O fim da vontade própria
O fim da vontade própria

O fim da vontade própria

“O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”

Em sua rotina profissional, é provável que você raramente diga às pessoas o que gostaria de dizer. Há muitas explicações para esse comportamento, e talvez a razão mais óbvia venha do inconsciente coletivo, afinal, ‘a corda sempre arrebenta do lado mais fraco’.

Por razões cartesianas, há um quê de verdade aí.

Seria absolutamente inconcebível, para não dizer constrangedor, se todos jogassem aos quatro cantos mentiras sinceras, falsas verdades ou afirmações inapropriadas. Queiramos nós ou não, sobrevivência e gestão andam lado a lado, e qualquer verbalização fora do código de conduta das empresas trará um mal-estar recíproco.

Vamos mergulhar novamente no campo das artes e fazer um paralelo com o mundo corporativo.
Quando falamos em obras-primas literárias, quase sempre soa lugar-comum tratar os filmes que as representam como medíocres e lacunares. 1984, de George Orwell, é uma exceção.

Ainda extrapolando Blade Runner – O Caçador de Androides do texto anterior e a ligação osmótica entre cinema e literatura, 1984 é desses livros cuja mensagem não pode ser ignorada. Ciberpunk e gótico ao mesmo tempo, a obra traz o conceito da ‘entidade’ Big Brother muito antes de sua apropriação pelo sadismo incontrolável da TV. No texto clássico, o ‘Grande Irmão’ (o olho que tudo vê) controla a privacidade humana por meio de telões espalhados por todos os lados. Vale lembrar que isso 50 anos antes do advento da ciberpirotecnia!

Dirigido e concebido magistralmente por Michael Radford no cinema, 1984 é a celebração do fim da vontade própria. Ao contrário do que dizem e assim como a Revolução dos Bichos, trata-se de uma metáfora sagaz à falência da privacidade e à escravidão social, e não uma crítica aos regimes totalitários. O totalitarismo, no caso, é fim e não meio.

1984 tem um quê de Michel Focault e seu panóptico do livro Vigiar e Punir. Para Focault, a disciplina é interiorizada intrinsecamente à nossa vontade, sendo exercida por três meios absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Disso resulta a máxima do poder como moldador das relações humanas.

Pela razão e condição, todos têm dentro de si um Winston Smith à procura da liberdade de ação e pensamento, mas é Albert Camus quem melhor define a essência humana nesse contexto: “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”.

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