Nosso pacote inclui: estágio como office boy e recepcionista de luxo. Não inclui: remuneração e respeito profissional.

Atualmente estão sendo recrutados estudantes universitários que fazem um curso que não contempla a lide diária numa agência de viagens e/ou operadora turística. Dessa forma este profissional encara o agenciamento como um "bico" ou mesmo uma necessidade para seu estágio obrigatório. Por outro lado, o empresário se vê numa situação cômoda, pois tem mão-de-obra abundante e a baixíssimo custo (em algumas cidades este custo é... zero!!!). Assim, temos um conveniente casamento para lá de perfeito:
  • O estudante de nível superior precisa de estágio e/ou bico e exige pouca ou nenhuma remuneração. Ele não se preocupa em aprimorar pois "está de passagem" pela agência.
  • O empresário paga pouco (ou nada) e está livre de encargos trabalhistas. Ele não precisa se preocupar com atendimento pois se der algo errado logo terá outro "funcionário" para "consertar" ou começar de novo.
  • A faculdade de Turismo faz sua obrigação conseguindo estágios para seus alunos.
  • A nosso ver o profissional ideal para o agenciamento (operadoras, agências receptivas, agências emissivas, transportadoras, lojas de locação de veículos, representações de hotéis e serviços) deveria ser recrutado junto às escolas técnicas de Turismo (SENAC, ETEP?s e outras). Com certeza são profissionais que desempenham a função com entusiasmo e profissionalismo, pois é exatamente para isso que fizeram o curso de agenciamento. No entanto, o empresário, como vimos acima, tem a sua disposição uma mão-de-obra de baixo custo e razoavelmente qualificada: se, por um lado, o estudante de nível superior não tem interesse em continuar na agência porque encara aquilo como estágio ou bico e/ou não tem e não se interessa pelo conhecimento técnico, por outro lado muitas vezes ele tem uma vivência mais acentuada (já viajou pelo Brasil e/ou pelo exterior, por exemplo) por força até de sua condição sócio-econômica e cultural quase sempre mais elevada que a de um estudante de nível médio.
    Com um quadro desses, quem perde? O Turismo como um todo:

    I - O estagiário está ali por obrigação e faz qualquer serviço normal de uma agência. Vira um quebra-galho conveniente: é um boy de luxo, uma recepcionista de luxo. Reforça nele a visão de que na faculdade não se aprende nada. Afinal o gerente meneia a cabeça e com um sorriso condescendente acha que a faculdade deveria ensinar com urgência o pobre coitado a decorar o código fonético internacional. Pouco depois o atendente com dez anos de turismo comenta com os colegas que o tal estagiário não sabe nem abrir um Pan Rotas... o operador que já trabalhou em grandes operadoras está passando e aproveita pra dizer que pra que fazer faculdade se hoje em dia ninguém sabe de mais nada? Se bobear até o office boy tira uma casquinha... Com esse clima o aluno-estagiário vai para seu curso e descarrega lá toda a sua indignação. Ninguém ensina nada, ninguém está preocupado com nada... II - Não há investimento no profissional dito regular da agência/operadora: cursos de reciclagem, famtour - e não "fun tour". Este está muitas vezes há anos trabalhando na profissão (às vezes até na própria agência/operadora) e que vê seu lugar sendo ameaçado/tomado por pessoas descompromissadas (verdadeiramente) e sem conhecimento (falsamente). Convenhamos: quem vai investir em um profissional se uma outra pessoa pode trabalhar até de graça?

    III - O consumidor que quer explorar o turismo e não ser um turista explorado. Somente a competitividade e a reforma da estrutura de agenciamento fará esse quadro se reverter. Porque não se estender a possibilidade de que bacharéis de turismo, depois de se habilitarem junto a Embratur, Abav, Abbtur ou um colegiado misto, possam abrir agências de turismo receptivo ligadas diretamente a seus municípios? Ou agências de turismo emissivo para operarem turismo doméstico? Está aí o verdadeiro papel de um turismólogo: o de empreendedor, planejador e compromissado com o desenvolvimento do Turismo em sua cidade, região, país e não um mero emissor de passagens aéreas. Já é tempo do estudante de curso superior de turismo, que tanto quer a tal regulamentação, que tanto quer ser reconhecido como um bacharel de nível superior parar para pensar se suas atitudes estão sendo coerentes com o que ele deseja, com o que ele reinvidica dos professores(as), coordenadores(as) e da direção da faculdade. Não nos preocupa "reformulações no ensino". Precisamos reformular nossas atitudes. - Porque eu escolhi Turismo?

