Não há redenção sem dor

Na semana passada eu estava ministrando uma palestra sobre empreendedorismo corporativo a um grupo de altos executivos de uma grande multinacional, quando surgiu um debate sobre a necessidade da empresa mudar as políticas internas, reduzir a burocracia, promover a autonomia, melhorar a comunicação interna e outras sugestões antes de se pensar em implementar qualquer programa de empreendedorismo interno.

Na semana passada eu estava ministrando uma palestra sobre empreendedorismo corporativo a um grupo de altos executivos de uma grande multinacional, quando surgiu um debate sobre a necessidade da empresa mudar as políticas internas, reduzir a burocracia, promover a autonomia, melhorar a comunicação interna e outras sugestões antes de se pensar em implementar qualquer programa de empreendedorismo interno. Eu observava atentamente o rumo da discussão até que decidi interromper o debate quando percebi que os comentários estavam se transformando perigosamente em meras desculpas e justificativas à falta de ação.

Nenhum empreendedor de verdade espera pelas condições ideais para agir, comecei. Se ele esperar, não começa nunca, pois num mundo dinâmico e mutável como o nosso, o ambiente jamais será totalmente favorável. O empreendedor está acostumado a atuar em ambientes cercados de incertezas e ambigüidades, completei.

Quando o empreendedor toma a iniciativa de promover mudanças, ele assume o pressuposto que encontrará condições desfavoráveis, será confrontado com muitas barreiras e dificuldades, mas ele sempre as enxergará como desafios que só agregarão mais valor aos seus objetivos.


Um fato bastante recente ajudou a ilustrar minha visão. O mundo perdeu um de seus maiores líderes religiosos. A comoção em torno dos funerais surpreendeu até mesmo os que já conheciam o poder de influência de João Paulo II. A força de seu carisma deu uma nova visão ao catolicismo no mundo, deixando um enorme problema aos cardeais responsáveis por eleger seu sucessor.

Por trás de seu magnetismo pessoal estão fortes convicções, princípios e valores que ele defendeu ao longo de seus 26 anos de pontificado. Algumas de suas palavras se encaixam muito bem nesta mensagem, é inevitável a lembrança de seu rosto crivado pela dor em sua última aparição pública ao recordar uma de suas frases: não há redenção sem dor. Carol Wojtyla demonstrou até o último dia de sua vida que ele estava ali para cumprir uma missão. Tão forte era a sua determinação por cumpri-la que não se deixou abater, nem pela doença que o consumia dia após dia, nem por outras dificuldades que testaram sua fibra ao longo de sua vida.

O empreendedor não se deixa abater pelas dificuldades já é um clichê nas literaturas que descrevem o perfil empreendedor. O que poucos sabem é porque isso acontece. Alguns dizem que sua perseverança é inata, outros afirmam que ele é tolerante a erros e há os que pensam que o empreendedor procura espontaneamente os problemas porque é movido a desafios e querem calejar as mãos com as dificuldades.

A verdade é que o empreendedor é movido por uma forte visão do futuro. Ele sabe claramente onde quer chegar. Quanto mais forte for esta visão, quanto mais rica em detalhes, quanto mais ele consegue se inserir nesta visão e quanto maior for o significado para ele, mais força ele adquire para superar as vicissitudes que se interpõem em seu caminho. Isto se chama determinação. Um empreendedor determinado minimiza o tamanho do problema, considera as dificuldades meros detalhes que não o impedirão de cumprir sua missão, encara momentos dolorosos como parte obrigatória do caminho que traçou, buscando força e esperança no que ele espera colher ao atingir sua visão.

Por isso, mais importante do que fazer um bom planejamento para seu empreendimento ou esperar as condições ideais para começar a agir, é buscar a motivação por trás do projeto que estiver encabeçando. É saber responder à pergunta: Por quê estou fazendo isso? Se existem razões fortes, críveis e sustentáveis por trás de suas respostas, então é hora de tomar a iniciativa e adotar posturas pró-ativas em relação ao que precisa ser feito, independentemente do preço que se pagará ou das conseqüências a que estará sujeito.

Ao final desta pregação àqueles executivos, encerrei com uma citação de Glenn Van Ekeren: Preciso fazer algo resolve mais problemas do que Algo precisa ser feito. , mas isso só faz sentido se os porquês são relevantes e significativos o suficiente para enfrentar os comos, caso contrário, a atitude empreendedora não acontece, ou, se acontece, não perdura com o tempo.


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    Marcos Hashimoto

    Marcos Hashimoto

    Professor de Empreendedorismo da Universidade de Indianapolis e co-fundador da Polifonia, escola de Protagonismo Criativo de São Paulo.

    Serviços de consultoria em Estratégia Empresarial, Liderança e Empreendedorismo Corporativo: http://www.marcoshashimoto.com

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