Café com ADM
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Não basta participar, tem que empreender

Na medida em que a empresa cresce, o empreendedor precisa centralizar menos as ações e decisões sob o risco de ver sua empresa paralisar pelo excesso de concentração de poder.<br />

Esta semana participei do programa Negócios e Soluções, produzido pelo Sebrae-SP, que vai ao ar todas as quintas-feiras à noite na TV Cultura. A matéria foi sobre intra-empreendedorismo, tema que trato no meu livro Espírito Empreendedor nas Organizações. Em um dos meus depoimentos que foi ao ar, explico que, na medida em que a empresa cresce, o empreendedor precisa centralizar menos as ações e decisões sob o risco de ver sua empresa paralisar pelo excesso de concentração de poder.

Para o empreendedor chega a ser doloroso ter que abrir mão do controle de sua empresa para seus funcionários. O empreendedor julga que todo o mérito do sucesso de sua empresa está em suas mãos e que dificilmente um funcionário, por mais capacitado e competente que seja, teria condições de conduzir sua empresa tão bem quanto ele.


O programa mostra o exemplo de uma pequena gráfica familiar especializada em diplomas, com o depoimento de alguns de seus funcionários que declaram sua satisfação pela confiança depositada pelos sócios nas suas opiniões e sugestões para que possam melhorar o seu próprio trabalho.

Em todos os lugares sempre existirão pessoas com boas idéias e vontade de contribuir com a empresa. Obviamente nem todos os funcionários possuem este perfil e nem é preciso que todos sejam assim. Bastam alguns que efetivamente façam a diferença e demonstrem poder assumir mais responsabilidades. Desta forma, estas pessoas acabam por conquistar a confiança de seu superior, dando-lhe a segurança necessária para começar este processo de delegação e descentralização.

Talvez a reportagem tenha dado ao espectador a impressão que intra-empreendedorismo seja a mesma coisa que gestão participativa. Acho que cabe aqui uma explicação sobre as diferenças.

A Gestão Participativa é uma modalidade de liderança em que o líder dá espaço para que sua equipe contribua de forma ativa no processo de tomada de decisão. Neste modelo, todos têm a oportunidade de concordar, discordar, gerar novas idéias, identificar restrições e riscos, etc. Ao líder sempre cabe a decisão final, mas ele dificilmente a toma sozinho. Normalmente ele leva em consideração as opiniões e contribuições de sua equipe.

No intra-empreendedorismo, é fator primordial a implementação deste modelo de gestão, mas só isto não é suficiente para se construir uma organização intra-empreendedora. A participação deve acontecer em outros aspectos e não apenas nas opiniões e sugestões.

Um funcionário empreendedor não se contenta apenas em dar sua opinião para ajudar seu chefe a tomar uma decisão. Ele também quer tomar suas próprias decisões no nível mais estratégico, assumir mais responsabilidades, dedicar-se pessoalmente a colocar sua idéia em prática. O intra-empreendedor é ativo, foca os resultados, tem iniciativa. Para ele, a gestão participativa é uma importante abertura que ele conquista, mas seu desejo por liberdade clama por mais espaço ainda.

Um líder empreendedor, por outro lado, sabe identificar estes talentos empreendedores e sabe que pode diminuir o controle sobre eles. O grau de confiança aumenta e ele se sente mais à vontade para lhe passar mais atribuições. Para o líder empreendedor, a gestão participativa é o primeiro passo para começar a diferenciar quem quer apenas participar da gestão daqueles que efetivamente podem assumir o controle da situação, compartilhando riscos e assumindo a liderança por ele.

Uma organização intra-empreendedora, por fim, garante a formação de uma cultura em que as amarras dos controles são minimizadas para permitir o florescimento dos intra-empreendedores. Por definição, toda organização intra-empreendedora já pratica obrigatoriamente a gestão participativa. Embora muitas mudanças sejam necessárias para se implementar este modelo de gestão, muitas outras, mais profundas, são fundamentais para construir uma cultura em que as pessoas sintam-se parte ativa do negócio. Dentre estas condições, podemos citar a extinção do modelo de cargos, a eliminação da estrutura hierárquica-piramidal, a expansão dos limites da organização para incluir parceiros, clientes e fornecedores e até mesmo uma flexibilização nos critérios de investimentos em projetos internos.

O intra-empreendedorismo não acontece de uma vez. A cultura precisa ser construída aos poucos e a implementação de um modelo de gestão participativa é uma das etapas neste sentido. É uma forma de criar relações de confiança e de comprometimento mútuos. Na medida em que as pessoas sentem-se à vontade para tomar iniciativas e fazer experiências em prol da empresa, assumindo os riscos inerentes, eles começam a adotar um comportamento desejado em qualquer organização: O comportamento de dono do negócio.

Lembra-se daquela propaganda do Gelol? Sempre terminava com a seguinte frase: Não basta ser pai, tem que participar. Pois pense que para seus funcionários, não basta participar, tem que empreender.


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