    - Porque tentei Medicina e levei bomba? - Porque quero passear bastante? - Porque o Juquinha e a Mariazinha entraram também? - Porque não tem Matemática? - Porque a propaganda da Faculdade disse que tem 345.000 vagas bem remuneradas por ano distribuídas em 52 áreas de atuação (aliás, quais são elas? Porque não 53? Ou 51? Boa idéia!). - Ou porque eu me identifico com essa área e tenho alguma noção - e quero aprimorar - do fenômeno turístico? Outro fato que não podemos fugir: não há empregabilidade para todos os turismólogos que já existem. Não estamos nem falando dos que virão. Temos os profissionais dos cursos técnicos também. Os cursos livres. Os geógrafos estudam Turismo em seu curso. Turismo é transdiciplinar. Todo mundo quer dar sua porradinha. Portanto, a parada é dura. Falar é fácil, mas podemos tentar:1. Valorização do estudante de turismo de curso superior: dar um basta nos estágios aviltantes de agências. Chega de estágios fajutos, de serviços subalternos travestidos de estágios. Estes estágios devem ser revistos e mesmo assim ficar restritos ao estudante de nível técnico. No caso de Agenciamento, a instituição de ensino deve fornecer bases para o estudante: terminais on line, professores-profissionais (mesmo que "convidados") da área de agenciamento, visitas técnicas. 2. A Embratur e a ABAV devem permitir que turismólogos possam ser agentes autônomos ou cooperativados (atualmente existe uma instituição jurídica que facilita isto, a lei das OSCIP) para atuar exclusivamente no mercado local, regional e nacional (nesta ordem de preferência). Como existem muitos profissionais pelo Brasil afora, caberá à ABBTur coordenar um trabalho de "Teia de Relacionamentos" onde serão relacionados meios de hospedagem "sociais" e serviços locais. Esta "Teia de Relacionamentos" deverá ser dinâmica, funcionando via Internet, fornecendo dados atualizadíssimos (eu, habitante local, turismólogo sei o que acontece na minha cidade agora e coloco a disposição na Teia) que serão utilizados para reservas em outros centros. 3. De alguma forma os vôos têm que ficar mais baratos. É a única forma que temos (infelizmente) de movimentar pessoas pelo Brasil. Vôos "charters" devem ser implementados de e para centros urbanos menores. O turismólogo tem total responsabilidade em divulgar o Brasil. Para brasileiros. 4. Participação do estudante de nível superior na política de atendimento local como voluntário social: isso sim, valendo como estágio. A educação para o turismo - não para "adestrar" o habitante local a receber turistas de uma forma submissa, mas orgulhoso e guardião de seu habitat. Além disso desmistificar o Turismo como atividade elitista que só pode ser "praticado" por "bacanas endinheirados". Planejar e executar programas de Turismo social ou qualquer outro nome que se queira dar ao movimento de lazer do habitante local para outros locais. As agências desaparecerão da forma como as conhecemos hoje. Portanto, mais uma vez insistimos: o que "emperra" o estudante e o profissional de Turismo é sua visão reducionista da atividade turística: A) Aceitar ser reduzido a um papel subalterno, sendo que ele tem uma missão tão importante (e difícil pela frente) rendendo-se ao trabalho fácil de uma agência só pelo "bico", só pela possibilidade de um mísero famtour (que se transformou em "fun tour"...). E aviltar a si e ao profissional que lá está. B) Tal como a mosca que bate na vidraça repetidas vezes tentando sair, insistir, ano após ano, numa regulamentação de duvidosos efeitos positivos, tentando com isso ganhar para si o que já pertence a um mercado multifacetado pela própria interdisciplinaridade do Turismo. Competência não é regulamentada por leis, é reconhecida pelo mercado. Não cremos que devamos "acompanhar o mercado" como temos ouvido à exaustão. Devemos "fazer o mercado". O nosso mercado. Estamos estudando para empregados ou para empreendedores? Até isso acontecer teremos profissionais de agências ressentidos e defasados, estudantes de terceiro grau fazendo bico e estudantes de nível médio desempregados. E turistas em lista de espera para um atendimento adequado.
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