Menina de ouro

Há algum tempo, fui visitar um amigo meu que mora num condomínio horizontal fechado. Num determinado ponto da conversa, começamos a falar sobre a intra-estrutura deste novo conceito de moradia, cada vez mais comum e valorizado pelos seus conceitos de segurança e privacidade.

Há algum tempo, fui visitar um amigo meu que mora num condomínio horizontal fechado. Num determinado ponto da conversa, começamos a falar sobre a intra-estrutura deste novo conceito de moradia, cada vez mais comum e valorizado pelos seus conceitos de segurança e privacidade.

A filha dele, Carina, de apenas 11 anos, até então alheia à conversa, começou a se interessar pelo assunto quando ele disse que, apesar da existência de piscina, quadras de tênis e poli-esportivas e salão de jogos, as crianças que lá moram quase não se conhecem porque as oportunidades de integração espontânea são muito raras, se resumindo à anual festa junina.


- É mesmo - ela concordou eu até conheço algumas meninas da minha idade que moram aqui, mas quase não as encontro. Às vezes, eu passo o dia brincando em casa sozinha, reclamou ela.

E não existe nenhum tipo de clube organizado pelos moradores para reunir as crianças e promover alguma atividade? Perguntei eu, dando corda para a Carina. Diante da negativa, soltei a idéia de alguém fazer isso, organizando uma agenda de atividades, alguns eventos, promover brincadeiras e até mesmo, porque não pensar alto, ter uma sede própria...

Carina ficou ouvindo atentamente. Eu sentia que ela assimilava rapidamente minhas idéias, pois vi que seus olhos apresentavam aquele brilho que anunciava uma viagem criativa da mente que logo se manifestou na empolgação da profusão de outras idéias:

- Poderíamos organizar um campeonato de futebol para os meninos, as crianças poderiam contribuir com um brinquedo cada uma. Talvez algum pai pudesse doar material de pintura. poderíamos até ficar cuidando das crianças menores enquanto os pais saem para passear...

EEpa!! Espere aí! Brecou o pai. Vá com calma mocinha, não é tão fácil assim. Veja só, para tudo isso que você quer, precisa de dinheiro, precisa da aprovação do síndico. Quem vai assumir as responsabilidades? Criança não cuida de criança, quem vai construir esta sede? Quem vai mobiliar? Quem vai manter? Não vá sonhando muito não porque eu sei que vai sobrar tudo pra mim depois.

Seguiu-se então um bate-boca entre eles baseado na argumentação e na contra-argumentação, na qual eu assumi a posição de mero observador passivo. Como em toda grande organização, o assunto se encerrou da forma tradicional. Quem tem o poder determina o fim da conversa: Chega Carina, esqueça tudo isso, tire estas minhocas da cabeça, vamos encerrar o assunto por aqui!, e voltou-se para mim para perguntar se eu tinha visto o último jogo do Palmeiras.

Cabisbaixa, decepcionada e frustrada, ela se encolheu em seu canto e se manteve absorta em seus pensamentos durante o resto da noite. Enquanto eu prosseguia com as conversas fúteis com seu pai, percebia de soslaio seu olhar distante de quem tinha sido contaminado pelo vírus empreendedor.

Ao me despedir naquela noite, longe do olhar de seu pai, falei bem baixinho para ela: Não desista, é uma boa idéia, vá adiante e veja no que dá. Lembre-se, se você não tentar, jamais saberá se daria certo ou não! Seus olhos se iluminaram novamente e ela me olhou agradecida. Parecia que era o incentivo que precisava.

Este episódio se deu há dois anos. De lá para cá, encontrei o seu pai rapidamente umas duas vezes, mas nunca tive a curiosidade de perguntar nada sobre o ocorrido. Neste fim de semana assisti ao filme Menina de ouro de Clint Eastwood que acaba de se consagrar na festa do Oscar com alguns dos principais prêmios, inclusive o de melhor atriz para Hilary Swank que interpreta Maggie, uma garota determinada a se tornar boxeadora e obcecada por ter Frankie Dunn (Eastwood) como treinador.

Como Dunn não aceitava treinar mulheres, a determinação de Maggie foi fundamental para superar as dificuldades e quebrar as barreiras que se interpunham diante de seu caminho até vencer, pela persistência, a resistência de Dunn. O que se dá a partir daí, é o florescimento de uma estrela mundial do boxe feminino.

O se empenho e determinação me lembraram Carina e suscitou uma irresistível curiosidade de saber como terminou aquela história. No dia seguinte, achei uma desculpa para ligar para o meu amigo e no final da conversa, meio sem jeito, perguntei como ela estava.

- Puxa vida! Toda vez que te encontro eu quero te contar isso e sempre me esqueço. Pois aquela menina foi tão insistente e teimosa com esta idéia que você deu que não me deixou em paz até que eu permitisse que ela tentasse montar um clube de crianças aqui no condomínio, principalmente depois que.sua mãe se juntou à ela, dizendo que assumiria a responsabilidade legal e seu irmão menor logo fez coro já pensando nos amigos.

E daí? O que aconteceu depois? perguntei tentando disfarçar minha ansiedade.

- Ora, você não imagina! Ela falou com o síndico que gostou da idéia, ela encontrou um espaço para construir a sede, que na verdade são duas, uma para meninos e outra para meninas. Juntou material e mão-de-obra como doação das obras que estavam em andamento no condomínio. Os móveis também foram doados. Ela arregimentou 12 meninas a partir de 7 anos. Fizeram toda a decoração com a ajuda das mães. Todas as tardes elas se encontram, criaram regras de ocupação e de manutenção em que todas entram na dança. Todos os meses tem festa de aniversário. Uma mãe está dando aulas de pintura, outra está ajudando elas a formar um coral. Já estão ajudando o síndico a organizar a festa de fim-de-ano com um show das meninas. Cara, é impressionante como ela se transformou com este projeto. Eu mesmo já não reconheço aquela garota tímida que era minha filha há dois anos. Está expansiva, comunicativa, dinâmica, atarefada, tem mil idéias e todos no condomínio já a conhecem. Agora ela está empenhada em ajudar o irmão a montar o clube dos meninos.

Os elogios prosseguiram por mais alguns minutos. A conversa só terminou quando eu assegurei a ele que iria visitá-los para ver o empreendimento da Carina. Desliguei o telefone com a satisfação de ter ajudado a colocar mais uma empreendedora no mundo.


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