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MBA, viagem sem escalas rumo ao sucesso e realização profissional?

Em pouco menos de uma década, temos visto no Brasil uma crescente valorização por três letrinhas que, muito embora já existissem há dezenas de anos principalmente nos EUA e Europa, começaram a adquirir um status de senha responsável pela abertura dos gigantescos portais do mercado de trabalho em posições de destaque e altamente remunerados (de preferência com cifras anuais de 6 dígitos).

Não contesto a validade e a importância deste tipo de curso. Aliás, ao longo destes últimos dez anos, muito tem sido escrito e publicado a respeito das vantagens e benefícios oriundos de tal investimento.


No entanto, justamente esta última palavra é que penso que deve ser analisada mais detidamente: investimento.



A educação – e o MBA por se tratar de alto nível – deve sempre ser encarada como um investimento e, como tal, está sujeito a riscos. É de conhecimento público que no mercado financeiro, a remuneração está intimamente atrelada ao nível de risco que a pessoa está disposta a encarar.



Para quem deseja risco próximo de zero, obviamente recorre à caderneta de poupança, porém a remuneração deste investimento é bem baixa. Por outro lado, quem deseja um retorno, digamos, bem mais consistente, tem à disposição um sem número de opções bem mais agressivas e igualmente arriscadas.

Pois bem, diante disso, a reflexão que convido a fazer é: será que realmente vale a pena “investir” todas as fichas em um curso de MBA?

Vamos analisar esta questão sob dois pontos de vista.

Primeiramente, por se tratar de um curso de alto nível, é recomendável que o profissional o faça na melhor escola em que ele puder entrar. Já que o investimento será alto e a expectativa óbvia de quem ingressa em tais cursos é de obter um retorno no mínimo compatível com o que investiu, não penso ser prudente ter em mente investir na poupança esperando obter retorno do mesmo nível de Bolsa de Valores, por exemplo.

Nesta linha de raciocínio, o investimento para se cursar nas melhores escolas de negócios do Brasil, pode tranqüilamente, representar investimentos da ordem de R$ 50.000 ou mais dependendo da escola ou mais de US$ 50.000/ano para quem desejar estudar no exterior (em ambos os casos, trata-se somente dos valores das mensalidades).

Em segundo lugar, é muito comum lermos diversos relatos de pessoas que obtiveram um sucesso estrondoso após a conclusão do curso, sendo que não raramente, há casos de profissionais que tinham até mesmo diversas ofertas concretas de trabalho antes mesmo do término do curso.

Não duvido de tais relatos, ainda mais em se tratando de egressos de escolas de ponta tanto no Brasil e principalmente as do exterior. No entanto, será que todos têm a mesma sorte?

Como qualquer bom vendedor, é claro que as escolas não vão querer fazer alarde com casos de insucesso e sim o inverso. Isto é absolutamente natural e normal.

Porém, uma das mais respeitadas publicações americanas de negócios, a revista Business Week, em um dos seus rankings das Melhores Escolas de Negócios dos EUA, ousou abordar este assunto de uma forma bem realista e imparcial.

Nesta reportagem, a revista alerta para o fato de que mesmo após mais de três meses de formados, diversos alunos ainda estavam desempregados, sendo que dois entrevistados se viram obrigados inclusive a retornar para a casa dos pais.

Um dos entrevistados foi Jeremy Andrus, um jovem de 30 anos recém-formado por Harvard – a fina flor das escolas de negócios americanas – que se viu obrigado a retornar para a casa dos pais em Park City, Utah.

Andrew Hodson, formado na Kelley School of Business da Indiana University, também se encontrava em situação semelhante. De acordo com a reportagem, ele passou por mais de 30 entrevistas ao longo de cinco meses, mas em nenhuma delas obteve uma oferta de fato por parte dos empregadores. Segundo ele, “tenho conseguido diversas entrevistas, mas elas não servem para pagar as contas”.

A pergunta que se faz é: porque tanta dificuldade em encontrar uma posição no mercado?

Existem duas explicações para o fato.

