O EXECUTIVO PLACEBO

Eu sou tão bom ator, que finjo que sou cantor e compositor e todo mundo acredita.Raul Seixas Placebo é a primeira pessoa do singular do futuro indicativo do verbo latino placere, que significa agradar. Na medicina, o placebo é uma forma farmacêutica sem atividade, cujo aspecto é idêntico ao de outra farmacologicamente ativa. Dessa forma, caso o placebo provoque algum resultado, este será, apenas, de natureza psicológica. Já ouviu, viu ou conviveu com um executivo-placebo? Acredito que sim, a menos que você nunca tenha trabalhado ou caso tenha alguma séria disfunção perceptiva, pois eles estão por todos os lados. Em todas as empresas existem aqueles funcionários que são verdadeiros placebos. Para um observador desinformado (esteja ele no baixo ou no alto escalão da empresa) esse funcionário é indispensável, pois, além de entregar ótimos resultados, tem sempre boas idéias e é, além disso, confiável. No entanto, as pessoas que convivem diariamente com esse mesmo funcionário, ou que compartilham tarefas com ele, sabem que a verdade não é bem essa. Geralmente, o executivo-placebo praticamente não contribui no desempenho das tarefas. Ao contrário, muitas vezes consegue até atrapalhar as pessoas que estão trabalhando. Ele também tem o mérito de se apropriar das idéias de outrem e, além disso, sempre concorda com todo mundo, mesmo que pessoalmente ele discorde do que está sendo falado. Ora, se todos sabem que esse tipo de executivo existe, e que ele não agrega nenhum valor para a empresa, porque a gerência não toma as providências adequadas e o demite? Existem duas respostas para essa pergunta. Primeira resposta: os executivos-placebos são puxa-sacos extremamente competentes. A grande diferença entre o executivo-placebo e o puxa-saco mediano é justamente o fato de que o puxa-saco mediano não é tão competente nisso quanto o seu colega placebo. O puxa-saco mediano vive ao lado do chefe, pergunta se ele quer cafezinho, elogia o novo penteado. E o Tag-Hauer novo do chefe então, é o must! Isso é fatal. Em pouco tempo o chefe percebe esse puxa-saquismo declarado e opta ou por demitir esse funcionário ou por mantê-lo em uma função pouco importante. Enquanto isso, o executivo-placebo entende a lógica do puxa-saquismo. Quando o chefe não está na empresa, ele conversa com todo mundo, fala de futebol, mulher e cerveja com os homens e de música e moda com as mulheres. Porém, quando sabe que o chefe está na empresa, mais do que depressa ele arregaça as mangas da camisa, dá aquela despenteada básica no cabelo que passa a impressão de trabalho árduo e se põe a trabalhar, ou pelo menos a fingir que trabalha. Outro sinal típico da existência do executivo-placebo: as reuniões. Todo executivo-placebo sabe que os chefes têm imensa libido por uma expressão: trabalho em equipe. E, sabendo disso, tratam de repetí-la quantas vezes conseguirem, mesmo que na prática isso esteja longe de acontecer. Nas reuniões o executivo-placebo afirma que toda a equipe tem que estar envolvida com o novo projeto e que é muito importante desenvolver as capacidades interpessoais dos funcionários. E, pasmem, muitos chefes caem nessa conversa. E, como diria um amigo, trabalhar em equipe, saber se relacionar, entre outros, deixa de ser competência básica e passa a ser um diferencial. Sábio colega. Outra competência inerente ao executivo-placebo: ele não puxa-saco só do chefe, ele puxa-saco de todo mundo. Por mais incrível que isso pareça, um executivo-placebo que se preze NUNCA discorda de ninguém. Ele sempre concorda com todo mundo. É aquela pessoa que acha sua proposta ideal, simplesmente maravilhosa, e te motiva a apresentá-la ao seu superior. Incentivado pelo placebo você vai até o superior e apresenta a tal idéia. O chefe, como já era de se esperar, diz que vai pensar sobre sua proposta e, assim que possível, te chamará para conversar novamente. Nesse mesmo dia, o chefe chama o placebo para jantar e, no restaurante, comenta sobre a sua proposta e quão ruim ela é. Nisso, o placebo afirma que realmente a idéia não é boa e ainda comenta que realmente, apesar de seus cursos, qualificações e etc. você é uma pessoa de poucas luzes. No dia seguinte, seu chefe te chama e diz que, infelizmente, devido à falta de recursos financeiros, cultura organizacional e blá-blá-blá não será possível implementar o seu projeto. Você, triste com a notícia, procura o placebo para desabafar. Ele, de um modo inexplicável, te dá apoio, diz que o projeto era realmente muito bom, mas faz você entender o chefe e compreender que o momento realmente não permitia a implantação do projeto. Ou seja, no final da história, ele não discordou de ninguém e foi leal aos dois. Esse é o grande executivo-placebo. Devido a todas essas qualidades, muitas vezes os executivos-placebos são extremamente valorizados nas empresas em que trabalham. Segunda resposta: muitos chefes são eles próprios executivos-placebos. Dói ouvir essa verdade, mas ela tem que ser dita: muitos executivos-placebos conseguem galgar os mais altos cargos organizacionais. Muitas vezes sua forma desleal de agir acaba colocando os placebos no topo da pirâmide organizacional e, uma vez estando lá, ele tratará de identificar e cultivar os placebinhos que virão atrás dele. É por isso que, muitas vezes, funcionários de médio escalão tentam abrir os olhos dos seus chefes sobre a placebisse de seus colegas e acabam se desiludindo com os resultados dessas investidas. Sem notar que os próprios chefes são placebos, muitas vezes esses funcionários se desmotivam por não entender a reação dos chefes. E é assim que a placebez se perpetua. Bom, depois de ler tudo isso, você está chegando à conclusão de que é mais compensador ser um placebo do que se um funcionário realmente competente e interessado? Se você está pensando assim, por favor, trate de parar com isso já! E digo para parar com isso já por somente um motivo: os executivos-placebos só se dão bem em organizações medíocres; aquelas organizações que nunca serão referências nos seus mercados. De certa forma, a mediocridade dos placebos acaba contaminando toda a cultura organizacional. Em empresas sérias, os placebos nunca serão valorizados. Eles podem até existir, com seu puxa-saquismo e descaramento, mas os resultados e objetivos organizacionais hão de falar mais alto e eles serão identificados e demitidos. Por isso esteja sempre atento, no ambiente organizacional, ao que acontece ao seu lado, à dinâmica corporativa. Caso você perceba que na sua empresa acontece tudo o que foi descrito acima trate, o quanto antes, de procurar uma nova empresa para trabalhar, pois, a menos que você também seja um placebo, você não durará muito naquela organização. Não porque você será demitido, mas sim porque você não agüentará permanecer nela.
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