Não sou capaz de opinar! A Cultura da Convergência opina

Este artigo analisa a repercussão dos comentários da atriz Glória Pires, na transmissão da Cerimônia de Entrega do Oscar de 2016. Além disso, pretende-se refletir sobre o poder da internet e a Cultura da Convergência na sociedade contemporânea

A cerimônia de entrega do Oscar, uma das principais premiações da indústria cinematográfica, é um evento de cobertura mundial e de grande repercussão na mídia. Um dos momentos mais esperados desse ano era a vitória, ou não, de Leonardo Di Caprio na categoria de melhor ator. Durante a semana que antecedeu ao evento, as mídias sociais e diversos portais de notícias foram invadidos por matérias e memes a respeito da indicação, e possível premiação de Di Caprio (finalmente), ao Oscar de melhor ator principal no filme O Regresso (2016).

Quem acompanhou a transmissão pela TV Globo no domingo (28/02) contou com uma atração a parte: a atriz Glória Pires foi protagonista de um evento que extrapolou a televisão, invadiu as redes sociais e se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter (Trend Topics) naquele dia. A equipe ainda contava com os jornalistas Maria Beltrão e Artur Xexeo, que, por sua vez, pouco foram citados nas redes sociais.

Com comentários lacônicos do tipo: “bacana”; “curti sim, foi merecido”; “não assisti” e o mais replicado nas redes “não sou capaz de opinar”, a atriz protagonizou um evento ímpar na transmissão da cerimônia. O que se espera, geralmente, de um comentarista convidado para cobrir esse evento é que ele desenvolva as suas percepções sobre os filmes indicados, ou que ao menos os tivesse assistido para compartilhar suas impressões sobre cada um.

Um fato é que vários veículos de comunicação, de forma quase unânime, analisaram o ocorrido como um vexame por parte da atriz, devido aos seus comentários desanimados e em alguns momentos seu total desconhecimento de alguns filmes/atores indicados. Eu, já acredito que podemos ter um outro olhar sobre o episódio e analisar alguns pontos sob a ótica da Cultura da Convergência.

Sobre a teoria
Cada vez mais podemos observar a presença da Cultura da Convergência (Henry Jenkins, 2008) no nosso cotidiano. A transmissão da cerimônia de entrega do Oscar de 2016 e os acontecimentos ao redor desse evento são exemplos marcantes das análises desenvolvidas por Jenkys.

Henry Jenkys esteve a frente do Programa de Estudos em Mídia Comparada do MIT de 1993 a 2009 e é considerado um dos pesquisadores mais influentes da atualidade. Para o autor, presenciamos hoje uma Cultura da Convergência, teoria que está baseada em três conceitos: a convergência dos meios de comunicação (olhe para o seu smartphone e você vai compreender imediatamente, nesse dispositivo você tem várias tecnologias reunidas, rádio, televisão e internet); a cultura participativa (em vez de falar de produtores e consumidores de mídia ocupando papéis separados, podemos considera-los como participantes de uma conversa que ninguém sabe direito quais são as regras) e a inteligência coletiva (que segundo Pierre Lévy “nenhum de nós pode saber tudo; cada um de nós sabe alguma coisa; e podemos juntar as peças, se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades”).

Dentro desse cenário, Jenkys entende a Cultura da Convergência como um fenômeno cultural, onde “Cada um de nós constrói a própria mitologia pessoal, a partir de pedaços e fragmentos extraídos do fluxo midiático e transformados em recursos através dos quais compreendemos nossa vida cotidiana”. Ou seja, os indivíduos recebem/consomem conteúdo de diferentes formas ao longo do dia. Com a tecnologia atual eles conseguem fazer ligações, por exemplo, entre o meme do John Travolta perdido, e os comentários da Glória Pires na transmissão da Globo.

Sobre a transmissão
Percebeu-se um movimento nas redes sociais em torno dos comentários da Glória Pires, e muitas pessoas acabaram ligando a TV para conferir, ao vivo, a atuação da atriz. Os comentários dela repercutiram a tal ponto que viraram memes nas redes sociais (quase que minutos após suas falas e o nome da atriz chegou a ficar em segundo lugar entre os assuntos mais comentados do Twitter (só perdeu para o Oscar, o grande evento daquela noite).

Citando a própria, “eu não vi” a transmissão nem a performance da atriz, mas logo pela manhã as redes sociais foram invadidas com uma enxurrada de publicações sobre sua atuação nos comentários da cerimônia e não deixaram dúvidas: Gloria zerou a Internet e ganhou mais menções que os atores premiados no Oscar 2016.

