Café com ADM
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O Economista rebelde

Pequena homenagem a Andre Gunder Frank, após saber da sua morte no final de Abril na sua casa do Luxemburgo



Andre Gunder Frank (1929-2005), alemão de berço, mas eterno «globe-trotter», foi um ícone da geração dos anos 1960 como «pai» da teoria da dependência (sobretudo latino-americana) e voltou a chocar a Academia nos anos 1990 com a sua visão da geo-política mundial centrada na Ásia desde há muitos séculos. Tive o privilégio de o entrevistar em Janeiro de este ano, e o seu ponto de vista sobre o regresso da Ásia ao centro da História tocou-me particularmente.

Nunca foi Prémio Nobel, nem muito bem visto pela Academia. Economista rebelde é dos mais citados e discutidos do mundo pelas suas posições polémicas ao longo de mais de 40 anos foi o «pai» da teoria da dependência latino-americana e da necessidade de políticas públicas anti-imperialistas nos países dependentes nos anos de 1960, e voltou a afirmar-se como contracorrente nos anos de 1990 quando deu uma machadada na visão eurocêntrica da História Mundial.

Ainda em Janeiro revelou na Janelanaweb.com e em Gurusonline.tv o projecto de estudo geo-político e geo-económico em que estava envolvido sobre a reavaliação do papel da Ásia. Preparava uma sequela do seu polémico livro de 1998, Re-Oriente: Economia Global na Idade Asiática, de 1400 a 1800, que ficou a meio. A tese provoca anticorpos nos historiadores eurocêntricos e nos políticos atlantistas: «O século XXI será de novo asiático. A hegemonia ocidental é muito recente, data de há 150 anos, e será provavelmente passageira. O equilíbrio do poder regressa à Ásia, onde sempre esteve até à 2ª Guerra do Ópio, em 1860», afirmou-nos, então. Um dos seus últimos artigos foi publicado, em Janeiro, no Asian Times com o título sugestivo de O hegemonista nu, referindo-se aos Estados Unidos.

Morreu aos 76 anos, na sua casa no Luxemburgo, de doença prolongada, o eufemismo que sempre anuncia estes falecimentos. Andre Gunder Frank, apesar de uma luta contra o cancro nos últimos doze anos, manteve a firmeza da pena e a resposta rápida no correio electrónico o movimento regular envolvia mais de 1500 endereços no seu «e-mail».

Alemão de origem, nascido em Berlim em 1929, filho de mãe judia acabou por fugir para a Suíça aos quatro anos face à ascensão do nazismo e em 1941 foi para os Estados Unidos. Depois de múltiplos empregos e de ter sido dado como intelectualmente inapto por um teste psicotécnico, doutorou-se na cova das serpentes, como ele ironizava. Em 1957 findou o doutoramento na Universidade de Chicago, onde postulava o Tio Miltie como ele chamava a Milton Friedman, o pai dos «Chicago Boys». A sua reacção ao friedmanismo foi teórica e prática esteve no Brasil no tempo de João Goulart e no Chile com Salvador Allende, e chegou a receber uma sugestão de Che Guevara para ser ministro de Economia em Cuba.

Naquela época juntou-se ao grupo dos economistas de esquerda agrupados nos Estados Unidos em torno da revista Monthly Review, criada em 1949 por Paul Sweezy (que faleceu no ano passado) e por Paul Baran. Foi na Monthly Review que expôs a sua teoria do desenvolvimento do subdesenvolvimento que em 1966 passaria a livro e provocaria um enorme entusiasmo nos economistas radicais latino-americanos sob a bandeira da teoria da dependência. O artigo valer-lhe-ia também a proibição de regressar aos EUA.

Depois do golpe de Augusto Pinochet no Chile, Frank regressou ao seu país natal, a Alemanha, e percorreu diversos países entretanto, ensinando um arco tão ecléctico que ia da antropologia, à economia, geografia, história, relações internacionais, ciência política e sociologia mas Frank diria, rindo-se, estar tudo ligado. Nos anos de 1980, mudou de agulha, reviu muitas das suas posições do passado e dedicou-se apaixonadamente (como sempre fazia com tudo) à história geo-económica e geo-política e aos seus ciclos longos de formação do que os académicos chamam de sistema mundial. Os obituários asiáticos destes últimos dias confessam alguma orfandade perante a morte de um dos arautos do regresso da Ásia ao centro da História.

NOTA PESSOAL: Deparei com o nome de Andre Gunder Frank nos anos 1970 quando estudei Economia Política em Portugal e me tornei assinante da Monthly Review durante alguns anos - exemplares que ainda hoje guardo religiosamente. Traduzi na altura alguns artigos dele e daquela escola de pensamento e estive convencido durante algum tempo da sua eficácia histórica. Depois houve um interregno...até 2005, quando reencontrei Frank trabalhando no tema da Ásia. Mal julgava que seria, apenas, por poucos meses, mais de 30 anos volvidos.
Apesar de doente, a sua resposta foi na hora e as trocas de e-mail que se sucederam calorosas.

Entrevista em Gurusonline.tv (em inglês) em http://www.gurusonline.tv/uk/conteudos/gu_report.asp

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