virtudes; dar exemplos notáveis de sua administração interna; se mostrar sempre a favor ou contra alguém, nunca neutro; divertir o povo com festividades e espetáculos; estar sempre presente em assembleias de corporações e classes sociais, dando exemplo de afabilidade e magnificência, mas sempre preservando sua majestade e dignidade, etc.

Por fim, podemos concluir que para um bom desempenho da empresa, o líder precisa ser temido, enquanto uma autoridade legítima, e amado por possibilitar o crescimento e o desenvolvimento das potencialidades das pessoas que compõem sua organização.

REFERÊNCIA:

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2006.

ExibirMinimizar
aci institute 15 anos compartilhando conhecimento