O dia em que fui demitido

Você não pode mais contar com o seu emprego - estar fazendo tudo certo não é mais uma garantia, e você nunca estará a salvo

Me lembro de ter saído de férias uma semana antes. Férias planejadas, nenhum solavanco repentino que me incitasse a pedi-las uma semana antes. Na ocasião perguntei ao meu chefe: “Tem certeza de que está tudo bem se eu sair de férias, dada a situação?” E ele: “Com certeza, vai tranquila, nem te preocupa”. Eu fui tranquila, com a consciência de alguém que tinha desempenhado seu trabalho certo, de uma maneira transparente e objetiva. Nos últimos meses eu me acostumara em demasiado com o trabalho - rotinas, procedimentos e figuras já eram padrões para mim. O que é bom, porque quanto maior a prática, melhor a excelência de desempenho. Não foi suficiente.

Antes de sair eu havia tido uma pequena discussão com meu colega de trabalho. Pequena, a meu ver, porque foi relativa ao ar-condicionado no escritório. Na verdade nem discuti, mas há algum tempo ele já vinha se indispondo comigo, acredito que por razões de temer perder seu emprego, já que ele era o típico procrastinador – que ainda culpava os outros porque, no final, o trabalho demorava tanto a ser feito que dava errado mesmo -, e eu costumava resolver ou encaminhar as coisas na medida em que elas surgiam ao meu conhecimento (na minha caixa de e-mail). Resumindo: eu desliguei o ar-condicionado. Nada fora do comum, simplesmente estava chovendo e ele saiu do trabalho para fazer alguma coisa de seu interesse (mas era sempre pelo bem da empresa), e, eu fiquei. Ele voltou, ligou o ar e não falou nada. Meia hora depois estava frio de novo, então fiz o mesmo, desliguei o ar. Sem alardes. Não obstante a futilidade do assunto, ele fez toda uma revolta infantil, disse algo como “Quando o chefe voltar a gente conversa”, não apareceu para trabalhar no dia seguinte (apareceu às 17:00h, na verdade, para enviar três e-mails e marcar presença), e, em nenhum dia subsequente em que eu estava lá.

Continuei trabalhando normalmente, relatei a situação ocorrida ao meu chefe, e pela sexta-feira, em que ele já havia retornado de viagem (o ocorrido foi na quarta-feira), ele apenas me disse que tínhamos que conversar e resolver essa situação. Por mim tudo bem, eu nem sabia o que eu tinha de resolver, afinal nunca tive nenhum desentendimento maior com meu colega, mas há tempos ele já não falava comigo e era extremamente mal-educado em várias situações triviais.

Bom, o fato é que, foi meu colega quem falou o que falou, começou uma tempestade, saiu batendo a porta e não veio trabalhar nos três dias em que ainda estive lá, e até hoje não fiquei sabendo que tipo de fofoca e comentários ocorreram quando saí de férias. Continuei trabalhando normal e até fiz horário adicional, porque ele sumiu da empresa naqueles dias. No tempo em que saí de férias, minha consciência estava tão limpa que pesava - a meu favor. Ou melhor, eu nem tinha consciência, porque agi de modo tão normal e profissional que não havia o que questionar.

Após meu retorno daquela uma semana de férias, na segunda-feira meu chefe estava extremamente simpático comigo. Primeiro sinal da demissão. Sempre tive uma boa relação com meu chefe, até tínhamos idéias em comum, mas naquela segunda-feira ele estava excepcionalmente simpático. Eu não tinha experiência prévia com demissões, e não me deparei com a lógica do momento. Nem precisava. O outro não estava lá. Não apareceu mais na minha presença, e se você já percebe um mentiroso quando ele não te encara enquanto fala, quem dirá quando foge de ficar no mesmo ambiente que você?

