O berço da Globalização

Um americano e um brasileiro apresentaram na Áustria a tese de que os Portugueses de Quinhentos lançaram a primeira vaga de «contracção» do planeta, apoiados em duas gerações de inovações tecnológicas e geo-estratégicas

Um americano e um brasileiro apresentaram na Áustria a tese de que os Portugueses de Quinhentos lançaram a primeira vaga de «contracção» do planeta, apoiados em duas gerações de inovações tecnológicas e geo-estratégicas


A globalização foi uma inovação dos portugueses. Apesar das tentativas geo-estratégicas chinesas e mongóis dos séculos X a XV, foram os portugueses que inauguraram a globalização como um processo evolutivo de criação de um sistema mundial de 1415 até 1578. Faltou «algo» aos projectos mongóis de «império mundial» e às expedições marítimas no Índico e Atlântico do almirante Zheng He, na dinastia Ming, entre 1405 e 1435, bem como às Repúblicas marítimas de Génova e Veneza que dominaram o Mediterrâneo nos séculos XIII e XIV. Permanece, também, em muita literatura recente, a identificação errónea do «take off» da globalização com as viagens de Cristóvão Colombo às Caraíbas (1492-1503) e de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519-1521), ambas ao serviço de Espanha.



Esta tese foi apresentada, agora, pelo americano George Modelski e pelo brasileiro Tessaleno Devezas professor na Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã no ambiente bucólico de um dos palácios de Verão dos Habsburgos, em Laxenburg, a 16 quilómetros de Viena, de Áustria. O castelo, onde viveu a jovem «Kaiserin» Elizabeth mais conhecida por Sisi é desde 1973 a sede do International Institute for Applied Systems Analysis. O estudo, intitulado «The Portuguese as system builders in the XVth-XVIth centuries: A case study in the role of technology in the evolution of the world system», foi um dos pontos altos da Conferência Globalização como um processo evolutivo, apoiada pela Fundação Gulbenkian e que reuniu 25 investigadores de todo o mundo especializados no tema.


O ponto de vista de Modelski e Devezas é que a globalização «é um processo histórico longo de evolução do sistema mundial, que é multidimensional». É prejudicial, por isso, reduzi-lo apenas à vertente geo-económica (comércio de «commodities» e fluxos de investimento internacionais) ou datá-lo a partir do século XIX com o crescimento do imperialismo europeu posterior à Revolução Industrial. O primeiro uso do conceito «global» apareceu em 1892 nas páginas da revista Harper´s e em 1961 globalização entrou no dicionário Webster, acabando por destronar nos anos 1970 o termo francês «mundialização». Desde os anos 1980 tornou-se uma «buzzword» há mais de 5 mil títulos publicados e no Google podemos encontrar, só em quatro idiomas (inglês, francês, castelhano e português), mais de 170 milhões de entradas.


Fractura histórica
Os dois investigadores argumentam que a globalização foi um processo de aprendizagem que emergiu e amadureceu ao longo de vários séculos e que tem o seu berço numa «fractura histórica» inovadora provocada pelos portugueses desde os tempos do monarca João I e do príncipe Henrique, o Navegador. O investigador John L. Casti, do Círculo vienense Kenos, atribuiu aos portugueses uma mudança de estado de espírito, de valores um novo mood , que conduziu à globalização como fenómeno social.

Mas a globalização só foi possível porque ocorreu uma «clusterização» de inovações tecnológicas e geo-estratégicas realizadas pelos portugueses. Modelski e Devezas, baseados numa recolha histórica feita por um grupo de alunos da UBI, verificaram que os portugueses geraram uma série de «descontinuidades», como a caravela, o princípio do nónio, a balestilha, a medição da altura, a nau e a rede de bases geo-estratégicas ao longo das duas rotas do Atlântico e do Índico, com capacidade de controlo exclusivo da navegação e de projecção de poder (desde os tempos da doutrina do «Maré Clausum»). Os dois especialistas classificam-nas de inovações «pré-schumpeterianas» que, no entanto, desenharam um padrão cíclico similar às vagas longas de Kondratieff (aplicadas à Revolução Industrial).


Henrique, o Navegador, lançou, provavelmente, o primeiro empreendimento de gestão do conhecimento de projecção global com a famosa «Escola de Sagres», a que se seguiram o «Regimento do Astrolábio e do Quadrante», a «Arte Náutica» e o «Livro da Fábrica das Naus». Os portugueses foram os primeiros a «colar» um empenho científico sistemático no processo geo-estratégico em que se envolveram, sublinha o estudo apresentado em Viena. Alex MacGillivray, autor da recente obra Breve História da Globalização, considera o projecto de Sagres como «o equivalente ao Cabo Canaveral da NASA nos anos 1960».






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