Não contrate um deficiente!
Não contrate um deficiente!

Não contrate um deficiente!

Se você se assustou com o título é porque está atento as normas e regras para contratação de pessoas com deficiência. Saiba mais no artigo de quem convive com essa rotina diariamente

No título, não há nada de errado, pois todos nós temos algum tipo de deficiência. O que ocorre no momento das entrevistas ou abertura de vagas, é que as deficiências aparentes são em primeiro lugar avaliadas, e muitas deficiências ocultas, não visíveis a olho nu, deixadas de lado. Contrate pessoas. A nomenclatura correta é Pessoa com Deficiência, então por que avaliamos primeiro a Deficiência e depois a Pessoa e suas capacidades?

Em todas as organizações, desde as menores até as globais, os motores de desenvolvimento, de inovação e de crescimento são as pessoas que as compõem. Independente do tamanho da organização, focar em bons talentos é essencial para a sustentabilidade do negócio.

No Brasil, segundo o Censo 2010, há 23,9% de pessoas com algum tipo deficiência, o que nos leva buscar os porquês da Lei Brasileira de Inclusão, Lei de Cotas e outras legislações relacionadas aos direitos das pessoas com deficiência, algo que não é o foco deste artigo. Legislação deve ser cumprida.

O que buscamos entender é se há pessoas com limitações, sejam elas congênitas ou adquiridas no decorrer da vida, por que em ambos os casos olhamos primeiro a deficiência e depois a pessoa?

Não obstante nos deparamos com processos inclusivos em diversas organizações e encontramos em boa parte dos casos a mitificação do termo “não é possível”, “não temos rampa de acesso”, “não temos acessibilidade”, entre outros. Neste sentido, assistimos de braços cruzados as indisposições para que a inclusão realmente ocorra. Ao bloquear o campo de visão, também nos tornamos de certa forma deficientes ao âmbito inclusivo. Precisamos em primeiro lugar, quebrar e eliminar nossas barreiras atitudinais.

Aos que chegaram até aqui, vou propor um desafio para que em algum momento você tente se colocar no lugar do outro fazendo algumas coisas do dia a dia de forma diferenciada. Passe um dia sem falar uma palavra, tente se comunicar utilizando outros métodos em todo e qualquer lugar que possa ir, utilize seu conhecimento em prol de não soltar uma só palavra durante o dia, ou ao tentar sair pela manhã tente vestir-se com somente um braço, não movimente um dos braços e sugiro não movimentar o braço dominante; ou, talvez, tente se vestir sem movimentar suas pernas sentado na cama; ou alimente-se de olhos vendados, peça a alguém que prepare seu prato e sem saber onde estão os itens e o que lhe foi colocado no prato, estabeleça outros fatores sensoriais para degustar a refeição.

Mas o que isto tem a ver com contratar pessoas com deficiência?

Empatia, segundo o dicionário é a “Capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de aprender do modo como ela aprende etc.” Por isso, quando nos identificamos com alguém, é facilitado o processo, não precisamos efetuar alterações em nosso ambiente e, consequentemente, as ações mantêm-se ao controle. Fica mais fácil. Porém, quando algo que não conhecemos nos é apresentado, nossa resistência ao novo é ainda maior. Há este descompasso entre teoria e prática no dia a dia. Apresentamos políticas, missões, visões e valores que se destacam nos quadros emoldurados nas organizações, frases de impacto, mas quantos de nós realmente as praticam no dia a dia?

Conforme pesquisa realizada pela ABRH/Isocial/Catho, 81% das empresas contratam somente para “cumprir a Lei” e apenas 4% acreditam no potencial do profissional com deficiência.

É de conhecimento que uma boa parte dos profissionais com deficiência buscam se qualificar, ampliar seus conhecimentos relacionados a mercado de trabalho e até mesmo socializar-se. A lei de cotas existe há 24 anos, e conforme o título da matéria, os avanços na inclusão do profissional com deficiência ainda são pequenos. Precisamos compreender que profissionais que hoje estão na casa dos 30 aos 50 anos com algum tipo de limitação, seja ela adquirida ou congênita, tiveram maior dificuldade em buscar seus estudos, e até mesmo socializar-se. Por outro lado, jovens que hoje estão na casa dos 15 a 30 anos, devido à legislação, tiveram diversos avanços sociais que podem ser vistos na própria lei de cotas. Estes avanços aconteceram por conta da melhoria no transporte público, na acessibilidade nas escolas, entre outras ações, e devido a isto, hoje é possível verificar jovens que nasceram com alguma limitação desenvolvendo-se nos estudos nos mesmos anos que jovens sem deficiência. Há uma demanda crescente de pessoas com deficiência capacitadas no mercado que não conseguem encontrar colocação além das vagas de entrada. Se para aqueles sem deficiência é difícil enquadrar-se em vagas no mercado, imagine para uma pessoa com deficiência.

O que este sentimento nos traduz é que, no decorrer dos anos, a legalidade fez os processos de inclusão ocorrerem fora das organizações. Com a possibilidade de obtenção de renda, o público composto por pessoas com deficiência buscou educação, saúde, e por que não, uma melhor qualidade de vida.

Então, por que não tornar o processo de inclusão nas empresas algo que transpasse a legalidade? Várias frases de RH elencam buscar, desenvolver, reter seus talentos, e desenvolver talentos de pessoas com deficiência.

Diversos somos todos, parafraseando Reinaldo Bulgarelli. Esta frase me chama atenção devido ao teor implícito nela, independentemente de ter ou não uma limitação todos nós, em algum momento de nossas vidas, nos deparamos com algo que nos diminui, então por que diminuir ainda mais o profissional que, com uma limitação aparente, supera outras mil no seu dia a dia e pode agregar muito mais ao ambiente de trabalho pela diversidade que traz consigo em seu conhecimento pessoal à respeito de sua limitação e suas superações? Avaliar o profissional com deficiência de forma equitativa, priorizando sua potencialidade e não sua limitação traz benefícios imensuráveis aqueles que trabalham ao seu redor.

Pense nisto, e não contrate um deficiente. Contrate pessoas!

Fontes citadas no texto:

http://diversossomostodos.blogspot.com.br/

http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/cartilha-censo-2010-pessoas-com-deficienciareduzido.pdf

http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2014/11/81-contratam-pessoas-com-deficiencia-so-para-cumprir-lei.html

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