Morto na praia

Nossa sociedade está cada vez mais fria e pouco solidária. Precisamos resgatar o senso de humanidade e interagir com a dor alheia

Florianópolis é uma cidade conhecida pela beleza de suas praias. Lagoinha do Norte é uma delas. Recebe, por ano, milhares de turistas que vão desfrutar de suas águas cristalinas e de sua areia branquinha. No último domingo, dia 24 de janeiro, banhistas viram um homem correr, perseguido por outros dois homens. Tratava-se de Jadson da Silva Pereira, um alagoano que vendia queijo na praia. Ele foi morto em frente à guarita dos salva-vidas, por volta das 14 horas, com a praia lotada. Recebeu tantas facadas de seus assassinos que teve seu rosto, costas e abdômen perfurados. Os assassinos fugiram. A polícia isolou o local com fitas e cobriu Jadson com um lençol azul. E os banhistas aproveitaram o sol e o mar. Sim, passados poucos minutos do crime, ainda com o corpo estirado na areia, os banhistas voltaram ao lazer. Mergulhos, banhos de sol, água de coco. Crianças construíram seus castelinhos bem pertinho do morto, vendedores continuaram oferecendo seus produtos e ninguém desperdiçou o dia de sol. O corpo na areia foi apenas um detalhe. Não atrapalhou o lazer de ninguém.

De certo modo, nossa sociedade reage exatamente dessa forma diante de toda a desgraça que a cerca. A pós-modernidade nos fez insensíveis, tão focados em nós mesmos que não temos olhos para os fatos terríveis, degradantes e tristes que nos cercam. Não nos sobra tempo para interagir com as necessidades de conhecidos ou desconhecidos. Todo o dinheiro, a energia, a criatividade e a atenção de que dispomos são para nós mesmos e nossas necessidades ou prazeres. E, se é um morto ao nosso lado, um faminto ali na esquina ou um parente em nossa própria casa, nossa reação é a mesma: indiferença. “Não posso” – é a resposta clássica do homem pós-moderno. Não posso ajudar, não posso socorrer, não posso me envolver. E, enquanto essa resposta é dada, muitos morrem, se perdem, vivem abaixo da linha da miséria, definham e passam por situações tão tristes quanto a do morto na praia.

Ser sensível ao outro é o início de uma mudança de comportamento. Pensar no outro, investir em mutualidade e dar um pouco do que temos – seja tempo, dinheiro ou atenção – àqueles que precisam vai nos despertando para um lado esquecido na pós-modernidade, que é exatamente o viver em sociedade, o viver com o outro e não sozinho, como se o outro fosse um mero detalhe. O outro é gente como nós. Tão importante como nós. Tão amado por Deus como nós. O outro é o “próximo” a quem Jesus fez referência em Mateus 19.19 e que deve ser amado como nós nos amamos. Há algum Jadson perto de você?

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