No futuro, o desejo será por 15 minutos de anonimato

Excesso de exposição virtual cria personagens fictícios com dificuldade de enfrentar a realidade. Para muitos o mundo virtual está substituindo o mundo real. É um risco. Excesso de exposição dificulta estabelecer limites. Em breve muitas pessoas estarão lutando para se tornarem anônimas, tal o descontrole e reações pelo excesso de exposição

Atualmente o Facebook é o terceiro maior “país” em número de habitantes. Só perde para China e Índia. O Twitter se encontra entre os 10 mais “povoados”. É evidente que estamos falando do “mundo virtual”, que na atualidade se tornou tão real quanto a convivência física ou próxima dos seres humanos – Aquilo que por muitos anos ficou conhecido como “o olho no olho” ou ainda o “toque” físico da troca de olhares, o cumprimento e todo um conjunto de gestos e significados na comunicação humana que está se perdendo.

Segundo o crítico cultural argentino Daniel Molina, do qual extraí as colocações iniciais deste artigo, “para muitas pessoas, hoje, o mundo virtual é, inclusive, mais real, mais intenso, mais interessante, mais prático, mais motivador e até mais amigável que o antigo mundo dos átomos”. Inclusive muitas das nossas ações mais importantes começam, acontecem, terminam e até mesmo se excluem, no mundo virtual. Embora muitas vezes toda esta dinâmica não nos agrade, vivemos em uma época em que interagimos muito mais com telas/visores do que com e entre pessoas”.

Todo esse universo virtual substituiu a intimidade, a troca de cartas, os diários íntimos, a privacidade, os afetos, paixões e desejos escondidos. O surgimento da internet acelerou este processo. A expansão do acesso às redes sociais permitiu que boa parte dos seres humanos pudesse atingir o desejado “status” de “figura pública”. Um efeito interessante sobre as pessoas é a possibilidade de se tornar “personagem”, que muitas vezes criado sob uma forma idealizada do que se deseja “parecer”, esconde ou omite a figura real.

Agora podemos nos exibir como uma forma de provocar desejos, comparações ou até ciúmes nos demais frequentadores da rede. As viagens, passeios, ambientes frequentados, contexto familiar, amores, filhos exemplares, casais perfeitos, pais fantásticos, amigos novos ou antigos e muito mais pode ser mostrado de forma idealizada. Mas também a partir dessa nova realidade o que se pode constatar é que surge a possibilidade de questionamentos, provocando reflexões e aprendizados. Eis alguns exemplos:

- Será que a intimidade, tão exaltada em nosso passado recente, era real ou apenas um faz de conta? - Existiam processos efetivos que nos permitiam registrar, questionar e valorizar nosso universo interior? - Ou será que sempre fomos superficiais e apenas preocupados em “parecer”, muito mais do que no “ser”?

É evidente que grande parte das formas pelas quais nos enxergamos, pensamos e avaliamos está influenciada por fatores culturais. Afinal, passado, presente e futuro não estão dissociados quando analisamos tanto a história da humanidade como também as influências culturais e geográficas. Mas o fato novo é que com a globalização, e o maior acesso às informações, se alastrou pelo mundo um consumo de modismos manipulados. E que nem sempre são vistos de forma crítica pelas pessoas.

Vale lembrar o que dizia, na década de 70, o provocador artista plástico e cineasta Andy Warhol: “no futuro toda a gente será célebre durante 15 minutos.” Ele faleceu em 1987. E este prenúncio já se tornou realidade. É provável que nosso próximo desafio seja exatamente o contrário. 15 minutos de anonimato, preservando intimidade, silêncio, reflexão e aprendizado.

Uma última provocação: aos interessados no tema, recomendo o filme “Homens, mulheres e filhos”, uma instigante ficção do impacto da realidade virtual na estrutura familiar. Enfim, mais um assunto para incluir na sua agenda de reflexões e diálogos com familiares e amigos.

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