O Analfabetismo Mutante

Freqüentemente o Brasil é sacudido por resultados estatísticos acerca da baixa escolaridade do brasileiro. Os recentes dados do IBOPE, quantificando em 75% a fatia da população brasileira que não consegue dominar a escrita e leitura, colocam luz num problema crônico vivido por toda a sociedade ao longo de várias décadas. Conforme dados do IBGE, o Brasil possuía no ano de 1900 um total de 6.348.000 analfabetos com idade de 15 anos ou mais, o que representava para a época 65,3% dessa população. Um século depois, em 2000, o país possuía 16.295.000 pessoas analfabetas, totalizando 13,6% dos brasileiros com 15 anos ou mais de idade. Num espaço de cem anos, as taxas de analfabetismo caíram para aproximadamente um quinto do que eram, mas os números absolutos elevaram-se no período 2,5 vezes. O esforço de escolarização para todos dos últimos 30 anos ajudou a diminuir drasticamente a taxa de analfabetismo na faixa etária de 15 a 19 anos, que pulou de 24% em 1970 para 3% em 2000, de acordo com o IBGE. Entretanto, esse enorme esforço educacional não se refletiu na escolaridade média do brasileiro jovem: em 1970, as pessoas na faixa de 15 a 19 anos possuíam uma média de quatro séries escolares concluídas. Em 2000 essa média foi para seis séries concluídas. Isso indica que o analfabetismo funcional continua muito grande, apesar de as pessoas saberem soletrar e identificar palavras. No período de 1996 a 2001 o analfabetismo caiu praticamente à metade na faixa etária dos 10 aos 19 anos. Porém, para os brasileiros com 45 anos ou mais, a taxa de analfabetismo reduziu em apenas 10%, o que indica a continuidade da exclusão de quem foi excluído a vida inteira.O analfabetismo brasileiro continua regionalizado. Os dados do IBGE de 2001 mostram que o Nordeste tem em percentagens 3,5 vezes mais analfabetos que a região Sul. Os números apontam uma ineficácia das políticas educacionais e sociais no país, que se mostraram incapazes de diminuir as diferenças por região, mesmo com os acalorados discursos políticos das sucessivas equipes dirigentes dos governos. A conceituação utilizada pelo IBGE nas estatísticas toma como alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever pelo menos um bilhete simples no idioma que conhece. Hoje, no mundo desenvolvido, é adotado o conceito de analfabeto funcional, que reuniria as pessoas com escolaridade igual ou inferior às quatro séries de estudos básicos. Do ano de 1900 para o ano 2003, o país saltou de 65% da população de analfabetos para 75% de analfabetos funcionais, que identificam letras, soletram palavras, mas não entendem plenamente o significado de um texto relativamente simples. Isso para os dias atuais é tão perverso quanto foi não saber ler e escrever no início do século passado. Na verdade, o perverso analfabetismo brasileiro sofreu apenas uma mutação com o desenrolar do tempo. Depois de um século, com inúmeras tentativas de abrandamento da agrafia brasileira por parte dos governos, o problema da falta de escolaridade vergonhosamente persiste na sociedade brasileira, excluindo, humilhando e oprimindo a maior parte da população
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