Um dos pontos base da transmissão de TV com sinal aberto é que no geral, ela procura tratar os assuntos veiculados sob a perspectiva do cidadão brasileiro médio. Em relação a Rede Globo isso ficou nítido no episódio relatado por Laurindo Leal durante a visita de um grupo de professores da USP a redação do Jornal Nacional, quando foi mencionado que o telespectador brasileiro foi apelidado de Homer Simpson pela redação do JN. Em nota, Willian Bonner explicou o porque do personagem Homer, “pois ele representa um pai de família, um trabalhador conservador, sem curso superior, que após uma jornada de trabalho, quer ter acesso às notícias mais relevantes do dia de forma clara e objetiva.”

Daqui podemos tirar duas análises, pensando na credibilidade x audiência: sobre a audiência, a repercussão que o evento teve nas redes sociais acabou despertando a curiosidade das pessoas para conferir a transmissão do evento na TV Globo, consequentemente aumentando a audiência. Fato que, se a audiência vem caindo a cada ano, esse falatório serviu para manter os números no mesmo nível do ano anterior, ponto positivo pra Globo; já em relação a credibilidade, para um amante do cinema, os comentários da atriz demonstraram uma total apatia e falta de interesse na premiação, o que pode ter arranhado a imagem do canal em relação a transmissão de grandes eventos a repercussão sobre o carnaval desse ano é um exemplo disso. Surgiram muitas críticas nas redes sociais sobre a superficialidade dos comentários dados pelos apresentadores do evento, Fátima Bernardes e Alex Escobar.

Cultura da Convergência
Os conceitos desenvolvidos por Henry Jenkys podem ser claramente identificados nesse episódio. O primeiro ponto é a convergência dos meios de comunicação, pois percebe-se a força da segunda tela nesse evento (experiência de engajamento de audiência, que inclui a TV como um elemento integrante, ou, também, o fato do indivíduo ter um dispositivo eletrônico adicional ‘smartphone, tablete, notebook etc.’ conectado a internet). Os comentários gerados nas redes sociais acabaram repercutindo na audiência de um dos maiores canais de TV aberta no país.

Em relação a Cultura Participativa, percebe-se a participação dos indivíduos nos conteúdos veiculados pela indústria do entretenimento, sejam os memes gerados sobre a possível premiação para o Leonardo Di Caprio ou sejam aqueles criados sobre os comentários da Glória Pires. A repercussão foi tamanha que a atriz respondeu ao episódio através de vídeo justificando sua postura e seus comentários naquele dia.

Outro ponto, em relação a inteligência coletiva, é a imensa produção de conteúdo gerada pelos indivíduos nas redes sociais. A quantidade de memes e de associações geradas em relação aos comentários da Glória Pires foi tamanha que o assunto ficou em segundo lugar no Trend Topics do Twitter, perdendo apenas para o Oscar em si. Repare que ela ganhou mais menções do que vários atores premiados no Oscar em 2016.

E as repercussões não param por aí, na segunda-feira (29/02) o site http://www.bemglo.com (loja virtual da Glória Pires) já possuía três camisas com frases da atriz sendo comercializadas: “Eu não sou capaz de opinar”, “Eu curti, bacana”, “Sou ruim de previsões.”. A página da Glória Pires no Facebook teve um aumento de 629,9% no número de novas curtidas, número que representa 146.943 pessoas.

Narrativas que acontecem em mais de uma plataforma vão se tornando cada vez mais frequentes na sociedade contemporânea, seja pelo intenso uso das TICs (tecnologias de informação e de comunicação), ou pelos novos comportamentos oriundos do advento da cibercultura.

Mas essa é uma discussão que ainda se inicia em relação a Cultura da Convergência e sua influência no nosso cotidiano. Um fato que pode ser constatado foi a habilidade com que Glória Pires (ou a sua equipe de assessoria) soube lidar com o evento, publicando rapidamente um vídeo com o intuito de minimizar os possíveis danos a sua imagem e a forma como ela capitalizou o incidente produzindo camisetas temáticas sobre o evento. Um belo exemplo de como transformar a adversidade em oportunidade.

Eventos como esse são cada vez mais corriqueiros, vale lembrar o exemplo da prova de filosofia que citava a cantora Valesca Popozuda como uma pensadora contemporânea e a repercussão gerada, e mais recentemente o professor de biologia Nicola Cano, que carimba um “Tá tranquilo, tá favorável” nos trabalhos dos alunos. No caso da Valesca Popozuda, o episódio serviu para colocar a cantora na agenda de discussão da mídia e da sociedade, com o professor Nicola Cano já estão surgindo discussões sobre seu método de ensino e questões pedagógicas.

A Cultura da Convergência está cada vez mais inserida no nosso cotidiano, de forma orgânica e casual, tratando de diversos temas - complexos ou corriqueiros, seja a maior premiação da indústria cinematográfica ou uma prova de biologia do ensino secundário no interior do Espírito Santo.

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