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O Atlântico dos Pequeninos

Nasce um novo corredor logístico<br /> <br /> Os quatro arquipélagos norte-atlânticos com uma população de 2,6 milhões e 150 mil sociedades querem formar um mercado integrado da Macaronésia. O Nordeste brasileiro é o vizinho de proximidade estratégica<br />

Nasce um novo corredor logístico

Os quatro arquipélagos norte-atlânticos com uma população de 2,6 milhões e 150 mil sociedades querem formar um mercado integrado da Macaronésia. O Nordeste brasileiro é o vizinho de proximidade estratégica



Na Antiguidade ficcionava-se que existiriam umas Ilhas Afortunadas no que se designava por Mar Oceano. Afortunado dizia-se em grego «makaron» - e daí o nome de Macaronésia para este espaço hoje atlântico. Um monge irlandês, diz a lenda, teria visitado no século VI tais ilhas que descreveu como paradisíacas, alegando que encontrara o Jardim do Éden. Mas foram os navegadores portugueses que traçaram, de verdade, a rota deste corredor, achando os quatro arquipélagos desde 1336, aquando da primeira expedição às Canárias no tempo de Afonso IV, até 1460, ano da morte de Henrique, o Navegador.


Mais de meio milénio depois, os arquipélagos da Macaronésia Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde - querem criar um espaço económico integrado, valendo-se da história comum, da rota logística óbvia e da conjugação de duas intenções geo-políticas implícitas: a benção da União Europeia e o imenso interesse estratégico do Brasil por este corredor. Este colar de ilhas tem já uma massa crítica populacional de mais de 2,6 milhões de residentes e um directório de mais de 150 mil sociedades empresariais. «Há uma janela de oportunidade para uma solução de integração económica entre os quatro arquipélagos. Inclusive há bases jurídicas para tal», afirmou Gualberto do Rosário, ex-primeiro ministro de Cabo Verde, no 1º Forum Atlântico, que decorreu no Funchal, organizado pelo Conselho Empresarial da Madeira, no âmbito do projecto Glocalnetworks (na Web em www.glocalnetworks.com) apoiado pelo programa comunitário INTERREG, que envolve associações empresariais dos três arquipélagos europeus. O presidente da Sociedade de Desenvolvimento do Barlavento desceu ao concreto e deixou o desafio: «Deveríamos criar uma Conferência para a Cooperação e Desenvolvimento das Ilhas do Atlântico Norte e uma Câmara de Comércio comum. No âmbito de pequenos territórios atlânticos é muito mais fácil a integração, fundamental para as oportunidades de negócio».


Gualberto do Rosário acautelou que não entende este projecto como uma inserção do seu país na União Europeia, ainda que as ligações sejam fortes, inclusive por via da indexação do escudo cabo-verdiano ao euro. O arquipélago crioulo vê-se mais no papel de ponte atlântica com o Norte do Brasil, particularmente o Nordeste, cuja emergência no turismo e imobiliário é hoje evidente. A própria Zona Franca do arquipélago pretende estar em sinergia com a economia brasileira, de onde espera poder vir a substituir algumas importações que vêm da Europa (sobretudo Portugal e Holanda, os dois principais fornecedores). Aliás, a presença de uma delegação do Estado brasileiro do Ceará foi muito notada neste Fórum.

«Façam-se à vida»

A tónica dada por Cabo Verde serviu de ponta de lança do debate geo-económico sobre este espaço. Cada arquipélago tem de encontrar a sua vocação específica para poder mostrar aos outros as vantagens da aliança, sobretudo da junção de forças para atacar noutros espaços. A geometria é variável e segue as pegadas da história, da língua (falantes do castelhano são 425 milhões e do português são 195 milhões, segundo a base de dados da Pearson Education) e da proximidade. Mira Amaral, o ex-ministro português da Indústria, foi mesmo muito directo: «Façam-se à vida, ao mercado mundial», recordando que o go global é hoje a saída estratégica, mesmo para os pequenos territórios e seus agentes económicos.

As Canárias, o arquipélago com maior massa populacional e número de sociedades empresariais, há muito que desenvolveu estratégias de internacionalização em relação à costa ocidental africana, às Caraíbas e a Cabo Verde, como explicaram os responsáveis da CEOE-Confederación Provincial de Empresarios de Santa Cruz de Tenerife. A Madeira tem seguido paulatinamente uma estratégia similar, com diversos grupos económicos privados no imobiliário/construção e hotelaria, engordados nos últimos 10 anos, saindo do seu mercado doméstico quase esgotado e posicionando-se nos Açores, Cabo Verde e Brasil. Os Açores são porventura o arquipélago com maior atraso neste processo de ir para fora, mas reclamam o seu papel logístico-chave nas rotas para os Estados Unidos e Canadá, bem como a sua especificidade como exportador internacional de produtos do território, na fileira dos lacticínios e nas conservas. «Temos um vector instrumental fundamental, a companhia aérea Sata. Somos as asas da ponte euro-atlântica», sintetiza Leonel Cabral, da direcção da Associação Industrial da Construção e Obras Públicas dos Açores.

Barreiras a abater

O ponto crítico do espaço da Macaronésia está na logística inter-arquipélagos. Os fluxos directos sem passagem pelos «hubs» de Lisboa e Madrid são escassos a nível aéreo e ainda mais agravados a nível marítimo. Uma estratégia de integração exige romper estes bloqueios e conseguir dinamizar os circuitos de mercadorias e pessoas neste corredor. Alguns dos estudos desenvolvidos no âmbito do projecto Glocalnetworks financiado pela União Europeia pretendem suprir este problema no futuro, como referiu Mário Fortuna, professor do Departamento de Economia e Gestão da Universidade dos Açores.

Mais informações do projecto em www.glocalnetworks.com ou em www.consulglobal.pt





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