Em primeiro lugar, as escolas de negócios encorajam os alunos a só aceitarem o que elas chamam de “emprego certo” (ou “right job”, em inglês). Acontece que nem sempre esta oportunidade está assim tão disponível ou é facilmente encontrada. Diante desta constatação, diversos alunos têm-se sentido satisfeitos em conseguir o “emprego de agora” (ou “right now job”).

Em segundo lugar, o mercado de trabalho experimentou grandes mudanças ao longo de dois anos quando se compara a época em que estes alunos ingressaram nos cursos no ano de 2000 e em sua formatura dois anos após.

Para se ter uma idéia da situação, em 2000 na Columbia University, 99% dos alunos tinham pelo menos uma oferta de trabalho na época da graduação, ao passo que em 2002, este número despencou para 73% e três meses após a formatura, ainda havia 16% deles sem nenhuma oferta sequer.

Ou seja, em todas as escolas analisadas pela Business Week, houve uma queda significativa na taxa de sucesso de obtenção de emprego por parte dos formandos, sendo que em todas elas, os índices foram inferiores até mesmo ao desempenho de 10 anos antes.

Em termos de Brasil, tive conhecimento de uma situação na qual em 1997 um executivo de 33 anos desligou-se de uma empresa multinacional de origem francesa na qual trabalhava na Gerência Administrativo-Financeira, vendeu tudo o que tinha (um apartamento e dois carros) e embarcou rumo à Inglaterra para cursar dois anos de MBA na Durham University Business School (a terceira universidade mais antiga do país). O investimento total, entre mensalidades e despesas pessoais, ultrapassou os US$ 100.000.

No entanto, um ano e meio após seu retorno ao Brasil ainda continuava desempregado.

Além deste aspecto, outro fator igualmente relevante que deve ser levado em consideração pelo profissional interessado em fazer tal tipo de investimento é justamente em quanto tempo ele obterá o retorno sobre o capital (ou ROI, para usar uma terminologia de Finanças).

Infelizmente ainda não há levantamentos deste gênero no Brasil, porém, segundo a publicação americana, de acordo com o segmento de atuação do formando nos cursos de MBA eles obtêm o retorno sobre seu investimento conforme segue:

a) Em Consultoria, o investimento total atinge US$ 122.500 e o retorno chega após 5,3 anos;

b) Em Finanças, o investimento é de US$ 117.800 e o retorno em 5,6 anos;

c) Já em Marketing, são necessários 4,9 anos para o profissional recuperar os US$ 115.200 investidos;

d) E, por último, quem ingressa em Bancos de Investimentos, demoram o mesmo tempo que os profissionais de Marketing para recuperar os US$ 127.600 investidos.

Tais números representam as médias em cada segmento de atuação do profissional depois de formado e, há escolas que historicamente os egressos conseguem obter o retorno em tempo menor e, em outras maior. No entanto, é possível perceber claramente que o investimento não é pequeno e o retorno nem tão rápido como muitos imaginam que seja. Portanto, muito cuidado.

Sendo assim, o que faço questão de deixar claro é que não se trata, em hipótese alguma, de desencorajar as pessoas que façam este tipo de investimento em sua carreira e formação a fim de aumentar significativamente suas chances no acirrado mercado de trabalho. Muito mais do que isso, se trata de procurar analisar com mais isenção, cuidado e racionalmente que as três letras "M + B + A" combinadas não representam a propalada fórmula mágica do sucesso rápido, meteórico e livre de incertezas. Faz-se necessário sim, uma boa dose de muito trabalho e esforço pessoal para se atingir o objetivo que o profissional se propõe. Não se deixe iludir por histórias de sucesso instantâneas pós-MBA. Não que elas não sejam verídicas, mas sim que nem todos podem ter a mesma sorte ou, estarem sujeitos às mesmas condições favoráveis que tais pessoas.

Procure ponderar cuidadosamente todos os fatores apresentados, pois certamente você se encontrará em uma posição muito mais favorável e consciente do tipo de investimento que fará em seu futuro.
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