Mundo corporativo: brincando de amarelinha

É aqui onde começa o nosso aprendizado e é aqui onde somos expostos às primeiras lições de luta e sobrevivência para obter sucesso, prestígio e ascensão no mundo corporativo. É nesse cenário que ensaiamos a nossa capacidade, ainda mal aflorada, de planejamento, de seguir regras, procedimentos não escritos, de compreender a hierarquia das coisas, a escolher uma estratégia vencedora, a trabalhar com poucas ferramentas e recursos e a encarar a dura competição que fortalece o espírito. Ao derredor muitos torcendo por nosso sucesso ou fracasso; enfrentamos por primeira vez a capacidade de cair e se levantar com dignidade ou de correr aos prantos pelo amargo da derrota; de rir dos outros, mas principalmente de rir de si mesmo e acima de tudo, de ter muito, muito fôlego e determinação para chegar a final e sagrar-se vencedor

Não é de agora que venho refletindo sobre a questão e finalmente acabo por me convencer plenamente: a idade nos faz nostálgicos e a passagem do tempo nos torna débeis. Em contrapartida brinda-nos com a capacidade de melhor entender o significado das coisas e de enxergar mais claramente as situações permitindo que façamos melhores escolhas, quase no momento quando delas já não necessitamos.

Recordamo-nos de fatos da infância que antes pareciam não fazer sentido, uma lembrança qualquer aqui ou acolá resgatada no fundo da memória, que outrora, na juventude, pareceria uma bobagem dedicar tempo quando se nos deparava toda uma vida pela frente: a juventude! Ela é infinita! Por que gastar preciosos momentos revivendo o passado, já que ele está ainda tão recente?

Entrementes, quando a ocaso da vida se acerca e esse passado se distancia, surpreendemo-nos com as recordações dos nossos melhores e piores professores, os ensinamentos e as lições em sala de aula que muita das vezes nos pareciam inúteis, o rigorosismo dos pais e avós, com o tom de voz, manter a postura ereta, não arrastar os chinelos, comportar-se exemplarmente em público, o silêncio respeitoso quando os mais velhos falavam entre si, a importância da cor azul no boletim escolar e o horripilante monstro da “recuperação”, que não raro resultava em tristes dias sem o contato com a velha e querida TV (de tubo), em preto e branco.

Programas inocentes como a Vila Sésamo tendo como protagonistas um gigantesco pássaro e um boneco mau humorado, a TV Globinho, o paraíso de Monteiro Lobato e seus pueris personagens. Tudo isso muito antes da gloriosa nave espacial da “rainha dos baixinhos” aterrissar no palco da grande vênus platinada (hoje, esfera colorida) todas as manhãs com a sua troupe de paquitas executando coreografias milimetricamente ensaiadas.

Não existiam celulares, play station, computadores, notes, internet ou redes sociais. As atividades lúdicas se resumiam ao contato pessoal entre as crianças: esconde-esconde, cadê o anel que se escondeu, pula-corda, bolas de gude, pera, uva ou maça (essa para os menos tímidos) e a disputadíssima “Amarelinha” (também chamada de maré, em algumas regiões).

Houve um tempo em que eu me especializei, se é que isso é possível, nessa brincadeira ou jogo, como queiram chamá-la.

De relance, parece ser uma atividade ingênua, que requer muito esforço físico e pouco esforço mental, bastando para tanto lançar a pedra, (que pode ser um caco de telha ou azulejo, dependendo da “estratégia” de cada um) dentro do tracejado e chegar “pulando”, às vezes num só pé, noutras com ambos, ao local onde ela parava... Caramba! Isso qualquer um pode fazer...

Pode mesmo?

É aqui onde começa o nosso aprendizado e é aqui onde somos expostos às primeiras lições de luta e sobrevivência para obter sucesso, prestígio e ascensão no mundo corporativo. É nesse cenário que ensaiamos a nossa capacidade, ainda mal aflorada, de planejamento, de seguir regras, procedimentos não escritos, de compreender a hierarquia das coisas, a escolher uma estratégia vencedora, a trabalhar com poucas ferramentas e recursos e a encarar a dura competição que fortalece o espírito. Ao derredor muitos torcendo por nosso sucesso ou fracasso; enfrentamos por primeira vez a capacidade de cair e se levantar com dignidade ou de correr aos prantos pelo amargo da derrota; de rir dos outros, mas principalmente de rir de si mesmo e acima de tudo, de ter muito, muito fôlego e determinação para chegar a final e sagrar-se vencedor.

As costumeiras feridas provocadas pelos constantes tombos curavam-se em casa, às vezes duravam semanas e enquanto para alguns as cicatrizes eram uma lembrança ruim das competições, para outros era uma mola propulsora, desafiando-os a retornar e tentar infinitas vezes para acertar e alcançar o final do tracejado, onde ironicamente não havia qualquer premiação e uma meia lua levava o nome de “CÉU”.

Para os corajosos derrotados e machucados que retornavam à batalha valia a velha máxima do “Bruxo do Cosme Velho”, Machado de Assis: Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.

Para os temerosos desistentes, restava aguardar... eis que a oportunidade perdida poderia reaparecer reescrita na forma de uma certidão de nascimento.

Separado dali por alguns anos, o CEO do mundo corporativo, topo da pirâmide hierárquica, almejado por todos, desdenhado por alguns, aonde muitos chegam servindo-se das mesmas estratégias de quando brincavam de amarelinha e outros porque, mesmo que derrotados, choraram e foram acalentados por poderosos braços, que lhes concederam a meia lua antes do final do jogo.

Há coisas que só se aprendem tarde; é mister nascer com elas para fazê-las cedo. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Machado de Assis.

Dedico esse texto aos apaixonados pela literatura de Machado de Assis.

Publicado originalmente em https://www.linkedin.com/pulse/voce-sabe-brincar-de-amarelinha-cláudia-cristina

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