Na terça-feira pela manhã, meu chefe disse que precisávamos conversar seriamente. Sinceramente achei que meu colega seria demitido, devido ao comportamento extremamente infantil e anti-profissional. Não foi a situação. Meu chefe disse que dada a situação ocorrida, que já vinha se prolongando a algum tempo, e não tinha solução (detalhe que meu colega nunca falava comigo, mal me respondia, não me olhava nos olhos por mais de três segundos e estava sempre se achando o engraçadinho, expondo remédios de tarja preta e simulando que os tomava devido à pressão do trabalho), ele conversou com a matriz da empresa, e foram-lhe apresentados dois caminhos – os quais imagino exatamente quais eram, eu ou meu colega -, e tinham optado em conjunto (meu chefe) por essa opção: a partir daquele dia estariam rescindindo meu contrato com a empresa.

Eu era estagiária lá, havia mais de um ano, e trabalhava. Esse foi o problema. Eu não fazia piadinhas (minto, até fazia, no limite do normal) ou me fazia de vítima para convergir as atenções, eu simplesmente trabalhava. Aproveitei para finalmente falar a verdade sobre meu colega, no caso de que meu chefe não a tivesse percebido, que ele procrastinava tudo, não fazia o necessário, agiu como uma criança de 12 anos ao invés de um homem de 40, perante o fato de faltar ao trabalho por um motivo banal, se achava o centro do mundo com seu humor estúpido e parou de falar comigo sem motivo, me culpando por isso, até hoje não sei como. E falei simplesmente: “Não é justo, e não faz sentido”. O quê ele disse? Um breve sim com a cabeça e disse um “Eu sei”, fazendo aquela expressão de contrariedade sem opção. Era mais fácil, mais conveniente me demitir, não?

Meu ex-chefe sempre foi de falar da situação do Brasil e do “jeitinho brasileiro”. Às vezes conversávamos sobre alguns pontos, e no geral ele concordava com essa coisa de que o país não vai para a frente por causa do tal “jeitinho” – eis que ele comprovou sua maior controvérsia, ser adepto do jeitinho brasileiro de resolver as coisas – o mais fácil, o mais conveniente, independente da razão.

Após, todos me ignoraram, RH, empresa. O RH nem respondia mais meus e-mails, já que meu vínculo seria cortado. O que adquiri – mais experiência. Eu sinceramente acreditava que, no geral, meu ex-chefe era uma pessoa justa, ao menos ele parecia uma pessoa relativamente boa. Engano meu. O brasileiro jaz nessa hipocrisia própria, ele afirma que não se conforma com o Brasil, mas na hora de resolver as coisas, apela para o jeito mais fácil e prático. Por quê demitir um efetivo se ele é meu amigo? Mesmo que ele faça um péssimo trabalho, melhor deixar como está.

E assim segue o Brasil e os nossos políticos; aprendemos com eles ou será que eles apenas propagam a cultura da corrupção? Eu acho que há uma grande diferença entre ser justo e ser tolo, e prefiro ser considerada tola perante o mundo e pagar o preço que a justiça exige. Dentro de mim eu aprendi a reconhecer a hipocrisia, hoje olho para alguém e sei se a pessoa está mentindo, se é falsa comigo, e, muitas outras nuances. Minha primeira demissão. Se houvesse motivo real, tudo bem, mas sinceramente, demitida por causa de um ar-condicionado? Não. Demitida porque era mais conveniente.

Acho necessário expor o que acontece. A verdade é uma necessidade, hoje em dia. Antigamente era questão de honra, de caráter. Hoje, é o que precisamos, falar a verdade, e não propagar a mentira, o discurso ensaiado, a polidez vazia. Como disse Nietzsche: “Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo”. Eu perdi um emprego e ganhei (mais) experiência, mas não perdi a mim mesma, não vendi minha personalidade, não comprei um privilégio ou um estado ao preço da hipocrisia. Fui transparente, agi de modo ético e profissional, e encarei a verdade. Afinal, se me contradigo perante mim mesma, quem sou eu?

Aos que ficam, seus afins.

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